Como seria de esperar, já surgiram vozes a proclamar que a maçonaria é uma entidade ilegítima (versão hardcore) ou, vá, esquisita (versão suave). A versão-com-cara-de-má ficou a cargo de Manuela Moura Guedes: "em democracia, não faz sentido haver sociedades secretas como a maçonaria"
. Nada como uma boa sentença moralista para resolvermos um problema institucional, não é verdade, cara Manuela? A versão-com-cara-de-santa saiu da pena de Marques Mendes. De braço dado com Julian Assange, o ex-líder do PSD diz que, num quadro de democracia e de transparência, não se compreende uma organização que assenta no secretismo
. Estes comentários mostram como o vírus wikileaks chegou bem fundo. Existe por aí um desejo por uma sociedade de paredes de vidro, de absoluta transparência. E, neste ambiente com o seu quê de totalitário, coisas como a maçonaria ou Opus Dei são imediatamente anexadas a teorias da conspiração.
Vamos lá ver se nos entendemos. Numa sociedade livre, as instituições democráticas devem ser transparentes, mas a sociedade pode ter organismos secretos, discretos ou exclusivos, sem paredes de vidro. Não podemos confundir instituições com a sociedade em geral. Na sociedade, x pode fazer um clube onde só entram pessoas ricas; y pode fazer um clube onde só entram brancos, e ninguém tem nada que ver com isso; w pode fazer um clube onde só entram crentes em Cristo, e a sua organização pode ser secreta ou discreta. Os maçons têm todo o direito ao seu clube interdito a "profanos", e ninguém tem nada que ver com isso. Dizer o contrário é entrar numa lógica de perseguição. Dizer o contrário é desejar ser o Marquês de Pombal dos maçons.
Ora, se devemos ter cuidado com esta mensagem de ódio (maçom é secreto, logo, é mau), também devemos ter cuidado com a mensagem oposta, que proclama o melhor dos mundos possíveis para a maçonaria. Se há pessoas a dizer que a maçonaria devia acabar (Moura Guedes), também há pessoas a dizer que não é preciso alterar nada na relação entre instituições e maçonaria, porque, ora essa, a pertença de um político à maçonaria é uma questão do foro privado (António Reis). Moura Guedes e António Reis estão errados, porque ambos são incapazes de pensar de forma institucional. Sim, não faz sentido defender a proibição de sociedades secretas, mas, por outro lado, não podemos continuar a fingir que a pertença à maçonaria é uma questão meramente privada. Quando x se movimenta na esfera institucional, ser da maçonaria não é o mesmo que ser do Benfica. E aqui não há volta a dar. A suspeição que se instalou é legítima e requer uma resposta institucional. Neste sentido, não deve ser difícil encontrar ordens políticas na Europa que obriguem x a declarar a sua pertença à maçonaria aquando do ingresso num cargo público.