Com uma vista desafogada sobre a ponte Vasco da Gama e o rio Tejo, o sexto piso do edifício novo das Varas Criminais de Lisboa estava vazio para mais uma audiência do julgamento da Casa Pia. Na assistência havia apenas um jovem que se diz vítima sexual de um político conhecido e duas senhoras habitués (uma delas com uma t-shirt colorida de Nossa Senhora), mas nem por isso os arguidos puseram menos empenho nas declarações deixadas em tribunal no dia reservado a ouvi-los, agora que a fase das alegações finais complementares se aproxima do seu desfecho.
Nas sessões anteriores (as últimas duas sextas-feiras), tinha sido a vez do Ministério Público (que dispensou declarações), dos advogados das vítimas dos abusos sexuais (que voltaram a pedir a condenação) e dos advogados da defesa. Faltava ainda os arguidos. Na pequena sala do Campus de Justiça no Parque dos Nações, Gertrudes Nunes, Hugo Marçal, Ferreira Diniz, Carlos Cruz, Jorge Ritto e Manuel Abrantes dispuseram-se por esta ordem, ocupando toda a primeira fila reservada aos réus. Na fila de trás, um único lugar foi tomado por Carlos Silvino, conhecido por Bibi, que se manteve afastado dos outros arguidos, apesar de já não se fazer rodear da segurança aparatosa dos tempos em que o julgamento decorria no tribunal militar de Santa Clara.
Com centenas de audiências acumuladas desde 2004, o ambiente é estranho para os jornalistas que não estão habituados a seguir o julgamento. Ricardo Sá Fernandes, advogado de Carlos Cruz, passou por Carlos Silvino e deu-lhe os parabéns pela vitória do Belenenses sobre o Porto no fim-de-semana passado. Um outro advogado pediu uma receita ao médico Ferreira Diniz.
Todos reformados
Bibi foi o primeiro a ser chamado pela juíza Ana Peres, mas confessou que não estava preparado para um depoimento e pediu para fazê-lo antes na sexta-feira, durante a próxima sessão, limitando-se a responder às perguntas sobre a sua situação familiar e financeira actual. O antigo motorista da Casa Pia vive actualmente com 450 euros por mês e foi aposentado.
Todos os arguidos, aliás, excepto Ferreira Diniz, que continua a exercer medicina, passaram à reforma durante o processo. Carlos Cruz, popularizado ao longo de décadas como "o senhor televisão", é o arguido que mais dinheiro perdeu com o facto de ter sido acusado, mantendo-se hoje com uma pensão de 3100 euros.
Carlos Cruz, que optou por não se queixar de quanto perdeu financeiramente com o caso Caso Pia, preferiu fazer a sua declaração de pé, reafirmando a sua "completa inocência" em relação aos factos de que é acusado, dizendo que não conhecia antes do julgamento os outros arguidos (e que por isso não podia ter praticado actos de abusos de menores conluiado com eles) e que sempre foi heterossexual, nunca tendo tido qualquer outra orientação.
No geral, as alegações finais dos arguidos acentuaram, mais uma vez, o sentimento de injustiça e desespero que vivem desde que o caso foi denunciado na imprensa no final de 2002. Hugo Marçal, que chegou a ser advogado de Carlos Silvino, foi quem se mostrou mais emocionado, jurando a sua inocência pela vida do filho ("que não viva mais um segundo"): "Tenho a certeza que estive no dia errado, na hora errada e no local errado. Ainda hoje pergunto a Deus porquê. Fiz a decisão errada de patrocinar uma pessoa que não o merecia."
Marçal aproveitou também para se lamentar da relevância dada aos testemunhos de ex-alunos da Casa Pia que se dizem vítimas de abuso sexual, que acusa de serem desprovidos de valores étnicos e de terem feito um "pacto de sangue e silêncio". "Por que é que a palavra destes rapazes têm mais importância que a minha?"
O julgamento continua na próxima sexta-feira, dia 6 de Novembro.