Com cartazes e bandeiras "artesanais", poucas centenas de professores manifestam-se hoje à tarde frente ao Palácio de Belém. Pelo meio, comem um pastel para "matar a amargura" da profissão e há até quem apele ao voto à direita ou à esquerda, "mas, não no PS".
"Milu, Milu preenche os objectivos tu!" e "vota à direita ou à esquerda, mas não votes no PS" são as frases de ordem que um professor do Algarve traz ao peito e às costas em duas cartolinas presas por um simples cordel.
"Vim mostrar o meu desagrado com o que se passa nas escolas. Sou contra este modelo de avaliação de desempenho e defendo uma carreira única e digna. O Ministério teve ter mais em conta a opinião dos professores", afirmou à Lusa Jaime Martins, depois de uma longa viagem de autocarro, que lhe custou 34 euros.
Para este docente desiludido e desmotivado, a solução para resolver o conflito no sector da Educação é só uma: "a demissão da ministra Maria de Lurdes Rodrigues".
Ali ao lado, sentadas num dos bancos do jardim junto à residência oficial do Presidente da República, quatro professoras de Aveiro discutem a "teimosia" do Ministério da Educação e as suas medidas "economicistas".
Vestindo uma t-shirt negra com a inscrição "estou de luto pela Educação", já um pouco desgastada de outras lutas, Celeste Vieira justifica a sua presença no protesto pelos movimentos independentes com a necessidade de "manter a dignidade da profissão e continuar a defender a escola pública".
"Deve-se à teimosia do Ministério da Educação, que não entende que estas políticas não beneficiam em nada o sector. O estatuto da carreira docente é um desastre completo, feito por quem trabalha em gabinetes e desconhece a realidade", afirma Paula Gouveia, também professora em Aveiro.
"Subscrevo por completo", apressa-se a dizer uma colega.
Já Clara Lopes, professora da Escola Secundária do Bocage, em Setúbal, vai conversando com os colegas sobre o conflito no sector: "acho que temos um país de governantes que desrespeitam e têm achincalhado vergonhosamente a classe dos professores".
Os pastéis de Belém que tem dentro do saco de plástico que leva na mão ajudam a ultrapassar a angústia que sente.
"A ver se a gente mata as angústias de profissão com um docinho", brinca a professora.
Aproveitando os títulos dos jornais de hoje sobre os desenvolvimentos na investigação ao caso Freeport, um dos manifestantes empunha um cartaz onde escreveu "a Educação não é um outlet".
Os movimentos de professores convocaram a manifestação de hoje para sensibilizar o Presidente da República para o "clima de perturbação" que o modelo de avaliação de desempenho "está a provocar nas escolas", bem como para apelar à intervenção do Chefe de Estado para resolver o "conflito social" que o sector da Educação tem vivido nos último meses.
Fonte da Presidência da República disse à Lusa que os coordenadores dos movimentos vão ser recebidos no Palácio de Belém esta tarde por assessores da Presidência, informação confirmada por Ilídio Trindade, do Movimento Mobilização e Unidade dos Professores.