Tenho uma amiga que trabalha há doze anos a recibos verdes na mesma empresa, sem perspetiva de ser inserida no quadro. Tenho outra amiga que, embora tenha um doutoramento, trabalha num
call center onde ganha mais do que na profissão para qual estudou tantos anos. Tenho outra amiga que adiou durante três anos a vontade de ter um bebé porque é precária desde sempre. O tempo do seu relógio biológico estava a esgotar-se e partiu para a maternidade sem saber se será despedida quando descobrirem que a barriga está a crescer. Tenho uma amiga que fez uma gigante dívida na Segurança Social porque, durante vários anos, ganhou €500 a recibos verdes, sem obviamente ter hipótese de pagar os 29,06% do ordenado que lhe eram exigidos por lei.
Esta lista de amigas podia continuar por inúmeros parágrafos. Um reflexo preocupante da dita "geração sem remuneração", que não pode fazer planos de futuro tão simples como dar o passo para sair da dita "casinha dos pais". Talvez porque durante vários anos também eu fiz parte dessa geração, fui uma das centenas de pessoas que deu por si a levantar-se, emocionada, para dar a maior salva de palmas de todos os tempos aos Deolinda
pela sua nova música, "Parva que eu sou", apresentada ao vivo nos Coliseus do Porto e Lisboa.
"Estagiar já é uma sorte"
Entre o público vi jovens que abanavam com a cabeça em sinal de total compreensão. Muitos tinham as lágrimas nos olhos quando a música chegou ao fim. E acreditem: não estou a enfatizar. Vi pais que agarravam nas mãos dos filhos, com a preocupação estampada no rosto. Afinal, como será o futuro desta geração precária, para quem "estagiar já é uma sorte"? Vi senhores de ar altivo, com botões de punho e esposas de casaco de peles, a pararem de rir e baixarem os olhos. Talvez envergonhados, gostava eu de acreditar.
Não duvido de que esta música se vá transformar num hino para a geração dos recibos verdes. De todos os que vivem na corda bamba, sem conseguirem sequer pedir um empréstimo ao banco caso não tenham a sorte de ter os pais como eternos fiadores de uma vida a prazo. Muitos deles a trabalharem há já demasiados anos de forma ilegal, explorados por empresas que teimam em descartar-se das suas responsabilidades. Já para não falar da fiscalização tantas vezes inexistente por parte das autoridades competentes. Nem muito menos da falta de proteção a quem decide quebrar o silêncio e denunciar uma situação irregular.
Oiço a música mais uma vez, abano a cabeça ao sentir a pele ficar, novamente, tipo galinha, e fica-me a pergunta a ecoar na cabeça: afinal, quem são os parvos no meio disto?
Que Parva que eu sou - apresentado pelos Deolinda nos Coliseus
Que Parva que eu sou (letra)
Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, para quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração 'vou queixar-me para quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
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