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Que parvos que os precários são!

"Que mundo tão parvo, onde para ser escravo é preciso estudar". A frase resume a "geração sem remuneração", que só por acaso até é o futuro do país. Afinal, quem são os parvos? (Com vídeo)

Paula Cosme Pinto (sapato nº38) (www.expresso.pt)
9:50 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011

Tenho uma amiga que trabalha há doze anos a recibos verdes na mesma empresa, sem perspetiva de ser inserida no quadro. Tenho outra amiga que, embora tenha um doutoramento, trabalha num call center onde ganha mais do que na profissão para qual estudou tantos anos. Tenho outra amiga que adiou durante três anos a vontade de ter um bebé porque é precária desde sempre. O tempo do seu relógio biológico estava a esgotar-se e partiu para a maternidade sem saber se será despedida quando descobrirem que a barriga está a crescer. Tenho uma amiga que fez uma gigante dívida na Segurança Social porque, durante vários anos, ganhou €500 a recibos verdes, sem obviamente ter hipótese de pagar os 29,06% do ordenado que lhe eram exigidos por lei.


Esta lista de amigas podia continuar por inúmeros parágrafos. Um reflexo preocupante da dita "geração sem remuneração", que não pode fazer planos de futuro tão simples como dar o passo para sair da dita "casinha dos pais". Talvez porque durante vários anos também eu fiz parte dessa geração, fui uma das centenas de pessoas que deu por si a levantar-se, emocionada, para dar a maior salva de palmas de todos os tempos aos Deolinda pela sua nova música, "Parva que eu sou", apresentada ao vivo nos Coliseus do Porto e Lisboa.

"Estagiar já é uma sorte"


Entre o público vi jovens que abanavam com a cabeça em sinal de total compreensão. Muitos tinham as lágrimas nos olhos quando a música chegou ao fim. E acreditem: não estou a enfatizar. Vi pais que agarravam nas mãos dos filhos, com a preocupação estampada no rosto. Afinal, como será o futuro desta geração precária, para quem "estagiar já é uma sorte"? Vi senhores de ar altivo, com botões de punho e esposas de casaco de peles, a pararem de rir e baixarem os olhos. Talvez envergonhados, gostava eu de acreditar.

Não duvido de que esta música se vá transformar num hino para a geração dos recibos verdes. De todos os que vivem na corda bamba, sem conseguirem sequer pedir um empréstimo ao banco caso não tenham a sorte de ter os pais como eternos fiadores de uma vida a prazo. Muitos deles a trabalharem há já demasiados anos de forma ilegal, explorados por empresas que teimam em descartar-se das suas responsabilidades. Já para não falar da fiscalização tantas vezes inexistente por parte das autoridades competentes. Nem muito menos da falta de proteção a quem decide quebrar o silêncio e denunciar uma situação irregular.

Oiço a música mais uma vez, abano a cabeça ao sentir a pele ficar, novamente, tipo galinha, e fica-me a pergunta a ecoar na cabeça: afinal, quem são os parvos no meio disto?


Que Parva que eu sou - apresentado pelos Deolinda nos Coliseus


Que Parva que eu sou (letra)

Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, para quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me para quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

 


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(1) Desculpe não ser políticamente correcto
CM84 (seguir utilizador), 4 pontos (Bem Escrito), 12:49 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Paula, sempre que chega o seu dia, preparo-me para a tentativa de inventar uma “estorieta”, mas desta vez não dá. Não pelo drama da situação, mas pela conclusão. A sua.

Olhamos prospectivamente para a nossa sociedade como uma colmeia de abelhas: há a rainha, os zangões e as operárias. Tudo com destino marcado. Ora por aqui, talvez se nasça com poder herdado, mas não se nasce para patrão ou empregado.

É redutor, alguém estudar na pretensão da obrigatoriedade de ter um emprego. As pessoas nem pensam em trabalho/produção, pensam em emprego. Desde 74 que se nasce com direitos; dá mesmo a sensação que não se nasce por decisão de uma mulher, mas porque alguém criou uma Lei do “direito à vida”. Seguida do direito à habitação e outros. Só faltando o direito à vida eterna, com a ilegalização da morte.

