O projeto de um grupo evangélico norte-americano de queimar o Corão a 11 de setembro suscitou hoje alertas em todo o mundo, temendo os Estados Unidos pela vida dos seus soldados no Afeganistão e por um aumento do anti-islamismo.
O "Dove World Outreach Center", pequeno grupo fundamentalista cristão com sede na Florida, quer queimar em público exemplares do Corão por ocasião do nono aniversário dos atentados do 11 de setembro.
A iniciativa, visando glorificar a memória das vítimas dos atentados, ocorre num momento delicado, o final do mês do Ramadão celebrado pelos muçulmanos.
Projeto coloca tropas em risco
Este projeto é "fonte de preocupação" e "coloca as (nossas) tropas em perigo", declarou terça-feira a Casa Branca, apoiando as preocupações levantadas pelo general David Petraeus, comandante das forças internacionais no Afeganistão.
"Estou muito preocupado com o potencial impacto", declarou Petraeus, considerando que a iniciativa servirá a propaganda dos talibãs no Afeganistão e reforçará o sentimento anti norte-americano no mundo muçulmano.
Numa manifestação de cerca de 200 homens, segunda-feira em Cabul, gritou-se "Morte à América" e "Viva o Islão".
Pastor da igreja empenhado na realização do projeto
O pastor da igreja em questão, Terry Jones, assegurou na cadeia televisiva CNN que as "palavras do general foram levadas muito a sério", mas adiantou estar "fortemente empenhado" em realizar o projeto.
"Não podemos recuar perante os perigos do Islão", disse.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, declarou-se "encorajada pela condenação clara e inequívoca do ato desrespeitoso" por parte "dos dirigentes norte-americanos de todas as religiões (...) assim como dos dirigentes norte-americanos laicos e dos líderes de opinião".
A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, também "condenou claramente" o projeto, afirmando respeitar "todas as crenças religiosas".
NATO e Vaticano contra a iniciativa
A iniciativa foi ainda condenada pelo secretário geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, que sublinhou que a mesma pode ter "consequências nefastas para a segurança das tropas".
O Irão assegurou que a realização do projeto provocará reações "incontroláveis", enquanto o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, denunciou a iniciativa de um "fanático".
A instituição sunita Al-Azhar, no Cairo, tradicionalmente moderada, considerou que, "se o governo (norte-americano) não conseguir travar (a iniciativa), (...) vai arruinar as relações da América com o mundo muçulmano" e "constituirá uma oportunidade para o terrorismo".
O Vaticano denunciou "um gesto de grave ofensa a um livro considerado sagrado por uma comunidade religiosa", manifestando a sua "profunda preocupação", num comunicado do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso.