Pedro Passos Coelho já parece andar em campanha para as eleições legislativas. Na quarta-feira passada foi visitar um bairro clandestino na Trafaria, em Almada, para "estar atento aos problemas do país". O candidato à presidência do PSD sabia que não encontraria ali muitos eleitores para as eleições directas.
"Queremos falar apenas aos militantes, mas sobretudo aos portugueses", explicou Nuno Matias, director de campanha de Pedro Passos. Mas os seus adversários internos também não escapam à tentação de extravasar as fronteiras do debate interno do partido. "Portugal precisa de um Governo com coragem e de um primeiro-ministro com bom senso", dizia José Pedro Aguiar Branco à saída de um almoço-debate na Associação Comercial de Lisboa. Na sala também não estariam muitos eleitores para as directas e a intervenção do candidato centrou-se na situação económica do País.
De resto, Aguiar Branco procura explorar o conhecimento que o lugar de líder da bancada parlamentar lhe dá sobre alguns dos dossiés políticos mais quentes. Da mesma forma que Paulo Rangel não perde uma ocasião para falar da importância estratégica que o seu lugar de deputado europeu tem na percepção dos problemas do País e a encontrar soluções para as dificuldades (como, por exemplo, quando disse saber que a União Europeia permite que se desvie o dinheiro do TGV para outros fins). Nesta área, os três principais candidatos parecem medir forças constantemente, puxando dos galões do seu posicionamento actual.
Com os analistas a considerarem fraco o desempenho de Paulo Rangel nos debates televisivos, este candidato tornou-se mais assertivo. Por vezes, parece mesmo mais agressivo no seu discurso. Foi assim na reunião da Assembleia Distrital do PSD-Porto, onde foi o mais aguerrido orador. Nesse encontro, a diferença de postura dos candidatos foi bem visível, com Aguiar Branco a ser o mais sóbrio e Pedro Passos o mais eloquente.
Nas sessões de esclarecimento, a reacção dos militantes é sempre simpática e receptiva, a todos. Afinal, trata-se de uma contenda eleitoral dentro de casa e todos os candidatos estão do mesmo lado da barricada contra o Governo. Aliás, os maiores aplausos nas salas acontecem sempre que um candidato se insurge contra a debilidade da situação do actual primeiro-ministro, ou fala do clima de suspeição que se instalou sobre o executivo de Sócrates. E os militantes parecem animar-se sempre que um candidato coloca o cenário de eleições antecipadas e de uma alternância de poder que daí advenha. Foi assim, por exemplo, na reunião do Porto, quando Aguiar Branco afirmou peremptoriamente: "Tenho a certeza de que o próximo líder do PSD será o próximo primeiro-ministro de Portugal".
Rangel insiste na ideia de ruptura e diz que o partido apenas poderá merecer o poder se mostrar que pode cortar com a situação instalada. Mas este não é um conceito nada pacífico para os seus adversários internos. Pedro Passos e Aguiar Branco sorriem quando o ouvem falar em ruptura e perguntam-se com o que é que ele irá romper. Num dos debates, Rangel foi mesmo acusado de estar a recuperar ideias do socialista António Guterres, na sua proposta de descentralização do poder. O tema da regionalização, de resto, tem servido para aquecer o confronto entre os candidatos, revelando aquilo que os separa e também a forma cautelosa como se procuram posicionar não apenas perante os militantes, mas também perante os futuros eleitores das legislativas.
Com o congresso a aproximar-se, os candidatos também parecem suavizar as críticas directas aos adversários. Em Viana do Castelo, Pedro Passos inaugurou a sua sede de campanha mesmo em frente a um gabinete do escritório de advogados de Aguiar Branco. Mas nem uma palavra dedicou aos outros candidatos, preferindo centrar a sua intervenção em José Sócrates, o primeiro-ministro que "em vez de governar, chora, fazendo-se de vítima". Também Rangel e Aguiar Branco optaram por focar os ataques no PS, preparando-se para o momento em que terão de estar juntos no palco do congresso de Mafra, onde, como já perceberam na sua campanha de rua, o que rende palmas é criticar o Governo socialista.