Neste último domingo, já pré-natalício e pantufeiro, a TVI fez o favor de passar um filme que explica, com notável concisão, todas as trapalhadas americanos no Iraque. Baseado no livro A Vida Imperial na Cidade Esmeralda, o ficcionado Green Zone acaba por ser um grande documentário sobre os erros americanos na gestão pós-Saddam
. Moral da história? Os americanos são notáveis na guerra, mas são umas crianças perfeitas no pós-guerra.
Certa vez, um oficial americano disse-me uma coisa que, na sua aparente simplicidade, é assustadora: quando um porta-aviões americano atraca numa cidade estrangeira, a maioria da tripulação não sai do navio para visitar essa cidade; fica ali, naquela cidade flutuante que recria o modo de vida americano. Ora, esta incapacidade americana para viver noutro ambiente cultural é a pedra de toque de Green Zone. Para começar, a tal Zona Verde em Bagdad é mesmo a representação gráfica deste autismo. O filme mostra que aquela zona de segurança é, na verdade, uma zona de escapismo. Em vez de estarem concentrados na gestão de uma realidade estranha que acabaram de invadir, os americanos estão concentrados nos jogos da NBA ou na piscina. A cena em que Matt Damon entra no pátio da piscina devia estar disponível em todas as bases americanas e em todos os think tanks de Washington.
Depois, o filme expõe a cegueira ideológica dos neoconservadores. Ao desmembrar o exército iraquiano com base apenas em princípios ideológicos, Washington abre às portas à guerra civil e à guerrilha que se seguiu. Decisão infantil? Pior: é uma birra infantil. Paul Bremer & Cia. tomam esta decisão contra a vontade daqueles que conhecem o terreno e a cultura local (representados no filme pelo agente da CIA). A incompetência é sempre uma parente do fanatismo ideológico. Para terminar, convém dizer que Green Zone mostra como um governo ideológico e missionário transforma a realidade ao seu belo prazer (o exemplo das ADM).
Numa época em que se fala do regresso dos conservadores à Casa Branca, convém recordar estes erros neoconservadores
do passado recente.