Que se lixem os autarcas laranjas
Passos Coelho é um pouco como Cavaco Silva quando chegou ao poder em 1985. Parece diferente dos outros mas é assim que vai levando a água ao seu moinho.
Sabe muito bem o que quer e para onde vai. E pode estar a pensar nele primeiro, como Cavaco sempre fez, bem disfarçado com frases não-políticas cheias de efeitos especiais, dos melhores, daqueles que passam despercebidos. Também à Cavaco.
Quando Cavaco perdeu as eleições europeias e autárquicas de 1989, depois de ter tido maioria absoluta em 1987, disse numas jornadas parlamentares do PSD em Março de 1990: "O PSD perdeu alguns votos mas Portugal ganhou, e isso é o mais importante para mim".
Passos inverteu os tempos de Cavaco no jantar da bancada parlamentar do PSD mas a substância é a mesma com a sua frase: "Que se lixem as eleições, o importante é Portugal". Depois enfiou a carapuça, ao concretizar que ninguém espera ganhar as autárquicas, nem as europeias, nem as eleições regionais dos Açores.
Com o efeito técnico do que se "lixem as eleições, o que interessa é Portugal", Passos tenta primeiro fazer o clássico de baixar as expectativas para as próximas eleições europeias e autárquicas. Para que a derrota por poucos possa, afinal, ser transformada numa pequena vitória face às politicas difíceis da troika que tiveram de ser tomadas. Mas esta estratégia é quase impossível. E os autarcas não vão engolir.
O mais que certo é o PSD perder por muitos nas autárquicas e europeias. Passos sabe isso. O "que se lixem as eleições" encaixa aqui. Esgota-se é nestes dois sufrágios. Esvaziando o que houver que esvaziar do voto de protesto.
Depois será tempo de começar a pensar a sério nas legislativas de 2015. Umas eleições que não são para lixar mas para ganhar. Já a jogar em dupla com Durão Barroso, para Passos continuar em S. Bento e Durão estrear Belém. Não é por acaso que os barrosistas estão caladinhos e só falam para segurar Passos, como aconteceu quando vieram em socorro de Miguel Relvas no caso da licenciatura da Universidade Lusófona.
No fundo, com esta estratégia de bonzo de Passos Coelho, quem pode sair queimado são os candidatos laranjas a autarcas pelo país fora e os candidatos ao Parlamento europeu. Passos sabe, aliás, muito bem que as próximas eleições autárquicas, que a troika quer realizar já com menos freguesias e concelhos, têm tudo para serem o maior terramoto eleitoral de sempre para o PSD, o grande partido do poder local.


