Relatório da troika: os portugueses são mesmo de brandos costumes
A missão permanente da troika em Portugal anda a ler história de Portugal para perceber melhor como funcionamos, como revelou a reportagem do Expresso de Luísa Meireles há quinze dias.
Encontram velhas repetições nos tempos de hoje em relação ao século XIX, entrada em bancarrota por excesso de dívidas, encargos de juros, despesas públicas muita acima das possibilidades para os "melhoramentos materiais", baixo crescimento económico e fraca produtividade da mão obra.
Mas se aprofundarem mais um bocadinho, os "homens de negro", como lhes chamam os nossos vizinhos espanhóis, não precisam só de dizer mal nos relatórios que enviam para o FMI.
A missão da troika pode perfeitamente referir que a fama que temos de brandos costumes, é rigorosamente assim. Aguentamos tudo sem partir um prato.
Basta referir que no anúncio na semana passada do seu pacote de austeridade, os espanhóis puseram Madrid a ferro e fogo por ficarem sem subsídio de Natal. Os funcionários públicos portugueses perderam o de Natal e de férias há um ano e até hoje nem ai nem ui nas ruas.
E, se lerem bem a História de Portugal, os homens da troika em Lisboa devem explicar ao FMI que nem sempre fomos assim de brandos costumes. O que torna ainda mais séria e credível a nossa boa natureza de hoje.
Na crise financeira de 1892, o governo reduziu unilateralmente a 1/3 os juros da dívida externa, o que deixou os credores à beira de um ataque de nervos. Coisa impensável de ver hoje Passos Coelho a fazer.
Na revolução da Maria da Fonte, a subida dos impostos, designadamente da contribuição predial, pôs o povo ao rubro. Hoje, a carga fiscal é muito maior mas toda a gente paga e não bufa.
As greves em Portugal, sobretudo na primeira década do sèculo XX, tinham sempre sangue à mistura. Hoje servem, basicamente, para fazer o jogo das taxas de adesão entre o Governo e os sindicatos e estes fazerem jogging pela Avenida da Liberdade, confraternizando à volta de uma água do Luso.
O pior de tudo é que havia assassinatos. O rei D. Carlos morreu porque o povo achava que gastava de mais e ainda se dava ao luxo de querer governar em ditadura com João Franco. E a este fizeram-lhe uma espera de horas em casa, na Rua Alexandre Herculano, para o matar mas como não apareceu... foram-se embora (já uma costelinha de brandos costumes).
Mais tarde o moderado primeiro-ministro António Granjo seria assassinado por extremistas que defendiam a sua corporação, a GNR (já o corporativismo), com requintes sádicos, numa camioneta fantasma...
Quando começaram os brandos costumes? Talvez não valha a pena a missão da troika meter-se por aqui.
O facto é que com o salazarismo, e o livre-trânsito concedido à Igreja para tratar dos nossos costumes e não se meter em política, amolecemos. Ao ponto de a ditadura ter durado 48 anos e cair por causa de uma questão corporativa de carreiras dos militares fartos da guerra colonial...
Resta saber ao que nos leva o atestado de brandos costumes enviado pela missão permanente da troika para o FMI. Aliviam-nos porque merecemos e confiam em nós ou somos tão bonzinhos ( e tão lorpas) que nos carregam mais um bocado?
Convém lembrar que o governante que denunciou o serviço da dívida em 1892, José Dias Ferreira (curiosamente avô de Manuela Ferreira Leite) acabou por ver o resultado da sua audácia recompensado, após nove anos de pressões em que ingleses e alemães chegaram a querer tirar-nos as colónias para nos refinanciarem.
Obteve um perdão de 38% da dívida e a sua conversão num novo empréstimo amortizável a 99 anos, com um juro de 3% que acabamos de pagar já no século XXI.


