"Querida, encolhi os jogadores!"
O futebol como produto de consumo vende-se muito melhor através das imagens individuais, heroicas e perfeitas, do que através de ideologias coletivas. Durante longos anos, o jogo adquiriu um caráter essencialmente atlético no sentido utilitarista do termo. Só que, microcosmos democrático, o relvado admite todas as formas de expressão, físicas e ideológicas. As glorificadas 'imagens individuais' podem, neste conjunto de armadilhas com bola, inverter a escultural lógica de Adónis. O relvado é dos jogadores, os treinadores são os estrategos da eficácia.
Wayne Szalinski não é um nome de um treinador famoso. É o nome de uma personagem de um filme profundamente disparatado em que o protagonista é um cientista lunático que, ao trabalhar na invenção de uma máquina maluca, consegue, sem querer, diminuir o tamanho dos objetos e encolhe os seus próprios filhos. Confrontado pela mulher não teve outra saída senão reconhecer o que fizera: "Querida, encolhi os miúdos!".
Lembrei-me desta história pensando no melhor futebol deste ano. Como os melhores perfumes, ele veio todo nos frascos mais pequenos.
Tudo começou no balneário (laboratório). Com o tubo de ensaio tático na mão, vários treinadores, com ideologias de jogo diferentes, Guardiola, Mourinho, Van Marwijk ou Del Bosque, tentavam, combinando jogadores, encontrar a melhor fórmula para as suas equipas. Após vários ensaios, a fórmula surge em calções e chuteiras dentro do relvado. As melhores expressões não têm mais de 1,70m. Iniesta, Xavi, Messi (o trio na senda da Bola de Ouro) e Sneijder, o 'duende laranja' esquecido. Através do seu jogo, com fintas, remates, passes, jogadas de encantar e, claro, golos, as suas equipas conquistaram os maiores títulos. O Mundial e a Champions (e, antes, as Ligas espanhola e italiana).
Há uma filosofia subjacente a tudo isto: posse de bola e qualidade de passe. São as bases da escola holandesa, inspiradora, através do legado de Cruyff em Barcelona, da sensacional seleção da Espanha orientada por Del Bosque, extensão estilística do Barça de Guardiola. Não teve Messi (1,69m de magia preso na quixotesca Argentina de Maradona), mas teve Xavi e Iniesta (1,70m cada um). Nenhum deles impressiona pelos músculos. Baixinhos, parecendo que todas as camisolas lhe ficam grandes, passeando discretos, sem tatuagens, gel, madeixas e namoradas top-model, eles são a antítese do jogador atlético pop-star que a perfeição publicitária glorifica.
Quando a bola está na relva, todos temos a mesma altura. O jogador tem é de conhecer o jogo. Descodificar todos os seus cambiantes, ritmo e táticas. Xavi e Iniesta são tanto médios como avançados (e vice-versa). Defendem e atacam. Atacam e defendem. Quando recebem a bola, parece que a atam com uma corda à chuteira. O famoso 'tiki-taka' (expressão quase de cartoon que traduz a qualidade de passe do seu jogo) cativa pela estética técnica como pela eficácia tática.
A maior ironia de todo este mundo artístico que gosta de ter a bola e brincar com ela surgiria, no entanto, no mais granítico e militarizado futebol do presente, a 'fórmula-Mourinho'. O seu Inter, além da sua identidade, programou-se como um 'vírus informático' para provocar um bug na imaginação de jogo do Barça. Na mais terrível noite da multiplicação tática dos defesas e dos laterais, conseguiu-o em pleno Nou Camp. Então, nem precisou da bola para isso.
Semanas depois, porém, ela queixou-se desse desprezo. E, saído das profundezas do 'laboratório dos baixinhos', surgiu Sneijder (1,70m), o elemento cósmico que deu a melhor dimensão ao jogo do imbatível Inter de Mourinho, campeão europeu 2010, algo que só alguém com esse respeito pela bola conseguiria. É a magia de Sneijder que, depois, levou a Holanda à final do Mundial.
O futuro do futebol não será, no entanto, assim tão romântico. A maioria dos seus cientistas desconfia da 'teoria de Szalinski'. A história, como sabem, está cheia de provas em contrário. 2010 'encolheu' os maiores craques.
P.S. - Na minha escolha particular, a Bola de Ouro de melhor jogador de 2010 seria para Xavi.
O 11 do ano
Procurar o melhor onze do ano é entrar em duas épocas diferentes. O final de 2009/10 e o início de 2010/11. Diferentes cenários, protagonistas semelhantes. Principal nostalgia: um extremo voador que agora assombra Madrid, Di María. Com Hulk, outro canhoto, foram as asas que fizeram voar pelas faixas o melhor futebol de Benfica e FC Porto. Na área, dois caça-golos de estilo diferente, Cardozo e Falcão.
