18 de abril de 2014 às 9:03
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"Reality": da ilusão ao desespero

A vanglória da telerrealidade segundo Matteo Garrone.
Francisco Ferreira, enviado a Cannes (www.expresso.pt)
Aniello Arena em "Reality", de Matteo Garrone
Aniello Arena em "Reality", de Matteo Garrone

Ao dia 5, Cannes já cobriu a aposta, já valeu a visita. Houve desilusões no fim de semana (já esperadas: do dinamarquês Vinterberg, do romeno Mungiu), mas também houve "Amour", de Michael Haneke e "Like Someone in Love", de Kiarostami. No primeiro, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva são sublimes (tanto que até um 'não hanekiano' se interroga: não é este o melhor filme do cineasta austríaco?). No segundo, conto moral de Kiarostami, a filmar com atores japoneses, pela primeira vez, no país do sol nascente.

"Amour" e "Like Someone in Love" são dois pequenos filmes que não têm uma ponta de cinismo nos seus títulos. Duas peças de câmara estranhas, surpreendentes, difíceis de balizar nas obras dos seus autores: são para já os melhores filmes a concurso.

Hong Sang-soo, sempre em forma, levou Isabelle Huppert para a Coreia no também precioso "In Another Country", embora o filme não acrescente particular novidade ao percurso de Hong: foi a atriz francesa que se adaptou ao sistema do coreano, e não o contrário.

Alain Resnais, aos 90 anos e novamente a concurso em Cannes (três anos depois de "Les Herbes Folles"), ao contrário de Haneke e Kiarostami, é bastante mais subtil em "Vous n'Avez Encore Rien Vu". Filme sobre a morte, sobre a despedida, mas também um coup de théâtre com ideias de cinema magníficas em cima de um texto aborrecido: "Vous n'Avez Encore Rien Vu" é um filme problemático, deixou-nos divididos. Mas é preciso ter cuidado com as aparências em Resnais. Filme a rever, sem dúvida - e que ninguém se admire se ainda viermos aqui traçar-lhe elogios.

Ainda falta "Holy Motors", de Leos Carax, e não há voltas a dar: daqui, ou sai desastre ou obra-prima. Falta "Cosmopolis", de Cronenberg: Cannes inteira está à espera dele. Falta ainda "Mud", de Jeff Nichols, para o qual partimos com as expectativas lá em cima (Cannes guardou-o para o último dia do concurso, no próximo sábado: sinal de aposta ou mera coincidência de calendário?). A todos estes filmes voltaremos com merecida demora. Para já, estacionamos em "Reality", do italiano Matteo Garrone.

Tempos de crise


Garrone é o realista social (realista, não retratista: leia-se bem) do cinema italiano contemporâneo. O homem que fundiu a vaga herança abandonada do neorrealismo nos tempos da globalização. Seguimos o seu trabalho desde "L'Imbalsamatore" (2002) e "Primo Amore" (2004). Seguimos a evolução e a metamorfose das suas personagens. Até "Gomorra", crónica documentada e provada da atividade da máfia napolitana e da penetração profunda dos seus 'valores' na sociedade que a gerou (foi com "Gomorra", mostrado aqui em Cannes, em 2008, que Garrone se impôs)

Um plano de Matteo Garrone - é preciso dizê-lo - vale dez filmes de Crialese, cem filmes de Sorrentino. Exagero? Veja-se como começa "Reality". Com um plano irreal: longuíssima panorâmica aérea sobre Nápoles de helicóptero que se funde depois (sem qualquer truque de truncagem?) num movimento de grua que traz a câmara à Terra. A entrevista com Garrone que há de vir começa por aqui: a grua desceu do helicóptero? Vinha em nave espacial?

"Grande Fratello"


Desembarcamos na comédia, num casamento de Disneylândia em que a figura maior da noite é um anónimo que a TV transformou em vedeta. Nesse casamento, está Luciano, peixeiro da praça napolitana, falador entusiasmado, homem sério, pai de família. Por acaso, Luciano faz um casting para o Big Brother italiano, o "Grande Fratello", águas passadas da telerrealidade europeia que no país da bota ainda goza de popularidade extrema: entrou este ano na 12ª (!) temporada.

O casting sai-lhe a matar. Luciano convence-se de que vai mesmo entrar na famosa casa. "Pinóquio dos tempos modernos", como Garrone lhe chamou, o nosso herói deixa de comer, de dormir, vende a peixaria, perde a família, os amigos. Só tem olhos para o telemóvel, à espera que o chamem.

"Reality", um dos poucos filmes de Cannes (ainda) exibidos em película 35mm (fez figura de ave rara no aglomerado digital), vai longe e há muito que pegar por aqui. 1) o uso do Scope num trabalho de câmara (à mão) notável 2) a metamorfose de Luciano, visceral, patética, na incrível performance do ator Aniello Arena, herdeiro de outro napolitano, Totò. 3) o lamento pelo cinema e pela sua decadência, já que o "Grande Fratello" é rodado em Roma... nos estúdios da Cinecittà. Onde outrora se inventaram filmes, inventam-se agora miragens grotescas.

Comédia delirante ao estilo de um Risi e de um Monicelli, conto de fadas que se abate sobre um pobre homem, "Reality" descobrirá de seguida uma amarga crónica de costumes com uma comoção à beira do desespero. Uma crónica aplaudida pelo também italiano Nanni Moretti, que está no júri, na cadeira do presidente.


Reality de Matteo Garrone Competição



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