A ilusão de que os mercados e as agências financeiras acalmariam por uns tempos durou menos de uma semana. Os credores não se comovem com promessas de sacrifícios, por mais duros que se apresentem a quem vai ter que os sofrer.
Acontece que uma decisão tardia é sempre uma má decisão. E não foi por falta de consciência da gravidade da situação, mas por cálculo político e eleitoralista, que o Governo adiou as medidas drásticas que agora já se mostram ineficazes. Primeiro, Sócrates quis ganhar as eleições de 2009. Tomou iniciativas anticrise de que não se viram outros resultados além da vitória do PS e deixou derrapar para níveis incomportáveis o défice que ele próprio havia controlado. Depois, receando que as "coligações negativas" no Parlamento, conjugadas com a eleição do novo líder do PSD e a hipotética intervenção do Presidente da República, levassem ao derrube do Governo, preparou-se para ir de novo a votos. Por isso, adiou decisões impopulares que outros Estados em situação similar já estavam a tomar. Finalmente, apertado pelas organizações internacionais, encostou as oposições e o país à parede, com um plano demasiado tardio para produzir efeitos junto dos mercados, como se está a ver, mas anunciado no momento mais vantajoso para si próprio, isto é, quando o Governo ficou protegido pela disposição constitucional que impede o Presidente de dissolver o Parlamento.
Quando não coincidiram, as conveniências partidárias foram postas à frente das do país. Ora, com este historial, o Governo e o PS não têm autoridade moral para reclamar o que quer que seja de um PSD já escaldado pelo acordo frustre do PEC II. Menos ainda para irem sugerindo que a aparente hesitação de Passos Coelho quanto ao orçamento é responsável pela persistente desconfiança dos mercados. Pode contribuir alguma coisa, mas não tanto como contribuiu o primeiro-ministro ao ameaçar, em Nova Iorque, com a demissão do Governo.
Em qualquer caso, os credores limitam-se a ver o que está à vista: Portugal mergulhou num pântano financeiro vicioso do qual dificilmente sairá pelo seu pé e sem o aval de terceiros. O nosso destino será o da Grécia, ou pior, se o Estado não se reorganizar de alto a baixo para travar o endividamento. E ninguém acredita que o PS tencione ou seja capaz de o fazer.
No entanto, por força do calendário político e do aperto internacional, o país está refém de Sócrates. Manter em plenitude de funções um Governo que se vai limitar a arrecadar receita para o défice e a confundir-se cada vez mais com uma comissão eleitoral do PS é um risco. Mas não é melhor alternativa oferecer-lhe o capital de queixa necessário para virar costas, para se vitimizar durante largos meses antes de ser possível ir para eleições ou, pior do que tudo, dar-lhe desculpas para não cumprir os compromissos assumidos em nome de Portugal. Viabilizar o Orçamento - seja o PSD ou o CDS a fazê-lo - é a única forma de confrontar Sócrates com as suas próprias responsabilidades.
Beleza, segunda vida
A vida - e em especial a vida pública - nem sempre oferece uma segunda oportunidade quando a primeira corre mal. Mas acontece. Com Leonor Beleza, por exemplo. Ministra da Saúde na segunda metade dos anos 80, saiu derrotada do Governo após uma guerra de morte com os médicos. Foi crucificada na imprensa e alvo de processos judiciais que lhe cortaram a meio uma auspiciosa carreira política ao mais alto nível. Dezasseis anos depois, regressou como presidente da Fundação Champalimaud para liderar o mais ambicioso projeto jamais desenvolvido em Portugal precisamente na área da Saúde, da qual tinha saído nas maiores dificuldades.
Com a inauguração do novíssimo centro de investigação para a área do cancro e das biociências, em Pedrouços, ganha corpo o sonho de um homem que devolveu à sociedade uma boa parte da riqueza que acumulou em vida. Que essa inauguração tenha ocorrido em plenas comemorações do centenário da implantação da República foi uma coincidência feliz: deu a uma celebração passadista uma certa marca de futuro, também patente na inauguração de escolas públicas. Mas aquilo que o Centro Champalimaud virá a ser depende, acima de tudo, da competência e da visão que for demonstrada pelos seus responsáveis e pela presidente em particular. Até agora, só há motivos para crer que, também na indicação de Beleza para liderar o seu projeto, António Campalimaud fez uma escolha acertada.
O cromo de Braga
O deputado do PS a quem Maria José Nogueira Pinto chamou "palhaço", numa reunião em S. Bento, voltou a fazer-se notar. Queixa-se de que a austeridade está a arruinar os "deputados de província". Ricardo Gonçalves, eleito e reeleito por Braga desde 1999, diz que os 67 euros de ajudas de custo por dia, ainda que somados aos 3700 euros de vencimento, não chegam. "Quase não temos dinheiro para comer", desabafou, sem se dar conta de como ofendia os muitos portugueses que, de facto, quase não têm dinheiro para comer.
A coisa pode ser vista como apenas mais um contributo para o anedotário político nacional. Mas, numa semana em que tanto se falou de ética republicana e parlamentarismo, pode a Assembleia inverter a via da decadência com exemplares destes a serem eleitos de legislatura para legislatura?
Fernando Madrinha
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de outubro de 2010