A guerra dos professores ao novo modelo de avaliação passou das ruas - e das páginas dos jornais - directamente para os programas dos partidos. Nas Legislativas, é deles o papel principal, ou não representassem só por si uma classe de 150 mil pessoas, isto é, outros tantos milhares de votos que importa não desprezar nesta altura do campeonato. Certo é que os cinco maiores partidos lhe reservam o maior número de referências eleitorais e de promessas. Todos falam em devolver o "prestígio" e o diálogo perdidos.
Ao todo, os professores são citados 131 vezes nos cinco programas eleitorais - do PS, PSD, Bloco de Esquerda, PCP e CDS/PP - analisados pelo Expresso. Há cinco anos, os mesmos programas reservavam-lhes apenas 56 citações directas. E se dúvidas restassem sobre o peso recorde que, nestas eleições, os partidos dão a este sector profissional as comparações tornam-se reveladoras. A segunda profissão mais referida é a dos magistrados, com três vezes menos referências que os seus colegas docentes. Os agricultores ficam mais de quatro vezes abaixo dos professores e os polícias têm direitos a seis vezes menos referências programáticas.
A contestação dos professores durou uma Legislatura, mas o pico da guerra surgiu no ano passado, com duas manifestações de mais de cem mil pessoas que tornaram o problema um calcanhar de Aquiles para o Governo de José Sócrates. "Esta classe teve acções irrepetíveis e um nível de intervenção pública durante quatro anos que não tem paralelo com mais nenhuma outra", diz João Dias da Silva, da FNE. Para o sindicalista - e um dos cabeças-de-cartaz da luta contra Maria de Lurdes Rodrigues - "é natural que todos os partidos queiram dar resposta a esta contestação" nos seus manifestos eleitorais.
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E o período de pré-campanha já provocou mudanças de agulhas no discursos oficiais. Sócrates veio, esta semana, admitir que "talvez não tivesse havido suficiente delicadeza no tratamento dos professores" e mostrando-se disponível para fazer "tudo o que estiver ao meu alcance para corrigir isso". A ministra recebeu o recado e, também ela, admitiu "dificuldades de comunicação com os docentes". Nada, porém que convença os sindicatos: "Não são palavras de última hora, com elogios a um mês das eleições que vão fazer esquecer quatro anos e meio", diz Mário Nogueira.
Com a FNE, o dirigente da Fenprof também aproveita a embalagem para exigir aos partidos que passem das palavras aos actos e, no mesmo lance, que garantam compromissos para o arranque do mandato do próximo primeiro-ministro. "O novo Governo terá de tomar medidas imediatas para restaurar o clima de confiança na Educação", diz Dias da Silva. Do caderno de encargos está, desde logo, a "suspensão do modelo de avaliação", assim como dos "efeitos dos processos já terminados" e dos procedimentos para o arranque do concurso para professor titular. Mário Nogueira tem já um caderno reivindicativo pronto para avançar mal o próximo Governo tome posse. E, para adiantar serviço, foram já colocadas por escrito aos partidos as perguntas a que o maior sindicato dos professores quer ter respostas. Deste inquérito, a Fenprof recebeu já a garantia do PSD do "fim do regime de quotas" para professor titular, assim como a suspensão do modelo de avaliação e a sua substituição por outro que lhe seja "oposto". Do PS há mais cautelas. "Será necessário" rever e "adaptar" o estatuto de carreira, dizem os socialistas, que admitem que as quotas podem "eventualmente tornar-se desnecessárias". Já o sistema de avaliação terá de se "adequar". O registo ficou feito.
Textos publicados na edição do Expresso de 5 de Setembro de 2009
PROGRAMA DO PS
2005
Os socilaistas prometiam um sistema de avaliação dos professores com "iniciativas que aumentem a motivação e a auto-estima dos professores"
2009
Apontam agora para a valorização do "trabalho e da profissão" e para o "reforço da autoridade dos professores na escola e na sala de aula". Prometem acompanhar a aplicação do estatuto de carreira e da avaliação senmpre com as organizações representativas dos docentes
PROGRAMA DO PSD
2005
Os sociais-democratas só se referiam uma vez aos professores, para falar num modelo de avaliação que seria "pilar de responsabilização" de docentes e escolas" perante os seus clientes", leia-se alunos, pais e comunidades
2009
As referências aumentaram tornando a "recuperação do prestígio dos professores" uma das "linhas mestras" do programa eleitoral. O actual modelo de avaliação é suspenso e virá outro menos burocrático
DISSERAM
"Se suspendesse a avaliação seria uma vergonha. Há custos eleitorais? Vamos ver" M. Lurdes Rodrigues, Nov. 2008
"Uma parte dos professores que foi para a rua votou no PS. E muitos deles não voltarão a votar. Este modelo está errado" Manuel Alegre, Nov. 2008
"Não posso recuar naquilo em que acredito e em que estou absolutamente convencido" José Sócrates, Março 2008