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Redes locais resistem às cheias na Austrália

Alexandre Coutinho
23:24 Domingo, 30 de janeiro de 2011

As comunidades do movimento Slow Food estão a contribuir para regularizar a distribuição de alimentos na Austrália, devastada pelas cheias de Janeiro. Em Brisbane, uma cidade em que vários bairros ficaram alagados, os mercados dos agricultores continuaram abertos, registando a presença de um número surpreendente de vendedores, apesar das limitações: pequenas produções para consumo imediato, dados os problemas de armazenamento e conservação. "Os vendedores do mercado têm clientes regulares e leais que os identificam como amigos e são capazes de fazer mais uns quilómetros para apoiar os agricultores", sublinhou Alison Peake, líder e organizadora do mercado de produtores do Slow Food em Melbourne.

Uma das áreas mais afectadas foi o vale de Lockyer, a Oeste de Brisbane - conhecido no estado de Queensland como a "saladeira". Após semanas de chuvas inusuais, as cheias foram fatais para muitos agricultores. De acordo com Julie Shelton, coordenadora da comunidade de produtores do Mary Valley, alguns produtores de abacates estão a ver as árvores a morrer e preferem abandonar o cultivo a reiniciar os pomares. A Nordeste de Brisbane, anda é difícil avaliar os estragos. Para não falar nas tragédias pessoais dos que perderam familiares na catástrofe. A maioria dos residentes está ainda sem telefone ou ligação por Internet e os deslizamentos de terras destruíram muitas estradas. Em todo o estado de Queensland, os prejuízos com a perda de colheitas estão estimados em 3000 milhões de dólares.

As cheias que devastaram os estados de Queensland e Victoria, no Leste da Austrália, deixaram milhares de pessoas desalojadas, mas também destruíram ou danificaram as colheitas em duas das regiões mais férteis do país, desorganizando o sistema de distribuição de alimentos e levantando sérias dúvidas quanto à validade de um sistema centralizado de alimentação. Em muitas áreas isoladas pela água, as prateleiras dos supermercados esvaziaram-se rapidamente. Nos dias a seguir às cheias, os supermercados deixaram de ter produtos frescos, mesmo existindo produtores locais não afectados. "Isto demonstra que não devemos regressar ao status quo anterior às cheias. Precisamos de construir redes de alimentos locais", afirma Julie Shelton.

Robert Pekin, da Food Connect, um programa comunitário de distribuição de produtos frescos, directamente do produtor ao consumidor, na área de Brisbane, também salienta os benefícios de um sistema de alimentação local e a capacidade de resiliência alicerçada nas relações de proximidade e na flexibilidade. Na prática, a Food Connect foi capaz de continuar a distribuir alguns alimentos frescos em áreas onde os grandes distribuidores não chegaram. "Este foi o grande teste. A experiência demonstrou as vantagens de um sistema baseado no conhecimento local. As perdas dos nossos agricultores foram muito pequenas. Não aumentámos os preços e continuámos a pagar-lhes muito mais - 59% do preço de venda ao público, comparando com os 15 a 20% normalmente praticados pelas grandes superfícies", acrescenta Robert Pekin.

O Governo australiano procura incentivar os retalhistas e distribuidores a apoiar os agricultores locais, através do estabelecimento de contratos de longo prazo e aquisição de produtos locais, mesmo que a qualidade possa ter sido afectada pelas cheias. Duas das maiores cadeias australianas, a Coles e a Woolworths, estão actualmente a comercializar produções de colheitas danificadas, mas também ponderam o momento em que vão optar pelas importações como forma de manter os preços baixos. A quantidade de importações de alimentos baratos tem estado a aumentar rapidamente e os responsáveis do movimento Slow Food temem que as cheias sirvam de pretexto para transferir mais compras para os mercados internacionais.

Palavras-chave  Blogues, Economia
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