Lúcio Tomé Féteira "é declaradamente desafeto ao atual regime". Disso estava convicta a Interpol de Luanda em 1965, quando informa o subdiretor da PIDE de Angola sobre a chegada à cidade africana do "industrial, nascido a 21 de dezembro de 1902, em Leiria", e "solicita antecedentes".
A informação consta de um dos processos que a PIDE abriu com o nome do milionário. Eram seis - sabe-se pela numeração existente -, mas só restam dois nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, onde o Expresso os foi espreitar. Dos outros, desconhece-se o paradeiro.
A Polícia Internacional e de Defesa do Estado começou a seguir Tomé Féteira com alguma atenção logo no ano em que foi criada por Oliveira Salazar, isto porque em 1945 o médico e poeta Américo Cortez Pinto, um monárquico, organizou uma homenagem ao já rico proprietário da Covina e este fez um discurso que, "pelo tom e conteúdo, se prestou a uma especulação política lamentável".
Um dos processos, aberto em 1951 devido a uma queixa contra Lúcio, o irmão Albano (declaradamente afeto ao regime) e outros três cidadãos, foi arquivado por "não ter qualquer interesse político". Segundo a própria polícia, a carta da denúncia, que já não consta do dossiê, "não tinha fundamento e foi provocada por inimizade". Apesar disso, o inspetor ordenava que se aguardasse "melhor oportunidade, mantendo sob vigilância discreta os arguidos".
O outro processo é um conjunto de folhas soltas, escritas entre 1945 e 1969, que demonstram, pelo menos neste caso, seguir a PIDE os passos de Feteira principalmente através das notícias dos jornais. Há, portanto, registo das suas idas e vindas do Brasil, das viagens pela Europa e África, das muitas homenagens de que era alvo, dos financiamentos a iniciativas da oposição, partindo de um esquema organizado no Brasil, das reuniões noturnas na sua casa de Lisboa com "diversos indivíduos desafetos à situação", das atividades suspeitas do seu motorista Togo Batalha e dos operários das suas fábricas...
E também a reviravolta do seu posicionamento político quando, a propósito da visita de Marcelo Caetano ao Brasil, Tomé Féteira decide apoiá-lo, enviando uma mensagem aos jornais, na qual afirma que o novo presidente do Conselho "é a esperança de um Portugal mais humano e dignificado".
Meses depois, a Rádio Portugal Livre, escutada pelos serviços da Legião Portuguesa, noticiava, dada a reação às greves, "um novo nome a reter: Lúcio Tomé Feteira, da Covina, exemplar típico do patrão bandido".
Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010