O “Estado” que criou toda a legislação garantística, não tem condições para a pôr em prática. Principalmente com a nossa mentalidade, em que aceitamos como normal que o político não tenha o objectivo de “servir”, mas de se servir. Ele, e os “seus”; a questão das “prendas” é sintomática: “personagens” acima de qualquer suspeita, acham normal usufruir de algo que é oferecido, não a eles, mas ao “cargo”. E nós anuímos, porque na nossa “cachimónia”, também o faríamos se lá estivéssemos.
 
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    (2) Desculpe não ser políticamente correcto    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos , 12:52 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
    Muito bem!    Ver comentário
makiavel (seguir utilizador), 2 pontos , 0:07 | Quinta feira, 3 de fevereiro de 2011
    Re: (2) Desculpe não ser políticamente correcto    Ver comentário
sardinha assada (seguir utilizador), 1 ponto , 16:13 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
    Re: (2) Desculpe não ser políticamente correcto    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 16:20 | Sexta feira, 18 de fevereiro de 2011
    Re: (2) Desculpe não ser políticamente correcto    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 16:38 | Sexta feira, 18 de fevereiro de 2011
    Re: (1) Desculpe não ser políticamente correcto    Ver comentário
socrates_lisboa (seguir utilizador), 1 ponto , 16:53 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Sócrates:Um Governo a recibo verde
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 10:07 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Quando o poder politico e quem o exerce mete uma geração num beco sem saída, só há uma hipótese: apeá-los do poder e pô-los porta fora.
É isso que em Portugal se deve fazer: os politicos no poder governam-se e não abrem horizontes: a vergonha dos recibos verdes é o exemplo da pura incompetência da politica no poder.
Por isso,fora com esta politica.
 
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    Re: Cavaco:Um Governo a recibo verde    Ver comentário
Ricardo33 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:55 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
    O salário mínimo nacional está na cauda da Europa    Ver comentário
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 11:47 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
    Re: O salário mínimo nacional está na cauda da Eur    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 16:28 | Sexta feira, 18 de fevereiro de 2011
Deolinda
Man on the Moon (seguir utilizador), 2 pontos , 12:09 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Parabéns pela coragem.
Abrunhosa, que foi um feroz crítico do Cavaquismo, está num silêncio profundo....
Silenciaram os horrorosos Xutos com a música do Sr Engenheiro...
Com tanta censura em Portugal quem poderá falar em democracia?
Vimemos uma democracia verde, feita de empregos precários a recibo também verde...
 
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Um paradigma da sociedade a mudar...
magalas (seguir utilizador), 1 ponto , 11:24 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Esta situação absurda resulta deste paradigma do lucro acima de tudo e de todos. Esta realidade não difere muito da escravatura, dita abolida, não passando de uma escravatura mascarada.
O tempo de "luta" (não de esquerda ou direita), mas de exigência de liberdade e igualdade, real e intrínseca.
Chegou a hora de mostrar o Nosso descontentamento e exigir mudanças. Não só nos (des)Governos e nos patrões, mas em toda a sociedade…
 
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Só uma geração?
Outubro1560 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:02 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Ponha duas ou três nisso.

Vamos ver se os 5% da Segurança Social, com que se pretende "benévolamente" forçar as entidades pagadoras a assumir outro tipo de responsabilidades (que não querem assumir se não já haveria contratos) não servirá apenas para aumentar a rotatividade da colaboração, sobretudo no caso dos "free lancers".

Explico-me: Quem com eles trabalhe a 100% - por inerência do destino e boa prestação - seja sub-reptíciamente "enxotado" para outras "freguesias" em benefício de quem faça da actividade um complemento, ou trabalhe a dois carrinhos. Mesmo que a sua prestação seja inferior. Mais uma facada no mérito?

Mais desempregados sem recurso ao subsídio de desemprego?
 
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Pasmei!!!
Grunf (seguir utilizador), 1 ponto , 12:36 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Parabéns Paula Cosme Pinto pela forma como complementou a canção.
Naturalmente que essa canção não irá passar nas rádios e será rapidamente esquecida - a nomenclatura no poder assim o exige.
Mas o que mais me impressiona na canção é que o público estava a ouvi-la pela primeira vez e reagiu de forma espontânea!
A minha sobrinha está em Angola, é advogada. Outro meu sobrinho vai para o Brasil, Curitiba, é arquitecto. O filho do meu vizinho na andar de cima está em Londres, é dentista. Encontrei ontem um amigo que não via há uns tempos e tem o filho em Paris, é fisiatra. A minha filha está a terninar engenharia quimica, pensa ir para Angola! ...
...
Criar um filho neste país para quê?
 
