Susan Hockfield, presidente da universidade americana, esteve recentemente em Lisboa e deu uma entrevista exclusiva ao Expresso.
Portugal é o primeiro país a aderir à Iniciativa para a Energia do MIT. É essa a principal razão para a sua vinda a Lisboa?
Há muitas iniciativas com Portugal neste momento. Foi a confluência de todas elas que me trouxe a Lisboa, para conhecer de perto a actividade do MIT Portugal, incluindo os sete novos programas de graduação e os programas de MBA. Neste momento temos três áreas de actuação fundamentais em Portugal.
Que balanço global faz dos três anos do Programa MIT Portugal na educação e na investigação?
Começámos de um modo experimental e agora focámo-nos em três dos programas com mais potencialidades, onde temos obtido bons resultados. Ontem à noite numa cerimónia de entrega de diplomas ao primeiro conjunto de graduados do Programa MIT Portugal. Há muitas componentes: uma delas é providenciar diferentes oportunidades de educação para estudantes que vêm de todo o Mundo para estudar em Portugal, e assegurar a conectividade entre o MIT e Portugal através desses estudantes. É muito importante para o MIT manter-se na vanguarda da inovação, e precisamos de parceiros internacionais para o conseguirmos efectivamente. Algumas das melhores ideias, dos problemas mais interessantes, das soluções mais inteligentes para esses problemas, encontramo-las fora dos EUA, fora de Massachusetts. Procuramos parceiros que tenham mais alguns valores nas áreas da investigação e da educação, que tenham mais algumas ambições em termos de ciência e tecnologia com impacto no nosso futuro, e desse ponto de vista encontrámos muito bons parceiros em Portugal.
Nas três das áreas-chave do MIT Portugal - energia sustentável, cidades sustentáveis e engenharia das células estaminais - Portugal pode ser mais competitivo a nível mundial?
Claro que sim, e foi por isso que escolhemos estas áreas. Uma parte do que eu encontrei aqui que me impressionou foi o posicionamento da liderança, porque há certamente grandes problemas pela frente e para se avançar é preciso mobilizar as pessoas para trabalharem em equipa e com dedicação para mudarem as regras de jogo, e constatei essa liderança nestas três áreas, não só nas faculdades e nos programas dos alunos mas também no Governo, o que é muito encorajador e inspirador. Penso que Portugal pode desempenhar um papel relevante nos avanços da energia sustentável, das cidades sustentáveis e das células estaminais.
Em todo o caso, Portugal está muito mais avançado na energia sustentável do que nas células estaminais...
Mas as células estaminais são um campo que está, não direi exactamente na sua infância (infancy) mas na meninice (childhood). As contribuições podem ser feitas por laboratórios individuais, as maiores contribuições podem ser feitas até por laboratórios maiores, centros clínicos e de engenheiros a trabalhar em conjunto. No MIT temos uma iniciativa importante na área do cancro - novas terapias celulares - que junta biólogos e engenheiros, o que é uma abordagem pouco comum, mas esta combinação é absolutamente crucial para a investigação avançar nesta área, onde estamos muito activos. O MIT pensa que esta convergência, esta combinação entre biologia, ciências físicas e a engenharia será realmente a direcção para o futuro, será a grande história do século XXI. E em Portugal as pessoas perceberam como é promissor combinar as ciências da vida com a engenharia na biomedicina, pelo que o resultado do trabalho desenvolvido nas células estaminais está a ser brilhante, tendo já permitido melhorar a qualidade e a extensão do tempo de vida dos doentes
A propósito da mobilidade, os governos e os fabricantes de automóveis estão a criar na opinião pública a ilusão de que o futuro próximo será o carro eléctrico. Não acha mais realista um futuro com carros híbridos?
