Afinal a oferta da Telefónica pela participação da PT na brasileira Vivo poderá não ficar apenas' pelos ¤7,15 mil milhões, mas um pouco mais acima. É pelo menos essa a expectativa de alguns acionistas do operador histórico português, que já terão começado a falar em ¤7,5 mil milhões.
Fonte próxima da Telefónica avançou ao Expresso que este foi um valor que esteve em cima da mesa nas negociações entre a PT e o operador espanhol, concluídas sem sucesso a 16 de julho. À nova oferta de ¤7,5 mil milhões pelos 30% da Vivo, acrescenta a mesma fonte, juntar-se-ia uma proposta de aliança estratégica entre os dois operadores, em moldes ainda a discutir, mas que valeria "muitos milhões mais".
A PT não comenta cenários e mantém-se fechada em copas sobre esta matéria. Porém admite-se que não tenham sido os responsáveis da PT mandatados pelo conselho de administração para negociar com a Telefónica - o presidente do conselho de administração, Henrique Granadeiro, o presidente-executivo, Zeinal Bava, e o administrador financeiro, Pacheco de Melo - a falar em subir o preço, mas sim os acionistas.
Aliás, já assim foi quando a escassas horas da Assembleia Geral (AG) de 30 de Junho - dia em que o Governo usou a golden share para chumbar a oferta - a Telefónica subiu a parada de ¤6,5 mil milhões para ¤7,15 mil milhões, após conversações com acionistas de referência da PT. Um aumento que fez com que parte do chamado 'núcleo duro' nacional - BES, Ongoing e Visabeira - tivessem votado a favor da oferta, dando a vitória à Telefónica.
Além disso, a administração da PT tem colocado sempre a questão da venda da Vivo como um assunto estratégico e de futuro, e não de preço, na linha do que tem defendido o primeiro-ministro. Ou seja, o foco de Granadeiro e Bava é encontrar uma solução em que ninguém perca a face, especialmente o Governo português, que tem mantido um discurso intransigente na defesa da manutenção da PT na Vivo e no Brasil. Uma bota difícil de descalçar. E uma certeza: qualquer que seja a solução, será política.
Muita tensão e um plano B
As negociações entre a PT e a Telefónica têm sido muito duras e as relações tensas desde o início da oferta, e o panorama não mudou nas últimas semanas. A PT acusa de hostilidade a operadora liderada por César Alierta, como se tornou evidente esta semana, com a Telefónica a rejeitar a proposta de prolongamento do prazo das negociações até 28 de julho e a ameaçar com processos em tribunal. A Telefónica não quer dar o braço a torcer e tem mostrado desagrado pelo facto de sentir que nas negociações é demasiado visível a voz do Governo português. Voz que terá servido de argumento para "pedir mais dinheiro" segundo fonte da Telefónica. Já esta semana Ricardo Salgado afirmou que esse seria um cenário possível.
Não obstante o fim inconclusivo das negociações a 16 de julho, a verdade é que todos os envolvidos estão interessados em encontrar uma solução airosa para uma parceria condenada, numa altura em que parece cada vez mais inevitável a venda da Vivo.
A ganhar terreno como proposta tem estado, apurou o Expresso, a alternativa B que a Telefónica propôs quando subiu a oferta para ¤6,5 mil milhões. De acordo com esta alternativa, a PT alienaria de imediato um terço da participação na Brasilcel - empresa controlada em parceria pelos dois operadores ibéricos e detentora de 60% da Vivo - e faria uma opção de venda da totalidade ou de uma parte do remanescente à Telefónica no prazo de três anos. Este é aliás um dos cenários que algumas casas de investimento têm apontado.
A alternativa B daria à PT a possibilidade de continuar a receber dividendos e de se manter no mercado brasileiro até encontrar uma solução definitiva. Resta saber se esta possibilidade agradaria a todos, uma vez que não é mais que na prática a venda da Vivo de forma faseada e não de uma assentada. Acabaria por ser uma derrota para quem defende a Vivo como sendo estratégica para a PT, ou seja, para o Governo.
A PT não abre o jogo sobre as alternativas possíveis, mas parece ser evidente que está neste momento a estudar novos caminhos para sair desta situação. A operadora brasileira Oi é uma opção, mais de cariz político do que económico (ver texto ao lado). Mas na mira da PT poderão estar outros mercados. Quais? Bava não diz. Mas está a trabalhar nisso. E apesar de agora as negociações com a Telefónica estarem suspensas, a expectativa da PT e dos acionistas é que até 28 de julho algo aconteça. A Telefónica tem outro discurso: fonte próxima da empresa diz que as negociações dificilmente serão retomadas, mas que, a acontecer, a PT terá de ir a Madrid.
Litigância é bluff
Enquanto o nó não se desata, chovem as ameaças de processos jurídicos contra a PT por parte da Telefónica. Esta semana a operadora disse ter iniciado um processo no Tribunal de Haia e há outros na calha.
Os advogados da Telefónica acreditam que este processo poderá demorar no máximo um ano e utilizam na sua defesa dois argumentos: a partir de janeiro de 2013 será impossível por questões contabilísticas manter a parceria na Brasilcel, pois uma das empresas tem de controlar a operação; o acordo inicial era entre a PT e a Telefónica, mas a entrada do Governo coloca uma terceira entidade em jogo, o que o invalida. A Telefónica pretende ainda acusar a administração da PT de "incumprimento" dos deveres de mercado, por ter dito que a golden share não podia ser usada nesta operação, ao contrário do que acabou por acontecer.
Mas a PT diz-se tranquila, garantindo que está munida de pareceres que sustentam a sua afirmação. Além disso, a própria Telefónica escreveu numa apresentação sobre a oferta que a golden share não se aplicava neste caso. A PT defende-se ainda com o facto de não ser seu o entendimento de que a golden share poderia ser usada, mas sim do presidente da mesa da Assembleia Geral, Menezes Cordeiro.
E há quem admita que a ameaça com processos em tribunal por parte da Telefónica, não passa disso mesmo, porque a litigância poderia arrastar-se durante anos. Uma situação que não interessa a ninguém, e muito menos à Telefónica.