26/05/2012 atualizado às 20:05
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PSD: Candidato contra Passos Coelho, procura-se

Manuela Ferreira Leite quer Paulo Rangel no ringue, Aguiar Branco prepara-se para o que der e vier. E Marcelo Rebelo de Sousa , ressuscitará?

Ângela Silva (www.expresso.pt)
9:45 Terça feira, 27 de outubro de 2009
Ao 25.º dia Manuela Ferreira Leite esclareceu que convoca eleições directas no PSD, mas não se será candidata
Ao 25.º dia Manuela Ferreira Leite esclareceu que convoca eleições directas no PSD, mas não se será candidata
Nuno Botelho

Paulo Rangel é o nome preferido de Manuela Ferreira Leite para defrontar Pedro Passos Coelho na corrida à liderança do partido. O ex-líder parlamentar do PSD teve uma longa conversa com Manuela Ferreira leite quinta-feira à tarde, antes do Conselho Nacional que deu o tiro de partida para a corrida à sucessão. Mas Paulo Rangel fechou-se em copas e nem sequer foi à reunião do partido onde a líder anunciou que marcará eleições internas depois do debate do Orçamento do Estado, ou seja, a partir de Março.

Depois do recuo de Marcelo Rebelo de Sousa - que esta semana disse não estar disponível para ir ao ringue por entender que aquilo de que o partido precisa é de unidade -, a ala do PSD que não quer Passos Coelho a Presidente ficou sem rosto. Paulo Rangel passou a ser o foco para onde as cabeças se viram, mas se Rangel não quiser, Aguiar Branco, o novo líder parlamentar, poderá avançar.

Para já, o Conselho Nacional mostrou que as estruturas do partido estão menos cacicadas para o lado de Passos Coelho do que se previa - os presidentes de estruturas decisivas como as distritais de Lisboa e Porto e a JSD, que apoiaram Passos Coelho há dois anos, disseram no Conselho Nacional que não estão comprometidos com ninguém - o que prova que a expectativa é grande sobre quem salta do outro lado.

Marcelo avança ou não?


Se fosse Marcelo Rebelo de Sousa, a vida de Passos Coelho complicava-se já que a capacidade de o professor federar por cima das tendências e estruturas do aparelho do partido é um valor seguro. E ainda há quem acredite que o compasso de espera até Março pode dar tempo para a vaga de fundo que o professor esperava e não teve.

Se o não de Marcelo for definitivo - como pareceu ser nos "Gato Fedorento", onde disse estar indisponível para o ringue e valorizou o comentário político como o verdadeiro centro do poder - "O poder é aqui" -, restam Paulo Rangel ou Aguiar Branco. São da mesma geração, são ambos do Norte, já foram amigos e foram-se distanciando. Ambos têm muita ambição política e se o segundo quiser avançar já para a liderança, será ele. Mas não é certo que Paulo Rangel queira.

Em privado, ele já deixou perceber que os que queriam Marcelo Rebelo de Sousa devem agora assumir a responsabilidade do recuo do professor. Se assim for, Aguiar Branco pode cavalgar a sua eleição quase unânime (77 votos em 81) para líder da bancada parlamentar para daí saltar para uma candidatura à liderança do PSD.

Vontade não lhe falta e a capacidade que revelou para federar a bancada na AR pode ser uma boa rampa para outros voos. Para o ajudar a ganhar apoios no aparelho do partido, Aguiar Branco conta com Agostinho Branquinho, ex-apoiante de Passos Coelho, ex-director de campanha de Manuela Ferreira Leite e actual vice-presidente do grupo parlamentar. Agostinho Branquinho é muito influente no PSD/Porto, não aposta em Paulo Rangel e há quem antecipe que ele ainda pode levar Aguiar Branco a apoiar Passos Coelho se Rangel avançar, coisa que, à partida, parece inverosímil.

Críticas de Passos não caíram bem


Passos Coelho não teve uma recepção esfusiante no Conselho Nacional. Ferreira Leite antecipou-se ao anunciar que convoca nova reunião daquele órgão após o debate do Orçamento para marcar as directas e assim retirou espaço de crítica ao adversário que não a pôde acusar de não clarificar as regras do jogo. O que empurrou Passos Coelho para outro tipo de críticas mais corrosivas - Manuela disse ter credibilizado o PSD e desvalorizou o peso da derrota de Setembro e Passos Coelho respondeu-lhe que "o pior cego é aquele que não quer ver" -, o que não caiu bem junto de alguns conselheiros que acham desnecessário demolir mais a imagem de Ferreira Leite.

Nuno Morais Sarmento marcou a diferença. 'Malhou' forte no estilo Passos Coelho ao alertar que não é com rostos e soundbytes (estilo, privatize-se a Caixa Geral de Depósitos) que se vai lá. E pediu ao PSD disponibilidade para densificar o debate, em torno de princípios, ideias e valores, convicto de que, indo por aí, os rostos surgirão. Será?


Nunca ninguém saiu assim...

Manuela Ferreira Leite inaugurou um novo estilo de gestão das derrotas eleitorais. Dos três líderes do PSD que perderam em legislativas no pós-cavaquismo - Fernando Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes - nenhum geriu a derrota como ela. Duma forma ou doutra todos clarificaram o que iriam fazer, dois ou três dias após a derrota. Manuela Ferreira Leite demorou 25 dias a dizer quando marca novas eleições e não esclareceu se se recandidata ou não. Em 1995, Fernando Nogueira convocou uma conferência de imprensa uma semana após a derrota com António Guterres para anunciar que ia marcar eleições internas e convocar um Congresso; em 2000, Durão Barroso demorou dois dias após a derrota com Guterres até anunciar que entendia ter condições para continuar, mas disse logo que convocaria um Congresso e que voltaria a candidatar-se à liderança. Teve Marques Mendes e Santana Lopes pela frente, defrontou-os e ganhou. Em 2005, depois da pesada derrota com José Sócrates, Santana Lopes ainda hesitou na noite eleitoral em clarificar o que faria - apenas prometeu "andar por aí" -, mas dois dias depois anunciava que iria promover um Congresso e que não seria candidato. Manuela Ferreira Leite bateu o recorde na demora e não levou a clarificação até ao fim.


Manuela tem 30 lugares para distribuir

A actual direcção do PSD, apesar de estar de saída, tem cerca de trinta lugares para distribuir a partir da Assembleia da República. Com a nova legislatura há uma imensa lista de órgãos cujo elenco tem que ser reeleito e não é crível que esperem seis meses pela nova liderança do partido. Conselheiros de Estado, o PSD elege dois na nova legislatura. Mas a lista de lugares que Manuela Ferreira Leite e Aguiar Branco (o líder da bancada social-democrata) terão para distribuir é muito maior. Para o Conselho Superior de Defesa Nacional, o PSD elege dois membros, para o Conselho Superior de Magistratura três e para o Conselho Superior do Ministério Público dois. Mas onde a lista engrossa é nas delegações parlamentares a vários organismos internacionais: três nomes para a delegação ao Conselho da Europa, três à Assembleia da NATO, dois à da CPLP, três à da Organização para a Segurança na Europa, três para a União Interparlamentar... a lista não pára. Presidências de Comissões Parlamentares, o PSD terá pelo menos quatro. E dois vogais na Comissão Nacional de Protecção de Dados. Para o senso comum, não conta. Mas as andanças no PSD para a caça ao lugar já começaram.


Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009  

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