Para uns é a italianização do regime, para outros a montanha vai continuar a parir ratos, mas ninguém nega o óbvio. A imprevisibilidade do desfecho do 'Face Oculta'
e das escutas entre Sócrates
e Vara
vai manter o Governo, e muito particularmente o primeiro-ministro, sob um clima de suspeição que poucos acreditam augurar um desfecho standard para a legislatura. Tanto mais que não são um nem dois os processos judiciais em que o nome de José Sócrates tem sido referido ao longo dos anos.
O conselheiro de Estado João Lobo Antunes considera que este clima afecta a confiança em todos os sectores da sociedade. Confiança que é "uma condição de liberdade". Já o Presidente da República, admitindo estar "preocupado", escusou-se a ir mais longe: "Devemos deixar cada um dos órgãos, neste caso judiciais, fazerem aquilo que lhes compete", disse Cavaco Silva.
À justiça o que é da justiça, mas a política está metida até ao pescoço. "O caso não julgado (das conexões com Vara, arguido no 'Face Oculta') é pior para Sócrates do que se fosse julgado", afirma um barão e ex-ministro do PS, para quem o acumular de dúvidas, suspeitas e casos sobre os ombros de Sócrates, além de atrapalhar o rumo da governação, pode ter um efeito politicamente devastador. "O primeiro-ministro é muito resistente e a sociedade portuguesa é relativamente invertebrada, mas o desfecho imprevisível de tudo isto torna a situação muito complicada", argumenta o mesmo socialista, para quem as semelhanças entre o caso de corrupção que nasce num sucateiro de Aveiro e alastra a poderosas empresas públicas e privadas e o caso que há 20 anos abalou o regime em Itália, "são de arrepiar".
"Cumprir a legislatura assim é impossível", concorda um ex-ministro do PSD, para quem o próprio Sócrates pode tentar ir a votos mais cedo se vir que tem condições de ser relegitimado no poder, coisa que, alerta, contará provavelmente com o travão de Cavaco, a quem não interessa ter crises políticas antes das presidenciais. "Se Cavaco for reeleito, então sim, pode querer correr com ele, mas para já, não", conclui.
À direcção do PSD também não interessa precipitar um clima de insolvência política enquanto o partido não tiver consolidada a nova liderança que só será eleita na Primavera, mas Manuela Ferreira Leite decidiu, apesar disso, fazer prova de vida e passou ao ataque.
A líder do PSD pediu explicações no Parlamento ao primeiro-ministro: "É muito grave que subsistam dúvidas. Elas não se dissipam adiando investigações ou destruindo provas e o esclarecimento cabe, sem sombra de dúvidas, ao PM". A direcção do partido tem meia dúzia de iniciativas prontas a accionar, caso continue sem se saber porque foram anuladas as escutas que levaram o juiz de Aveiro a concluir estar perante matéria passível de incidência criminal.
"Deixar continuar este permanente clima de suspeição seria muito grave", argumentam no PSD. A decisão de explorar politicamente este caso não é alheia à convicção de que as escutas que o presidente do Supremo considerou nulas provam que Sócrates mentiu ao Parlamento. Ninguém no PSD admite conhecer as escutas, mas Pacheco Pereira foi claro na 'Quadratura do Círculo' quando, quinta-feira à noite, antecipou a suspeita que na sexta faria a manchete do "Sol": "Se o PM faltou à verdade quando negou explicitamente ter interferido no negócio para a venda da TVI, é muito grave", disse Pacheco.
Sócrates já tratou, entretanto, de introduzir uma nuance ao que dissera em Junho. Na altura garantira desconhecer a intenção da PT entrar na Mediacapital: "São negócios privados e o Estado não se mete neles". Ontem, precisou: "Uma coisa é discutirmos, com amigos, como fiz, relativamente a notícias que são publicadas nos jornais e a conhecimentos informais; outra é, como disse no Parlamento, como primeiro-ministro, o conhecimento oficial e prévio do negócio". Para o ministro Vieira da Silva, que também falou sobre o assunto, este caso é "pura espionagem política".
A resistência de Sócrates em esclarecer os termos do seu envolvimento no processo (não respondeu à pergunta do Expresso), remetendo para os órgãos competentes da Justiça, divide opiniões. Para o bastonário dos Advogados, Marinho Pinto, "se a escuta for ilegal, não deve produzir consequências, muito menos políticas. Permiti-lo será passar a mensagem de que o crime compensa e os fins justificam os meios". Para o ex-bastonário José Miguel Júdice, "se o primeiro-ministro não tem obrigação legal, nem foi legal o processo, só a ele compete decidir se deve esclarecer o que se passou". O facto de o nome de Sócrates aparecer em vários casos é desvalorizado por Júdice: "Hoje há uma visibilidade mediática muito maior".
Como reagirá o país a tudo isto? Luís de Sousa, investigador em matérias de corrupção, recorda os resultados de um inquérito datado de Fevereiro de 2007, no qual os portugueses - apesar de considerarem que o combate à corrupção é ineficaz - não lhe atribuem mais do que o 4º lugar nas prioridades do Governo, depois do desemprego, saúde e crescimento económico.
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009