Quais são os objectivos traçados para a selecção nacional nos próximos quatro anos?
Queremos que a selecção continue a marcar presença nos grandes palcos do futebol mundial, algo a que os portugueses já se habituaram. Este era, aliás, o mais importante desígnio a que me propus quando vim para a Federação. Felizmente foi conseguido, o que é importante não só para o prestígio e crescimento do futebol português mas também para o equilíbrio das contas da FPF, que encontrei praticamente na falência, em 1996, e hoje estão estáveis. Por isso, os grandes objectivos são os apuramentos para as fases finais do Mundial-2010 e do Euro-2012. Uma vez lá chegados, queremos ir o mais longe possível.
O contrato com Carlos Queiroz estipula objectivos?
O facto de termos objectivos não quer dizer que celebremos contratos por objectivos. Mas estabelecemos sempre prémios que contemplam, entre outras coisas, o apuramento para as fases finais.
O que foi pedido a Carlos Queiroz é muito diferente das directrizes de Scolari?
No que diz respeito às tarefas e responsabilidades, os contratos são idênticos, ou seja, têm responsabilidade primeira e directa sobre o Clube Portugal. mas também por todas as equipas dos escalões jovens. Cada seleccionador implementa o seu próprio projecto e Carlos Queiroz já disse que a prioridade era a selecção A, mas é certo que ele representa uma enorme mais-valia no sector da formação. Foi também por isso que o contrato é de quatro anos, para poder dar frutos tem de ser a médio prazo.
Ficou satisfeito com as escolhas de Carlos Queiroz para a restante equipa técnica?
Os nomes indicados oferecem todas as garantias de que será feito um bom trabalho. Para além do reiterar da confiança que tínhamos em técnicos da 'casa', como Agostinho Oliveira e Fernando Brassard, saúdo os que vão tomar contacto com a FPF pela primeira vez. E estou muito feliz por todos terem aceite o convite, conscientes de que trabalhar na selecção é o maior desígnio que um técnico pode ter.
João Vieira Pinto chegou a ser uma hipótese viável? Que tipo de relação mantém com ele desde que ele foi afastado da selecção, após o incidente do Mundial-2002?
As questões sobre a equipa técnica devem ser colocadas a Carlos Queiroz. Quanto à minha relação com o João Pinto, conversei com ele no dia em que anunciou o fim da carreira e comprovei o que sabia acerca dele. É uma excelente pessoa, alguém com quem sempre simpatizei muito. Senti que a conversa também foi importante para falarmos de algumas coisas que podiam estar pouco claras. Sem divulgar o nosso diálogo, posso dizer que a própria forma como é colocada a pergunta indicia algo que é errado, que é essa história do 'afastamento'. Eu fui das pessoas que mais defenderam o João Pinto depois do incidente no Mundial. O que se passou foi que os dois técnicos que estiveram na selecção desde 2002 decidiram não o chamar. Isso acontece mais cedo ou mais tarde com todos os internacionais. É a lei da vida. Toda a gente sabe que eu não interfiro nas convocatórias. Nunca vetei jogadores, nem nunca exigi que qualquer jogador fosse chamado.
Qual é a solução imediata para curar o Conselho de Justiça (CJ), que se encontra, segundo Freitas do Amaral, ferido de morte? Vai chamar o vice-presidente para presidir a este órgão ou vai propôr a sua destituição na Assembleia Geral (AG) de dia 23?
Todas as perguntas partem de um pressuposto errado. Não sou eu nem a Direcção que temos o comando sobre um órgão autónomo e cujos membros foram eleitos. Só a AG, que elegeu o Conselho de Justiça, pode ter acção concreta. A Direcção não elege nem destitui os seus órgãos. Foi por isso que a Direcção decidiu enviar para o presidente da AG, Mesquita Machado, o parecer de Freitas do Amaral.
Há processos urgentes em curso no CJ. O de coacção de Valentim Loureiro é um deles? Não teme a reacção do Major, caso venha a ser suspenso da presidência da AG da Liga de Clubes?
Há processos urgentes, nomeadamente os que dizem respeito a recursos que implicam alteração das Divisões. Não falo de casos pendentes, como salvaguarda do princípio da independência dos órgãos. Nunca influenciei, nem quero que me acusem de tentar influenciar, qualquer decisão do Conselho de Disciplina ou do Conselho de Justiça.
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| "Disseram que a escolha de Freitas do Amaral foi tão boa que não foi minha. É incrível, mas já estou habituado a este tipo de críticas" |
| João Carlos Santos |
A solicitação de um parecer a Freitas do Amaral para resolver a polémica reunião do CJ foi uma medida prudente para evitar que o acusassem de tomar partido numa guerra de cariz Norte/Sul?