É uma grande questão. Nós não estamos apostados em saber qual será a tecnologia vencedora e não acreditamos que há uma bala de prata que vai abrir uma única tecnologia para transformar o sistema energético mundial. Contudo, mesmo no MIT, a prioridade é acelerar a mudança para a energia solar, e da solar para a totalmente eléctrica. Há muita gente que pensa que o carro eléctrico será a tecnologia desejável e sei que Portugal está a fazer uma grande aposta nesta área. E, sinceramente, acho que este país é um bom local para o fazer, porque os desafios geográficos não são tão grandes como nos EUA. Portugal está bem situado nesta aposta e há um posicionamento conjunto do Governo, universidades e indústria nesse sentido.
"Os presidentes do MIT têm sido importantes conselheiros do governo americano"
Dizem que Susan Hockfield é influente junto da Administração Obama e Ernest Moniz, o director da Iniciativa para a Energia do MIT, pertence ao grupo de conselheiros do Presidente na ciência e tecnologia. O MIT tem um papel especial no aconselhamento da Administração Obama?
Há um contexto histórico para esta situação. Desde antes da Segunda Guerra Mundial que os presidentes do MIT têm sido importantes conselheiros do governo americano, devido às contribuições que o MIT tem feito para o desenvolvimento da tecnologia e da Ciência, e porque a instituição é olhada como um intermediário honesto, um lugar onde as pessoas vão para saber quais são as tendências dominantes da tecnologia e da Ciência actuais e como as políticas públicas podem ter impacto nessas tendências. Por isso não é surpreendente que no campo das energias renováveis o MIT tenha o mesmo papel. Contudo, este papel foi amplificado pela Iniciativa para a Energia lançada pelo MIT em 1996. Nessa altura era claro que o governo americano não estava preparado para nos ouvir e para financiar as novas tecnologias necessárias para mudar os nossos sistemas de energia. A Administração Obama é bastante mais aberta a este tipo de abordagens. Claro que durante a campanha presidencial, o MIT deu igual apoio aos candidatos republicano e democrata, fornecendo a informação que sentíamos que seria útil para eles, e que lhes permitiria desenhar, na prática, as respectivas políticas para os EUA. Nessa altura estabelecemos boas relações com a campanha de Obama e depois com a Administração Obama, e por isso não é uma surpresa que desempenhemos agora um papel de relevo como seus conselheiros nas novas tecnologias da energia.
Quando Obama visitou o MIT em 23 de Outubro passado, ele disse que os EUA "são a nação que vai liderar a economia de energias limpas do amanhã". Acredita que isso é possível?
Espero que os EUA sejam a nação que vai liderar a tecnologia da energia do amanhã. Os cientistas, engenheiros, economistas, politólogos do MIT e da nossa Sloan School of Management, todos têm uma visão que vai assegurar essa liderança, mas como nação deixámos as coisas ficar para trás. Com a liderança da Administração Obama os EUA serão capazes de desempenhar um papel importante na mudança dos sistemas de energia a nível mundial. Digo isto porque acredito que a competição entre as nações pode ser um saudável acelerador e catalisador para o desenvolvimento de novas tecnologias limpas. E é importante que os EUA desempenhem um papel importante neste processo.
Acredita que os EUA poderão liderar as negociações climáticas na Cimeira de Copenhaga?
Não faço previsões sobre Copenhaga, mas fiquei mais optimista desde que foram anunciadas as metas concretas da Administração Obama para a redução das emissões. Fiquei muito feliz com isso. Estamos numa fase muito emocionante e o acelerador mais poderoso são os jovens. Vejo isso no MIT, vejo isso em todos os EUA. Os jovens na América são apaixonados pela mudança do sistema energético mundial, são apaixonados pelas alterações climáticas e pela mitigação dos seus efeitos no uso da energia, através do desenvolvimento de novas tecnologias. E essa paixão, esse entusiasmo, irão conduzir o meu país e os outros países a concretizarem mudanças mais rapidamente do que a minha geração conseguiu.
Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009, 1.º Caderno, página 27.