Há dias, uma certa-e-determinada-pessoa-da-minha-família passou uma manhã num laboratório de análises. À saída, essa certa-e-determinada-pessoa assistiu a uma cena que devia ter sido filmada, uma cena que devia estar disponível no youtube.
Uma senhora estava a pagar umas análises. Custo da coisa? Uns brutais 80 cêntimos. Perante este preço ultrameganeoliberal, a senhora perguntou o seguinte à menina do laboratório: "mas qual é o preço real destas análises?". A menina não percebeu e repetiu com um ar cândido: "são 80 cêntimos, minha senhora". Ante o bloqueio da menina, a senhora voltou à carga: "sim, eu só pago 80 cêntimos, mas quanto é que estas análises custam ao estado?". A menina, mais uma vez, não encaixou a estranha curiosidade da cliente. Sem perder a calma, a nossa heroína voltou a explicar o seu ponto: "minha querida, isto é comparticipado, logo, eu só pago 80 cêntimos, mas isto não custa só 80 cêntimos, pois não?". E fez-se luz na cabeça da menina. Levantou-se, foi buscar uns papéis e, no regresso, disse "essas análises têm um custo de 13 euros".
Portanto, aquela senhora estava a ensinar uma coisa mui simples àquela menina e ao resto dos clientes do laboratório: nós, cidadãos, não temos noção do custo real do SNS, porque o valor real dos atos médicos ou laboratoriais nunca aparece no recibo. Nós só vemos o preço protegido, e nunca o preço real. Por exemplo, uma consulta num centro de saúde tem uma taxa moderadora de 3 euros, mas o seu custo real é de 80/90 euros.
Ora, se fossem confrontados com o custo real dos atos médicos, os portugueses compreenderiam melhor a situação dramática do SNS, em particular, e do Estado, em geral. Seria uma boa pedagogia. E sabem que mais? Aquela senhora merece um beijinho repenicado, merece um beijinho bíblico.