A meio-campo, um motor e uma âncora. Moutinho, 'leão' ou 'dragão', um jogador para correr todo o relvado, defender, recuperar, transportar, atacar, passar, rematar. Médio completo, à frente de um 'farol', Vandinho, velho caminhante dos relvados que segurou o coração da equipa sensação do ano, o Braga de Domingos, vice-campeão nacional.
Na defesa, dois laterais que gostam de revisitar o espaço avançado de extremos onde ambos começaram as carreiras (João Pereira-Fábio Coentrão) e dois centrais imponentes: no corte, por terra e ar, a aura de Moisés; e na personalidade da antecipação, tackles e saída de bola com decisão, o estilo de David Luiz. Na baliza, de Braga para Itália, com grandes defesas mundialistas pelo meio, Eduardo, guardião da seleção.
'Bip bip' Coentrão
No início, a bola. Depois, a velocidade e a finta. Eis o extremo. Rebelde, por natureza, cada jogada um desafio à lógica do jogo. Até, por vezes, confundir o treinador e até ameaçar o equilíbrio coletivo.
Durante muito tempo, esta foi a história da vida de Fábio Coentrão dentro de um relvado. No Rio Ave onde nasceu, no Nacional e no Saragoça (onde quase não jogou) até ao Benfica, onde após olhares desconfiados chegou, por fim, a hora da confirmação. Nessa evolução, o papel do treinador, Jesus, que o transformou. Primeiro mentalmente, depois taticamente, até mexer com a sua posição preferencial.
De extremo para lateral. O mesmo flanco, o esquerdo, diferentes funções. Após as dúvidas iniciais, Coentrão revolucionou a posição e acabou com o debate quando aprendeu a defender sem, ao mesmo tempo, perder a dinâmica e a imaginação ofensiva. Hoje assume-se como lateral e é com esse estatuto que surge na lista de transferências dos maiores clubes europeus. Por tudo isto, talento e sua evolução, 2010 foi o ano de Fábio Coentrão, o 'bip bip' da Luz, nome de um desenho animado de velocidade estratosférica, que empolga qualquer estádio sempre que, com a bola à frente, arranca pelo flanco esquerdo.
Na relva, o 'T' de treinador
Mourinho, Guardiola ou Del Bosque. Os resultados, o jogo ou o cenário. Se for pela maior vitória, Del Bosque, campeão do Mundo com a Espanha. Se for pelo maior número de vitórias, Mourinho, campeão europeu e de Itália com o Inter. Se for pelo melhor jogo, Guardiola e o Barcelona, campeão espanhol. São critérios demasiado simplistas. Escolher o melhor exige cruzar critérios mais amplos. Para além do resultado, a visão estratégica do treinador (os jogos em que foi através da sua visão que a equipa ganhou), a qualidade de jogo (no plano técnico e tático), o criar de uma identidade (o chamado 'futebol de autor').
Del Bosque foge a este debate. O treinador de seleção é muito diferente do de clube. Falta-lhe tempo para treinar a equipa. Sem isso, é difícil criar um estilo próprio. Em geral, sem subverter as suas ideias, tenta aproveitar ao máximo os hábitos que eles trazem dos clubes. Foi o que fez Del Bosque. A sua Espanha é uma projeção tático-técnica do Barcelona.
Guardiola é hoje o guia espiritual de um projeto de futebol que começou muito antes de ele chegar ao seu banco. O atual 'futebol de autor' do Barça começou com Cruyff, teve avanços e recuos (Robson, Van Gaal, Rijkaard) e atingiu o auge com um filho da casa que, como jogador, cresceu desde o berço sob esses ditames. Guardiola é o novo profeta. De forma sublime, ele percebeu e incorporou todo esse legado estilístico no onze que formou.
É impossível distinguir um estilo de jogo típico de Mourinho. As suas equipas, embora estruturalmente fortes na organização defensiva e nas transições rápidas mal recuperam a bola, não têm uma identidade comum assim tão forte que as permita identificar em conjunto. Mourinho é a expressão máxima do moderno 'treinador da estratégia'. Foi assim que venceu a Champions, com um Inter taticamente 'camaleónico', que tanto atacou o Barça (em casa, ganhou 3-1) como só defendeu (0-1 em Nou Camp). De todos os treinadores é, claramente, aquele que mais transformou a equipa que treinou. Sem ele, nada daquilo teria sido possível.
A um líder exige-se que nos leve por caminhos que só ele conhece. Sejam eles os mais belos ou os mais maquiavélicos. Mourinho foi o alquimista, frio ou emocional, que, ora deslumbrando, ora assustando, ergueu um exército de futebol, derrotou os mais românticos, e, sem problemas estéticos de consciência, deixou, no fim de cada jogo, bem marcado na relva revolta, um enorme 'T' de treinador.
P.S. - Na próxima semana, nesta página, o(s) treinador(es) do ano no futebol português
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de dezembro de 2010


Iniesta, Messi, Xavi e Sneijder. Quatro mágicos que simbolizam (pela Espanha, Barcelona, Holanda ou Inter) o melhor futebol de 2010
