Até há 150 anos a questão nem se colocava. Pois tudo o que se comia era biológico. Ou seja, não havia uso intensivo de pesticidas, herbicidas ou outros químicos aliados à produção intensiva e maciça. Agora diz-se que os produtos biológicos estão na moda, mas surgem correntes a questionar os seus benefícios nutricionais. Será verdade? E de que estamos a falar, concretamente?
Um estudo divulgado recentemente pela agência britânica de Alimentação (Food Standard Agency) refere que os alimentos biológicos não têm mais nutrientes que os alimentos produzidos pelos métodos tradicionais. No entanto, esse mesmo estudo admitia que não incluíra qualquer análise ao impacto de pesticidas ou de herbicidas usados na agricultura convencional.
Por isso, mesmo admitindo que não haja diferenças significativas de nutrientes entre os dois tipos de produto com impacto na saúde humana, há que não esquecer os benefícios de se poder comer fruta, legumes ou carne com menos químicos.
"Os produtos biológicos são livres de pesticidas, químicos e resíduos, por isso são mais saudáveis e com mais sabor", defende a nutricionista Teresa Branco, especializada em metabolismo. E acrescenta, "um solo rico em matéria orgânica produz alimentos com alto teor de vitaminas e minerais. Os tomates, cereais, batatas, couves e feijões de agricultura biológica apresentaram de 20-40% mais antioxidantes do que os correspondentes produtos de agricultura convencional. O espinafre e as couves biológicas evidenciaram conter mais minerais zinco, ferro e cobre do que o espinafre e as couves em modo convencional".
Em defesa dos produtos biológicos surge também Alfredo Cunhal, director da Interbio, que lembra que "a produção de alimentos mais ricos e saborosos e menos contaminados é apenas uma consequência de um modelo perdurável e eficiente a pensar nos recursos limitados do Planeta". O também produtor da Herdade do Freixo do Meio, salienta que não se pode negar que o leite de uma vaca que anda ao ar livre, come ervas e alimenta a sua cria é nutricionalmente mais rico em antioxidantes do que o daquela que passa a vida a comer rações enfiada numa vacaria. Outro exemplo dado é o do tomate: "O biológico tem mais sabor, fibra e matéria seca que aquele que é produzido numa estufa e mais diluído em água."
É certo que os produtos biológicos são mais caros que os outros. Mas é a única desvantagem. A diferença de preços pode chegar ao dobro, dependendo do produto e do local de venda. Para Alfredo Cunhal, há, no entanto, um problema a salientar em relação à agricultura biológica que se faz em Portugal: "A falta de fiscalização."
Ou seja, há produtos que aparecem no mercado como sendo biológicos e não o são "porque não cumprem as regras básicas e o Ministério da Agricultura não fiscaliza", critica. Este problema afecta sobretudo a carne e o azeite, onde se encontram "alguns produtores que estão nisto só pelos subsídios", acusa. Por isso, chama a atenção para a necessidade de "mais credibilidade para o sector".