Primeiros-ministros "técnicos" não convencem investidores
Os spreads da dívida dispararam para cinco países da zona euro na segunda-feira. O efeito Mário Monti durou três horas no mercado. Risco de incumprimento subiu nos "periféricos" e em França, Áustria e Bélgica. Bolsas europeias e Wall Street no negativo
Os investidores não estão ainda convencidos da solução política de nomeação de primeiros-ministros "técnicos", um eufememismo para a escolha de políticos independentes com imagem de "competência" e "rigor".
Essa é a conclusão do primeiro dia - 14 de novembro - depois da crise italiana que levou ao afastamento de Sílvio Berlusconi em Itália.
O dia correu ao contrário do que parecia indicar a nomeação de Lucas Papademos e a indigitação de Mario Monti, dois homens da Comissão Trilateral e muito ligados ao aparato europeu e às exigências colocadas pela Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.
Spreads de Áustria, França, Espanha, Bélgica e Itália disparam
O sintoma mais preocupante de que não ocorreu, ainda, uma inversão da situação de desconfiança, foi o disparo, na segunda-feira, do spread (diferença) entre as yields (juros) dos títulos soberanos de cinco países da zona euro e as yields dos Bunds, os títulos alemães, que servem de referência na zona euro.
Os juros dos Bunds tiveram uma quebra brutal, superior a 20% num só dia, particularmente nos títulos a curto prazo, a 2 e a 3 anos. Também, nas maturidades a 5 e a 10 anos houve quebras significativas, mas inferiores.
Num movimento precisamente contrário, os spreads para os títulos austríacos, franceses. espanhóis, belgas e italianos a 10 anos subiram entre 7,8% e 10,5%, variações diárias significativas. As maiores variações ocorreram para os casos austríaco, francês e espanhol.
No caso do spread entre os juros da dívida italiana e da dívida alemã a 10 anos, o valor de fecho voltou a aproximar-se dos 5 pontos percentuais e para o caso de Espanha subiu para uma diferença de 4,33 pontos percentuais.
Itália: Juros da dívida a 10 anos sobem para 6,7%
"O efeito Mario Monti durou apenas três horas esta manhã", concluiu o Linkiesta, um media italiano online. Na verdade, o ex-comissário europeu e presidente da Universidade Bocconi em Milão, ainda não formou governo, mas o seu nome parecia ser suficiente para recriar confiança nos investidores internacionais.
Mas o primeiro balde de agua fria ocorreu logo pela manhã de sgunda-feira. A operação de leilão de dívida a 5 anos pelo Departamento do Tesouro italiano conseguiu os €5 mil milhões pretendidos, mas a uma taxa média de 6,29%, quase 1 ponto percentual acima da do leilão anterior em outubro. Foi um primeiro sinal vermelho dado pelos tomadores desta dívida.
O efeito no mercado secundário da dívida não se fez esperar. As yields (juros da dívida) dos títulos do Tesouro italiano (BTP) subiram em todas as maturidades. Nos BTP a 10 anos, as yields voltaram a subir, depois das quebras de sexta-feira. Subiram de 6,45%, no fecho de sexta-feira, para 6,7% no fecho de hoje, segundo dados da Bloomberg.
Também a probabilidade de incumprimento da dívida italiana num horizonte de cinco anos fechou em alta em relação a sexta-feira passada. O risco de default subiu para 38,43% (quase 2 pontos percentuais acima do fecho de sexta-feira) e o custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) voltou a ultrapassar os 560 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. Isso significa que cada seguro contra o risco de incumprimento de um título soberano italiano de 10 milhões de dólares custa anualmente 562 milhares de dólares.
Segundo a Linkiesta, o responsável pela Federação Europeia de Bancos, Christian Clausen, teria recomendado aos bancos europeus continuaram a diminuir a sua exposição à dívida italiana "se não quiserem entrar no remoinho do epicentro da crise".
Espanha: Juros a 10 anos voltam a valores acima de 6%
As yields para as obrigações espanholas a 10 anos voltaram a galgar a barreira dos 6%, e fecharam hoje em 6,11% - não muito longe do máximo de 6,29% atingido em agosto.
Espanha viu também agravado o seu nível de risco, que subiu mais de 2 pontos percentuais em relação a sexta-feira, a seis dias das eleições legislativas antecipadas.
Risco de Bélgica, França e Áustria continua a subir
Segundo dados da Markit, o custo dos credit default swaps para a dívida belga a 5 anos fechou em 320 pontos base, para a dívida francesa em 215 pontos base e para a dívida austríaca em 202 pontos base. O que equivaleu a subidas do risco de incumprimento nos três países.
O diferencial entre o custo de um cds para a dívida francesa e de outro para a dívida alemã é já mais do dobro, o que revela as velocidades bem diferentes entre os dois pilares do atual G2 (Alemanha e França) que governa a zona euro.
Esta degradação do crédito para a França e Áustria coloca na mira de fogo o Fundo Europeu de Estabilização Financeira que conta para a garantia da sua credibilidade com a notação de triplo A de países como os dois referidos, a par da Alemanha.
Grécia: juros não descem
As yields dos títulos gregos continuam a subir em quase todas as maturidades. De destacar a subida dos juros a 5 anos, que atingiram hoje um novo máximo histórico (desde a adesão ao euro) de 40,55% (como comparação, os juros das obrigações do Tesouro estão em 13,56% e os dos Bunds em 0,89%!). O risco de bancarrota permanece no patamar dos 89%.
Apesar da formação do novo governo chefiado por um "técnico", Lucas Papademos, a situação contínua confusa. Apesar do novo governo interino integrar membros do PASOK e da Nova Democracia, esta última sublinha que não está num governo de coligação e que não co-governa. O líder da Nova Democracia, Antonis Samaras, afirmou mesmo, hoje, que não assinará nenhuma carta para Bruxelas nem votará favoravelmente mais novas medidas de austeridade.
"Bons alunos" com risco agravado
O vento negativo atingiu também Portugal e Irlanda. Nem os dois "bons alunos" escaparam.
O risco de incumprimento subiu nos dois países, que fecharam com valores acima dos de sexta-feira. Nos juros, a situação agravou-se no caso dos relativos às obrigações do Tesouro português e aos títulos irlandeses a 3 anos.
Bolsas fecham no negativo
As perdas nas bolsas europeias e em Wall Street influenciaram decisivamente o comportamento dos indicadores mundiais da atividade bolsista global e da negociação das entidades financeiras cotadas.
O índice mundial n segunda-feira caiu 0,7% e o índice relativo ao sector financeiro em bolsa caiu mais, ligeiramente acima de 1%.
Depois de ganhos na sexta-feira passada, com subidas de mais de 2%, o "urso" voltou a atacar nas bolsas logo no começo da semana.



