Port-au-Prince não tem descanso. Ontem, às 6h03, um novo sismo, de 6,1 graus na escala de Richter abalou a capital do Haiti. O terramoto, que também foi sentido na República Dominicana, ocorreu oito dias depois da catástrofe de 12 de Janeiro, que destruiu 70% da cidade e provocou mais de 100 mil mortos.
Apesar da sua intensidade e de a cidade se encontrar em ruínas, o terramoto de ontem não provocou grandes danos. Mas provocou medo, muito medo. Segundo a polícia, o sismo derrubou alguns edifícios e fez vários feridos, entre os quais um jornalista português da RTP.
Os gritos que se ouviram em alguns bairros da cidade foram acompanhados por algumas nuvens de pó. Com a de ontem, foram mais de 40 as réplicas significativas sentidas nos últimos dias. Esquecer é impossível.
Dormir ao ar livre
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| O novo tremor de terra confirmou que dormir ao ar livre é a melhor decisão que se pode tomar em Port-au-Prince |
| Tiago Petinga/EPA |
O novo tremor de terra confirmou que dormir ao ar livre é a melhor decisão que se pode tomar em Port-au-Prince. A melhor e a única, para a grande maioria das 300 mil famílias que, todas as noites, dormem deitadas sobre o asfalto da cidade.
É pelo menos o que pensa August Williams, antigo empregado do Hotel Excelsior, que ontem perdeu a sua casa. A sorte poupou-o ao desastre da semana passada, mas a réplica acabou por deitar abaixo o seu lar. "É a vontade do Senhor", diz Williams, junto às ruínas do número 77 da rua Fort Mercredi, numa das colinas da capital haitiana.
"A minha casa estava bem mas caiu. Eu estava a escovar os dentes... Durmo ali (a poucos metros), na rua, com os meus cinco filhos. Foi um susto", acrescenta.
- Até quando vão continuar a dormir aqui?
- Só Deus sabe.
Orgulho funciona como defesa
À volta de Williams juntam-se quase cem pessoas. Abanam a cabeça, anuindo, quando se lhes pergunta se têm medo. E vão erguendo as vozes. Chegou ajuda a este bairro? "Não, nada, nada", respondem em coro. "Queremos comida!", declaram aos gritos. "Estamos apavorados", acrescenta um jovem. Mas ninguém diria. O orgulho dos haitianos funciona como defesa. Por vezes, parece que não sofrem. E, na verdade, foi tanto o sofrimento por que passaram que parece terem-se habituado a ele.
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| A presença armada norte-americana é muito visível no centro da capital mas também patrulha zonas limítrofes de Port-au-Prince. O Hospital Geral (foto) está sob regime militar |
| Marco Dormino/Reuters |
Entre os feridos causados pelo novo sismo inclui-se um polícia, que passava a noite na esquadra de Solomon. O agente, com um pé partido desde a semana passada, saltou do edifício e partiu o outro pé.
O terramoto assustou igualmente os que chegaram há pouco à cidade: marines e rangers. A presença armada norte-americana é muito visível no centro da capital mas também patrulha zonas como Petonville. As forças armadas dos EUA colocaram o Hospital Geral sob regime militar, para organizar o afluxo de pessoas, e controlam diversas áreas em torno do Palácio Presidencial destruído. No Palácio, voltou a ondear uma bandeira haitiana, a meia haste.
Mercado alternativo
A bandeira a meia haste é mais do que um símbolo - é também uma metáfora. A cidade morta quer voltar à vida. A economia de subsistência, a que os haitianos estão acostumados, está a recuperar. Vende-se de quase tudo mas é preciso ter dinheiro para comprar o que há.
A ajuda começa a ser distribuída, ainda que, evidentemente, sem a eficiência necessária. Há, contudo, bairros onde está a chegar com alguma eficácia. A presença dos norte-americanos parece estimular o resto das administrações.
O ranger Covián integra o destacamento que controla o acesso ao Hospital Geral. É filho de mexicanos. "Para aquilo que sofreram, estas pessoas estão muito calmas", diz ao Expresso. Cárdenas, outro ranger de origem latina, resume a opinião que reina entre estes militares: "Sentimo-nos bem-vindos."
Amputações com serra de supermercado
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| Os soldados de Obama ainda não realizaram o milagre: os alimentos e a água são distribuídos com dificuldade e a poucas pessoas |
| Jae C. Hong/AP |
Já o controlo do aeroporto de Port-au-Prince pelos soldados dos Estados Unidos não merece, nem de longe, tantos elogios. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) denunciou que "cinco doentes morreram, em Martissant, porque o nosso pessoal não dispõe de instrumentos, equipamentos e medicamentos".
Cinco aviões dos Médicos Sem Fronteiras foram desviados para São Domingos, com a demora que isso envolve. "Vimo-nos obrigados a comprar uma serra num supermercado para fazermos amputações. É uma corrida contra o tempo", salienta Loris de Filippi, coordenador dos MSF num hospital de Cité Soleil.
A maioria dos haitianos aguardava ansiosamente o desembarque dos soldados de Barack Obama. Mas estes ainda não realizaram o milagre: os alimentos e a água são distribuídos com dificuldade e a poucas pessoas.
O povo critica ainda a actuação do seu Presidente, que ontem se dirigiu à Nação. "Vou trabalhar duramente para levantar o país. A ajuda chegou de forma massiva", reconheceu Préval, que está empenhado em organizar a ajuda e em controlar a insegurança.