Gaston Borges, padre filho de portugueses e nascido em Paris em 1940, foi denunciado à polícia por um rapaz de 16 anos, com quem terá passado a noite de Natal. Quando foi detido, no domingo, 27 de Dezembro, estava acompanhado pelo afilhado, de 12 anos. Os pais deste último, depois de alertados pelas autoridades para a alegada pedofilia do padre, interrogaram o filho e apresentaram a seguir, igualmente, queixa contra Gaston.
Com o pretexto de ter muito trabalho, o padre tinha recusado convites da família e de diversos portugueses para passar a noite de Natal. "Não sofro de solidão, tenho muitos convites, três quartos deles da parte de portugueses", dissera a um jornal local poucos dias antes do Natal.
"Ele sempre foi nosso amigo, gostava muito dos portugueses e de Portugal, foi um dos fundadores da nossa associação, celebrava anualmente uma missa solene, na catedral, para os portugueses, em Outubro, em honra de Nossa Senhora de Fátima, e vinha sempre às nossas festas", explica ao Expresso Alberto Mateus, presidente da "Amicale franco-portugaise" de Sens, a 125 km de Paris.
Pessoa muito aberta
O dirigente associativo português da região da Borgonha confessa ter ficado perplexo com as acusações contra o sacerdote que, além de coordenar a actividade da Igreja francesa em toda a zona, oficiava na catedral local e dirigia a Pastoral dos Portugueses do departamento da Yonne, cuja capital é Sens.
"Era uma pessoa muito aberta, só posso dizer bem do homem, foi sempre bom para toda a gente, era uma pessoa excelente, andava sempre com um sorriso - ficámos todos naturalmente muito chocados com a notícia da sua prisão e não sei se as acusações contra ele são verdade ou mentira", acrescenta Alberto Mateus.
Ordenado padre em 1966, em Auxerre, capital da Borgonha, Gaston Borges era conhecido e respeitado em toda a França, designadamente pelos católicos portugueses.
Moderno e progressista
Moderno e considerado progressista - viveu em Portugal durante a "revolução dos cravos", em 1974 e, de acordo com diversos testemunhos, "era tudo menos um fundamentalista da religião" - estava muito ligado aos jovens. "Ele não se importa com o facto de as pessoas irem ou não à Igreja, para ele toda a gente é igual e gosta sobretudo dos jovens", disse a portuguesa Isaura Ribeiro, no passado dia 22 de Dezembro, ao diário "L'yonne Républicaine", de Sens.
Durante alguns anos, Gaston Borges fora assessor para os menores junto de um tribunal de Auxerre. Os portugueses residentes em Sens disseram ao Expresso não saber se algumas das crianças alegadamente abusadas sexualmente pelo padre são de nacionalidade ou de origem portuguesa.
Numa entrevista publicada no jornal da Borgonha, igualmente no dia 22 de Dezembro, o pároco luso-francês salienta a sua fama de bon vivant. "Um Santo triste é um triste Santo... eu gosto da vida, da alegria, de tudo o que permite ao homem viver bem", declarou então. Tinha fama de apreciar a boa mesa e o bom vinho. "A minha mãe dizia: 'Quando não se gosta de vinho, não se gosta de Deus'... Ela marcou-me muito", acrescentou na mesma altura.
Bispo de Sens confiante na Justiça
Gaston Borges fala português com alguma fluência e manteve desde muito jovem laços estreitos com Portugal, onde passava férias uma vez por ano.
Os franceses da região também ficaram estupefactos com a notícia da sua prisão, nomeadamente o Bispo de Sens, Yves Patenôtre, que se manifestou "chocado" e "dolorosamente surpreendido". Confessando grande "estima" pelo pároco luso-francês, o Bispo assegura ter "confiança na Justiça".