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Preocupa-me o futuro dos meus filhos
Pinto14 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:08 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
É realmente uma situação preocupante estq eu se vive. É por estas e por outras que nas próximas eleições o meu voto volta a ser para o CDS-PP. Mas enquanto o partido não tiver votos suficientes para concorrer com o PS/PSD duvido que isto mude.
 
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Mensagem aos precários e free lancers precários
Outubro1560 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:13 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Imponham-se no vosso local de trabalho.
A pouca vergonha funda-se no pavor do desemprego e no silêncio do próprio trabalhador.

Não esperem pelos sindicatos.

Muitos a imporem-se individualmente têm um impacto muito superior a uma luta orquestrada. Por muito que esta seja parte da equação.

A título de curiosidade, a petição do CDS-PP a respeito dos recibos verdes tem 14.365 assinaturas.

Se aínda não a conhecem aqui fica o link.
http://peticaopublica.com...

E não me venham os senhores da "esquerda caviar" falar de ideias populistas. A ideia interessa venha de onde vier. E se é populista significa que há muita gente em brasa.

Como alguém aqui disse a luta não é de esquerda nem de direita é de quem sofre na pele os efeitos do rombo.

Finalmente a pouca-vergonha dos recibos verdes está em foco!

Todos à luta! Não trabalho para pagar impostos! Nem para ter pesadelos à noite.
 
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    Re: Mensagem aos precários e free lancers precário    Ver comentário
carlitos_lx (seguir utilizador), 1 ponto , 11:47 | Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011
Pois ....
Joao Cannpos (seguir utilizador), 1 ponto , 16:58 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
... mas esses jovens com lágrima no olho são os que enchem tudo o que é concerto que se faz neste país ..... e não são poucos nem baratos .....

Eu acho que não é "para se ser escravo é preciso estudar" mas sim "para se trabalhar não é obrigatório estudar"

E trabalho há muito por aí .... Já não vai havendo é "empregos"......... e ainda bem ......
 
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    Re: Pois ....    Ver comentário
jojo_ODST_26 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:59 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
    Re: Até que enfim...    Ver comentário
beaba (seguir utilizador), 1 ponto , 16:04 | Sexta feira, 18 de fevereiro de 2011
Pois...
afonso aguiar (seguir utilizador), 1 ponto , 18:24 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Pois... Eu gostaria de acrescentar mais qualquer coisa,mas como a temática e a problemática são tão concretas e evidentes,não me ocorre dizer mais nada,a não ser:
pois... Pois..
 
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Nascer à hora errada ...
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 22:10 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
... e no local errado.

Sim, minha cara, isso acontece com muita gente, embora certas pessoas, normalmente pertencentes a uma faixa etária bastante mais velha do que a sua e ainda por cima, PARA CÚMULO DA IRONIA, a gozar de direitos pelos quais NÃO LUTARAM, direitos esses que eu, na MINHA FAIXA ETÁRIA dos 40 anos, também não gozarei, graças à falta de visão dessa gente mais velha, dizia eu, minha cara, essas pessoas não gostam de ouvir falar disso. Não me admira, por isso, que na base dessas revoluções que ocorrem um pouco por todo o mundo estejam envolvidas pessoas bastante jovens. Lutem pelos vossos direitos, porque se forem esperar pela boa vontade dos "mais velhos", podem esperar sentados ...
 
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    Re: Nascer à hora errada ...    Ver comentário
moncarapacho (seguir utilizador), 1 ponto , 9:01 | Quinta feira, 3 de fevereiro de 2011
    Re: Nascer à hora errada ...    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 9:51 | Quinta feira, 3 de fevereiro de 2011
Sorte
moncarapacho (seguir utilizador), 1 ponto , 9:05 | Quinta feira, 3 de fevereiro de 2011
Está cheia de sorte. Tem muitas amigas, o que é uma riqueza, e tem dinheiro para o concerto no Coliseu.
Nos meus tempos dava circo e ficávamos à porta por falta de verba.
Sempre houve algum progresso.
Atenção aos copianços do artigo de última página do Público de ontem.
 
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