PSD: partido sem coração? - análise congresso (I)
1.O congresso do PSD adoptou, desta vez, o lema " um partido de causas". Pergunta-se, no entanto, quais são as causas do partido: será a causa social? A causa da igualdade de oportunidades? Da meritocracia? Não: o discurso do PSD - ou, pelo menos, dos seus mais altos responsáveis - resume-se à necessidade de aprofundar a liberalização da economia. É impressionante e chocante constatar que as questões sociais, os problemas concretos dos portugueses, foram completamente ignoradas pelos congressistas do partido social-democrata! O desemprego, o declínio da classe média, o aumento das falências de pequenas e médias empresas, o encarecimento do nível de vida...foram temas pungentes da vida dos portugueses que - embora estejam sempre na berra - meteram férias ou aderiram tardiamente à greve geral da CGTP, pois não passaram pelo Pavilhão Atlântico! Só esta constatação já deveria levar os militantes sociais-democratas a uma reflexão profunda: querem pertencer a um partido liberal (o partido mais à direita em matéria social e económica) do espectro partidário português? Queremos ser o partido do desmantelamento do Estado Social, da intervenção mínima do Estado e da exaltação de mercados (resta saber que mercados!)?
1.1.O PSD sempre teve na sua génese um forte cunho personalista e humanista. Personalista, porque acreditamos que o individuo é dotado de livre arbítrio para tomar as melhores decisões para a sua vida, para colocar a sua força criadora em seu benefício e, consequentemente, em benefício de toda a comunidade. Humanista, porque acreditamos que o indivíduo não deve ser deixado à sua mercê, ao dispor da vontade de alguns mais poderosos (hoje, dos mercados), garantindo-lhe as condições necessárias para se afirmar como ser livre e singular, respeitando a sua dignidade. Tais valores parecem ser estranhos - e muito distantes! - ao PSD actual liderado por Passos Coelho. E isto revela-se logo no tom com que fala aos portugueses: sem coração. Passos Coelho aborda os portugueses como se fosse um gestor a explicar a sua gestão aos accionistas da empresa - racional, técnico, explicativo, frio. Não inspira, nem entusiasma. O primeiro-ministro não acredita em valores, nem tem ideias firmes: apenas tem fé nas empresas, nos empresários e na sua livre iniciativa. Este PSD está feito à sua imagem e semelhança: é um partido sem ideias fortes, sem causas que mobilizem - apenas apoia o governo. Em tudo o que faz e decide - quer tenham mérito, quer sejam a negação do interesse público. O PSD está remetido à mais profunda e degradante irrelevância - que pena! O meu PSD não é este. E duvido que seja o PSD da maioria esmagadora dos militantes sociais-democratas...Só que por vezes o cheiro a poder é mais forte do que o idealismo das convicções. E Passos Coelho garantiu ontem a sua vitória. A vitória da sua equipa: o PSD de Sá Carneiro, de Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa acabou com a alteração do programa do partido. Esperemos que volte um dia...
E o discurso de Passos Coelho?
2. Dito isto, há que reconhecer que o congresso do PSD deste fim-de-semana não interessou rigorosamente nada aos portugueses. Para já, não perceberam por que razão o partido que lidera o governo do país numa situação particularmente complexa, se lembra de reunir-se para falar de umas balelas que inventam para se entreterem - isto foi o sentimento geral dos portugueses que desconhecem os estatutos do PSD. Depois, não houve uma intervenção que merecesse a atenção dos portugueses. Tudo previsível; nada de novo. O primeiro discurso de Passos Coelho foi uma tentativa falhada de marcar a agenda política: ao contrário do que a maioria dos jornalistas afirmou, Passos não pretendeu apenas falar aos congressistas na sexta-feira. Passos quis marcar o congresso com o conceito de "revolução tranquila" e o apelo à resistência histórica dos portugueses. Ora, o conceito de revolução tranquila é infeliz: de facto, podemos falar de revolução porque o governo intenciona acabar com o actual modelo de Estado e partir para outro de cariz liberal. Mas tranquila? Não é nada tranquila: está a ser bastante repentina e bruta! Até porque muitas das medidas foram impostas pelo troika, prevendo-se um calendário bastante curto para a sua execução! Por outro lado, não se trata de uma verdadeira revolução, pois os vícios das relações promíscuas entre o partido e o governo mantêm-se: Miguel Relvas garante a sua subsistência. Amanhã, veremos as três ideias fortes deixadas por Passos Coelho no discurso de encerramento do congresso.
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