Quando a noite cai sobre a moribunda cidade de Port-au-Prince começam a elevar-se cantos fúnebres que nos causam arrepios na nuca. Dominam as vozes femininas nesta mistura de canto e de reza que se sobrepõe aos gritos dos feridos e ao pesado silêncio da morte.
Uma volta nocturna pelo que resta da capital do Haiti confirma a amplitude da tragédia. Há centenas de milhar de pessoas a dormir ao ar livre. Tudo serve de cama: jardins, cruzamentos, qualquer sítio onde haja um metro quadrado para uma pessoa se deitar. Trapos ou lençóis são os improvisadas cobertores. Alguns dormem no meio da rua, indiferentes aos carros que, sendo poucos, circulam a alta velocidade.
Tudo começou terça-feira, com um pequeno terramoto que, mesmo assim, meteu medo. Minutos depois, foi o apocalipse. Durante a terrível noite que se seguiu, houve vinte réplicas, qual delas a mais assustadora. Na madrugada de ontem, nova réplica serviu de despertador geral às cinco da manhã. Mais ninguém conseguiu pregar olho.
Mas o pior, neste momento, talvez sejam os assaltos. Em Delas, à nossa frente, assistimos ao saque do que restava de uma mercearia. Troco olhares com uma rapariga que foge com um televisor às costas e leio uma mensagem clara: ao ponto a que as coisas chegaram, vale tudo. Como contamos na edição impressa do Expresso, nem o armazém da ONU escapou. E lojas, sedes de empresas, prédios, tudo está a ser saqueado ainda que, olhando para o caos de pedras, ferros torcidos e pedaços de betão, não se perceba o que esta gente espera encontrar lá debaixo.
Numa esquina do centro, um grupo de jovem apedreja os carros que passam para os tentar fazer parar e assaltá-los. É assustador mas, por enquanto, ainda é esporádico. Para a maior parte das pessoas a preocupação central parece ser enterrar os mortos. Mas não faltam motivos para a tensão crescer. Diz-se aqui que o próprio presidente Perval já manifestou a um responsável estrangeiro o seu receio da reacção das pessoas quando a falta de comida se acentuar. Até porque, se há país com um longo historial de violência, é o Haiti.
O único simulacro de ordem reina no perímetro do aeroporto, guardado por fuzileiros navais norte-americanos e onde se concentra a ajuda internacional. Aguardam reforços, veículos e apoio aéreo - que deverão ficar operacionais amanhã - para começar a alargar a zona de segurança aos bairros residenciais. Espera-se a aterragem da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ainda hoje. Amanhã será a vez do secretário-geral das nações Unidas, Ban-Ki-moon.
Talvez o local mais impressionante deste circuito nocturno por Port-au-Prince seja a praça fronteira ao palácio presidencial. Há aqui uns milhares de refugiados. Protegem-se do frio nocturno com plásticos, cartões ou farrapos. Guardam a pouca comida que há como se fosse um tesouro e a água ainda mais. Apesar de tudo parece haver alguma fraternidade no meio da tragédia. Aos feridos por ali acumulados, à falta de remédios, dão-lhes algum carinho.
No meio disto tudo ainda continuam as buscas nos escombros, levadas a cabo por equipas onde se misturam profissionais especializados e simples populares. Ligam-se geradores eléctricos para alumiar um trabalho que parece não ter fim. E que, de vez em quando é recompensado pela descoberta de gente ainda viva no meio dos destroços. São pequenos milagres no meio da desgraça geral. O clarão doutras luzes vai antecipando a aurora: são as improvisadas piras funerárias, ateadas para evitar as temidas epidemias.