24 de abril de 2014 às 14:03
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Entrevista à RTP

Primeiro-ministro desvaloriza divergências com Presidente

José Sócrates garantiu que mantém um "bom relacionamento" com Cavaco Silva e mostrou-se confiante em que a justiça descobrirá e punirá quem usa o seu nome de forma "abusiva e criminosa" no processo Freeport.
Cristina Figueiredo
José Sócrates na entrevista com Judite de Sousa e José Alberto Carvalho Manuel de Almeida/Lusa José Sócrates na entrevista com Judite de Sousa e José Alberto Carvalho

Uma hora e cinco minutos de entrevista divididos, quase cientificamente, em três partes iguais: os primeiros 20 dedicados às relações entre o primeiro-ministro e o Presidente da República (que, desde sábado, têm vindo a ocupar boa parte do noticiário político); os segundos versando a crise económica e a estratégia do Governo para a combater; os últimos dominados pelo caso Freeport.

José Sócrates levava um objectivo claro para a conversa com Judite de Sousa e José Alberto Carvalho: tranquilizar a assistência televisiva (que é como quem diz, o eleitorado que lhe dará, ou não, nova maioria nas eleições legislativas daqui a cinco meses). Afiançar-lhe que, pese embora as últimas notícias, não são tensas as relações entre Belém e São Bento. Assegurar-lhe que, apesar da dimensão imprevisível da crise, o plano de combate do Governo está a produzir resultados. Garantir-lhe que, não obstante a história parecer longe do fim, tudo vai acabar bem no processo Freeport, com a justiça a apurar e punir os verdadeiros culpados.

O primeiro-ministro recusou-se a prosseguir a escalada que parecia ter iniciado no sábado quando, no seu discurso nas Novas Fronteiras, se recusou a aceitar as "políticas do recado" - no que foi interpretado como mais não sendo do que um recado para o Presidente da República. Sócrates mostrou-se convicto que Cavaco Silva "não se vai deixar instrumentalizar por nenhuma oposição, não se vai deixar envolver no jogo político", em ano eleitoral. Questionado várias vezes pelos jornalistas, quis objectivamente deixar claro que as palavras do chefe de Estado não lhe causam nenhuma incomodidade: "Tem todo o direito de dizer o que pensa da situação - isso não tem qualquer problema", desdramatizou.

Recusando a ideia de que tenha demorado até realizar a dimensão da crise - "nenhum economista ou instituição, antes do Verão de 2008, tinha ideia de que a recessão iria ter esta dimensão" -, aproveitou o incontornável tema da situação económica para apresentar o seu principal argumento de campanha contra os partidos da oposição neste particular: "Acho um abuso, e até uma certa infantilidade, pretendermos que esta é uma crise portuguesa". Por outras palavras: "O que está a acontecer em Portugal deriva da situação internacional".

E não desperdiçou o tempo de antena em horário nobre: enquanto o deixaram, elencou todas as estatísticas que pôde relativamente aos resultados das medidas do "plano anti-crise do Governo" - um plano "só possível porque tínhamos as contas públicas em ordem". Mais uma vez, a comparação com o que se passa lá fora deu-lhe argumentos para contrariar os que acusam o Governo de não ter conseguido ultrapassar os problemas estruturais portugueses: na Irlanda as previsões de défice apontam para os 10% e as estimativas de recessão para -8%.

Mas foi o aguardado tema Freeport a proporcionar os momentos mais 'quentes' da entrevista, com o primeiro-ministro a sair, por dois ou três momentos, do registo relativamente sereno que conseguira manter nos primeiros quarenta minutos da conversa. Um assunto que lhe tem merecido, reconheceu, silêncio e reserva: "Por respeito pela seriedade da investigação" e por "não querer contribuir para um tema que envenena o nosso espaço político". Mas que hoje decidiu quebrar: "Não posso ficar calado perante uma tentativa de assassinato político que me visa directamente".

Desta vez Sócrates fugiu à expressão "campanha negra", mas as alternativas não foram mais suaves: "Faz-me lembrar os regimes da América Latina em que se organizam processos judiciais contra políticos", afirmou; e ainda "sou vítima de um processo kafkiano". O primeiro-ministro, que garantiu não ter dúvidas das motivações políticas que criaram o processo Freeport - fez questão, aliás, de lembrar como nasceu o processo, em Outubro de 2004, "quinze dias depois de ter sido eleito secretário-geral do PS" -, revelou ter processado Charles Smith por injúria e difamação e mostrou-se esperançoso de que, "mais tarde ou mais cedo", a justiça encontre e puna quem tenha usado o seu nome "abusivamente e de forma criminosa com o objectivo de obter alguma vantagem ilegítima".

Confiante "no bom senso e razoabilidade dos portugueses", disse acreditar que haja elevada participação nas europeias de Junho e que não serão as consequências do Freeport a retirar-lhe a maioria absoluta nas legislativas de Setembro/Outubro. "Não me vencem desta forma", afirmou, acrescentando ainda, em tom de desafio: "Tenho pouco jeito para servir de vítima".

Comentários 4 Comentar
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A entrevista a José Sócrates
Não vi a entrevista mas, por aquilo que aqui se diz, José Sócrates fez aquilo que de alguma maneira se esperava dele.

1- pôs um pouco de água fria na polémica com o presidente da república em virtude de o país nada ter a ganhar com as querelas institucionais. Eu, que não sou primeiro ministro, nem tenho nada a ver com a política activa, penso que a "guerra" aberta por Cavaco Silva não faz sentido. Aquilo que ele veio dizer em público, deveria tê-lo dito nas reuniões semanais que mantém com o governo. Da forma como o fez dá o direito de pensar que Cavaco Silva está a fazer um frete ao PSD.

2 -Respondeu pela parte económica que mais preocupa os portugueses, de forma a não criar mais alarmismo. Um primeiro ministro não deve ser um elemento de desestabilização da situação social. Para isso já basta a crise mundial que nos está a afectar grandemente em virtude da nossa economia não ser capaz de produzir aquilo que consumimos.

3- No caso FREEPORT, independentemente de ele ter ou não feito alguma coisa menos transparente, seria bom que a justiça se fizesse célere a fim de evitar aquilo a Guterres em tempos, classificou como um "pântano".
Re: A entrevista a José Sócrates Ver comentário
A quem serviu este disparate ?
Numa entrevista de 60 minutos, dedicar 20 ( um terço ) a analisar as "divergências" com o PR foi um verdadeiro disparate .
E aqui ( há que "chamar os bois pelos nomes") a culpa vai inteirinha para a jornalista Judite de Sousa.
Por mais de uma vez o Primeiro-Ministro pretendeu mudar de assunto ( chegando mesmo a ser indelicado com ela) mas a jornalista insistia em voltar a chamar o Cavaco à colação.
Até parece que o País tem saudades da governação daquele Senhor (considerado por muitos como o principal responsável pelo estado das Finanças) ...
Não estamos num sistema Presidencialista nem o Senhor Cavaco é a Rainha de Inglaterra ou simbolo do que quer que seja ...
Perder um terço do tempo da entrevista a analisar se há ou não divergências entre os dois ... é fazer um frete ao Sócrates, que assim escapou a assuntos muito mais importantes
ISENÇÃO
Lamentável a ideia que as pessoas têm do jornalistas.
Jornalismo não é atacar, fazer politiquice ou oposição (Embora exista que o faça)
Jornalismo sério é investigar, é estudar para poder fazer as perguntas que o cidadão comum gostaria de poder fazer.
Quando acontece o contrário, estão a servir outros interesses...
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