Para além da ajuda humanitária imediata às vítimas do sismo do Haiti, o encontro de hoje em Montreal, Canadá, com representantes de 20 países, tem como objectivo lançar as bases para o plano de longo prazo para areconstrução do país.
O encontro conta com a participação da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, o ministro dos Negócios francês, Bernard Kouchner, e o primeiro-ministro haitiano, Jean-Max Bellerive.
Representantes das Nações Unidas, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Inter-Americano para o Desenvolvimento estão também presentes, com o objectivo de serem estabelecidas as bases para o encontro de dadores, que deverá ser agendada para Março.
Entretanto a Venezuela, Bolívia e Nicarágua anunciaram que tencionam boicotar o encontro, em protesto contra a forte presença militar dos Estados Unidos nas Caraíbas.
Apoio vai estender-se por uma década
O Presidente Barack Obama prometeu que irá transformar profundamente o Haiti. Segundo o seu conselheiro especial para situações de crise na América Latina, Mark Schneider, a operação deverá prolongar-se por mais de uma década, envolvendo os Estados Unidos "no maior apoio financeiro alguma vez concedido a um país vítima de uma calamidade - o que se deverá traduzir em bilhões de dólares".
"Todos os que acompanharam atentamente a história do Haiti acreditam que esta é a sua grande oportunidade de cortar com o passado, e construir um verdadeiro Estado moderno", referiu Schneider.
O comentador político haitiano Michel Soukar defende que se devem criar quintas comunitárias, à semelhança dos kibbutz israelitas, o que conseguiria retirar centenas de milhar de pessoas da capital devastada. O professor Simon Fass, da Universidade do Texas, vai mais longe ao defender que terá de ocorrer a emigração em massa dos haitianos para o estrangeiro, como aconteceu com os irlandeses na Irlanda no século XIX.
Um Plano Marshall para o Haiti?
"É verdade que precisamos de um Plano Marshall para o Haiti (...) Mas para fazer o quê?", questiona Soukar, acrescentando que a elite haitiana não tem nenhum interesse na criação de um Estado hatitiano competente. "Mesmo agora, começam a planear em como poderão enriquecer graças à tragédia (..) em como poderão meter as mãos nos 100 milhões de dólares" (de auxílio ao Haiti)
Soukar alerta que os Estados Unidos devem assegurar-se que a ajuda chega de facto a grupos produtivos, tais como os agricultores, e não aos importadores de bens estrangeiros que ajudaram a dizimar a produção agricultura haitiana.
Liderados pela Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento, os regimes de diversos países têm tentado evitar que o seu auxílio acabe retido por funcionários corruptos haitianos, ministrando directamente a sua ajuda ao Haiti ou canalizando-a para organizações não governamentais (ONG). A estratégia levou a que desde os anos 60 tenham surgido mais de 10 mil ONG a operar no Haiti, com muito poucos resultados, considera Robert Fatton Jr., da Universidade de Virgínia, autor de uma obra sobre a transição falhado do Haiti para a democracia.
Teóricos como o antropólogo Arturo Escobar, da Universidade de Massachusetts, têm criticado os projectos internacionais de auxílio aos países do Terceiro Mundo, por procurarem transpor modelos tidos como universais, não olhando para as culturas onde são aplicados. Uma lógica que consideram permitir que os países ricos continuem a influir nos destinos das antigas colónias, que em lugar de se desenvolverem, criam perversos sistemas de clientelismo.