No último 5 de Outubro o nosso estimado e ainda Presidente resolveu não comparecer na varanda da Câmara de Lisboa, onde foi proclamada a República há 99 anos. Parece que não queria interferir na campanha eleitoral autárquica. Não foi o primeiro a faltar à cerimónia, mas foi o primeiro a fazer uma cerimónia paralela no Palácio de Belém.
Como imaginará o meu caro leitor, sou pouco dado a formalismos. Se fosse diferente, teria umas coisas a dizer sobre este episódio. E essas coisas, parecendo pequenas, seriam da maior relevância. Recordaria a Cavaco Silva que as instituições são anteriores às pessoas concretas que ocupam cada lugar. E que uma das funções da continuidade deste tipo de cerimónias é exactamente mostrar aos cidadãos que, seja quem for que lá está, seja qualquer for o momento que se vive, elas continuam a funcionar.
Se eu fosse um conservador, explicaria ao senhor Presidente que o lado cénico da democracia é da maior relevância. Que não é indiferente falar de Belém ou da varanda onde a República foi proclamada. Que ao fazer o que os seus antecessores fizeram, sem nenhuma alteração, o Presidente submete-se, através da evocação da memória, ao Regime Republicano. Que ao não o fazer o Presidente o subverte.
Se eu fosse institucionalista, diria ao senhor Presidente que é a sua presença numa cerimónia que dura há décadas sem alterações que prova a independência da Presidência. Não a do cidadão Cavaco Silva, que é irrelevante. Mas a da instituição que existia antes dele e que depois dele continuará a existir. Que a sua cerimónia particular em Belém, essa sim, perturbou, do ponto de vista simbólico o acto eleitoral. E se eu não fosse quem sou acharia que o simbolismo do poder é fundamental para o Estado. Como não sou nada disto, quero dar os parabéns ao nosso caro Aníbal. Fico contente por saber que finalmente elegemos alguém que se está nas tintas para cerimónias, instituições, símbolos de poder e protocolo. Venham daí esses ossos, caro camarada.
Maus vícios
Deveria chegar o seu passado para tornar Pedro Santana Lopes pouco recomendável. Saltita de lugar em lugar sem quase nunca ficar em nenhum. Tanto lhe dá a Figueira como o Sporting, Lisboa como São Bento. É viciado em política no pior que este vício pode ter: gosta do jogo, da vitória e da derrota, do parte lúdica e do confronto, mas despreza o que na política tem conteúdo. Apesar de ser um político habilidoso, não se lhe conhece uma competência.
Como autarca, a sua marca é inconfundível: monumentais buracos nos orçamentos. E não se pode dizer que em troca tenha conseguido qualquer coisa que faça a diferença. O caso do Parque Mayer é talvez o mais sintomático: milhões para o lixo em troca de uma maquete. Gasta por gastar. Por não saber que a arte do bom político é fazer o impossível com pouco e não pouco com o impossível. Como tudo o que conhece é o jogo da popularidade é absolutamente incapaz de dar um passo que, sendo inovador (tirar carros de Lisboa, por exemplo), não seja disparatado. Se as vitórias de Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e Valentim Loureiro serão um bom barómetro da nossa saúde democrática, o resultado de Santana Lopes será um excelente indicador da exigência e da memória dos eleitores.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Outubro de 2009