Quando o gato gosta de gatos
A diferença está na escolha. Na possibilidade de escolha, porque, como explica o etólogo Rodrigo Saraiva, "há muito tempo que é sabido que há espécies animais com comportamentos sexuais dirigidos ao mesmo sexo, mas é preciso ter claro que muitas vezes se tratam de adaptações a situações específicas". Ou seja, se numa determinada espécie, num determinado momento, há falta de um dos géneros, não é de estranhar que os animais do mesmo sexo se aproximem. "Quando há poucas fêmeas, os machos cobrem-se uns aos outros", sublinha o especialista em comportamento de animais.
O assunto entrou para a ordem do dia quando o jornal norte-americano "The New York Times" publicou um artigo abordando a possibilidade de os animais adotarem comportamentos homossexuais. Com belas fotografias de casais de animais, o artigo mereceu a atenção internacional, tendo sido republicado em vários outros jornais, como o "El País". Tudo começou porque se verificou que, numa colónia de albatrozes no Hawai, vários casais eram formados por duas fêmeas, servindo de motivo para uma investigação detalhada e abrindo a discussão entre especialistas. O artigo norte-americano avança com a existência de atividade homossexual documentada em 450 espécies.
Tradicionalmente conhecidos entre os zoólogos como símbolos da monogamia animal, os albatrozes Laysa foram justamente a espécie que levantou a questão da homossexualidade animal. A descoberta, como explica o "New York Times", terá acontecido "quase por acaso". Porque sendo uma das espécies em que é extremamente difícil diferenciar os géneros apenas pelo aspeto, estas aves acabaram por permitir a observação de casais formados por duas fêmeas, com comportamentos praticamente idênticos aos dos casais heterossexuais.
Cuidados com as palavras
O problema, contudo, está na terminologia. Como classificar um casal como hetero ou homossexual, quando, no caso dos animais, estas realidades têm sempre explicações mais vastas? Mesmo o comportamento dos albatrozes Laysa terá uma justificação distante de qualquer desejo de homossexualidade: a atividade homossexual observa-se com frequência em populações animais em que escasseia um dos sexos e efetivamente há menos albatrozes machos do que fêmeas. Além do mais, como são necessários dois animais para incubar um ovo, duas fêmeas acabam por se ocupar da tarefa.
Há também referência aos machos das moscas de esterco que montam os seus semelhantes com o objetivo de cansá-los e eliminá-los e garantindo, assim, acesso às fêmeas disponíveis. Os golfinhos também se montarão uns aos outros como forma de estabelecer relações de confiança e de amizade. Resultado, as conclusões mais sensatas parecem indicar que o comportamento homossexual dos animais será tudo menos o resultado de um fenómeno uniforme.
No entanto, nos últimos dez anos, vários especialistas começaram a desenvolver novas hipóteses baseadas na observação real e prolongada de diferentes animais, tentando decifrar determinadas condutas homossexuais e perceber quais as consequências na evolução destas espécies concretas. Mas o olhar de Rodrigo Saraiva, professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Lisboa, é mais desassombrado: "A natureza está cheia de casos desses, que não podem ser observados de forma a antropomorfizar os animais."
Para este etólogo, mesmo os comportamentos que aparentemente se desviam da norma visam sempre um aspeto fundamental: a reprodução. "Considerar homossexualismo é uma extrapolação dos seres humanos. É simples, não se pode falar de homossexualidade animal." E Rodrigo Saraiva conclui: "A temática da homossexualidade está tão conotada em termos ideológicos, que é impossível fazer um trabalho sério nesta área."
Também no Jardim Zoológico de Lisboa, a temática da homossexualidade dos animais não é prioritária. Orientado para a preservação das espécies, o parque, com 126 anos de experiência, procura alcançar o mais próximo possível o comportamento original das espécies. E, segundo José Dias Ferreira, curador principal do Jardim Zoológico, "estes comportamentos eventuais não podem ser observados e, sobretudo, interpretados do ponto de vista humano".
Assim, este caminho que está cada vez mais a ser seguido entre os especialistas norte-americanos ainda não terá despertado a curiosidade dos pesquisadores portugueses. Mas certo é que, se e quando os trabalhos começarem a ser feitos, não estarão isentos de polémica. Afinal, a questão prévia a responder é saber se podemos, ou não, olhar para os animais com o mesmo ponto de vista que olhamos para os comportamentos humanos. E ter cuidado também para que não sejam feitas acusações de que se visa aproximar os comportamentos humanos das reações animais. Nada que não tenha já acontecido nos Estados Unidos a propósito de trabalhos publicados nesta área.
Publicado na Revista Única de 21 de Agosto de 2010


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