Só quem não esteja de boa fé ou a defender interesses próprios ou encomendados é que não concorda que o caso foi muito complicado, pelo que era recomendável recorrer a um especialista, de preferência externo ao futebol. Perante algo inédito, que remetia para o foro do Direito Administrativo, pedimos à referência desse ramo do Direito, a uma pessoa de reconhecida competência, isenção e prestígio, que procedesse a um processo de averiguações. É inacreditável que alguns tenham querido retirar o mérito da escolha, dizendo que era para me defender. Se tivesse escolhido uma pessoa menos competente seria criticado por não saber escolher; assim, alguns pareciam querer dizer que escolhi bem demais. Outros até foram mais longe. Disseram que a escolha foi tão boa que não foi minha... É incrível, mas já estou habituado. Não é política e editorialmente correcto reconhecer mérito ao presidente da federação e tenho de aceitar, também por culpa própria, que não tenho a chamada 'boa imprensa'.
Por que razão o CJ demorou tanto a decidir os processos do Boavista e de Pinto da Costa?
Outra das críticas é a de que se demorou tempo de mais para proteger alguns interesses, quando sempre disse que o CJ tinha que decidir os processos rapidamente. Demos todos os meios que o CJ considerou necessários para fazer face ao volume de trabalho. O problema da reunião do CJ deu-se no dia 4 de Julho, sexta-feira. No dia 8, terça-feira, pedi a Freitas do Amaral o parecer com urgência. Em tempo recorde, Freitas do Amaral ouviu todas as pessoas que estiveram na reunião, analisou o assunto e enviou-nos o parecer na quinta-feira, dia 24, à noite. No dia seguinte, anunciei que iria propor à Direcção a adopção das conclusões do parecer, o que aconteceu no dia útil seguinte. Se isto é atrasar processos... então eu gostava de saber o que seria ser célere. Fizemos o que devíamos ter feito, como reconheceu o secretário de Estado da Juventude e Desporto. Aliás, Laurentino Dias foi o exemplo do que a tutela deve ser. Manteve-se atento e informado mas sempre numa posição serena de quem sabia que tudo íamos fazer para ultrapassar o impasse.
Que comentário lhe merecem as críticas de que actuou com falta de coragem?
Eu não trabalho para ser chamado de corajoso ou para sair bem na fotografia - esse, muitas vezes, seria o caminho mais fácil -, mas tenho obrigação de resolver os problemas de forma justa, imparcial e respeitando as competências que tem o presidente da FPF. Enquanto Freitas do Amaral trabalhava, não faltaram artigos de opinião a dizer que não era fácil estar na minha pele, que a batata era demasiadamente quente, etc., etc. Agora que as decisões foram tomadas, parece que tudo era fácil de mais. Acho que já dei provas mais do que suficientes de que quando é preciso tomar decisões eu assumo-as. Vejam-se as últimas decisões mais complicadas que tive de tomar. No caso do incidente entre o Scolari e o jogador sérvio, muita gente 'exigia' que se afastasse Luiz Felipe Scolari, sem pensar que isso poderia comprometer o apuramento para o Euro-2008. Dei a cara, assumindo as consequências da minha decisão, mantive Scolari e Portugal apurou-se. Se tivesse corrido mal, era a minha cabeça que se pediria. Como correu bem, uns dizem que foi o Governo a segurar Scolari, outros dizem que foram os jogadores, outros que foram os patrocinadores. Tudo menos reconhecer que era uma decisão difícil e que se revelou acertada. Mesmo na escolha de Carlos Queiroz, que reuniu um largo consenso, houve quem dissesse que a escolha não foi minha, que foi de empresas ou de outras entidades, o que é falso. Nunca qualquer entidade externa à FPF interferiu nos assuntos de gestão corrente.
Em dois anos, foi a segunda vez que invocou o interesse público para desbloquear uma situação criada pela justiça desportiva. Vai propor a Laurentino Dias ou ao Governo a criação de um Tribunal do Desporto?
Desde há muito que defendo essa hipótese, mas para que ela se concretize tem de haver um conjunto de factores que não dependem da federação mas do poder político. Estamos disponíveis para colaborar em qualquer solução que impeça ou torne mais difícil a ocorrência de situações anómalas. Pessoalmente, acho que um Tribunal do Desporto cujos magistrados sejam, por exemplo, nomeados pelo Conselho Superior da Magistratura, pode ser uma boa medida. Tal como considero que a presença de juízes nos órgãos jurisdicionais das federações desportivas não devia ser desaconselhada. Há magistrados nas mais variadas área da sociedade. Por que não no desporto também? Estou confiante que o novo Regime Jurídico possa, também neste campo da justiça desportiva, ser um passo positivo rumo a um futuro melhor. Gostaria até de solicitar ao Conselho Superior de Magistratura que voltasse a debruçar-se sobre esta matéria.
É também a segunda vez que, num curto espaço de tempo, os males da justiça desportiva chegam à UEFA. Não receia que a FIFA e UEFA olhem para o futebol português com desconfiança?
A FIFA, a UEFA e todas as pessoas que acompanham o futebol mundial sabem que todas as federações podem atravessar problemas. Já houve problemas gravíssimos na Alemanha, Itália, Espanha e Grécia. Vistas as coisas em perspectiva, os nossos casos só têm grande dimensão em Portugal. Não digo que os casos são insignificantes. Claro que são situações embaraçosas e que me preocupam. A verdade é que a FIFA e a UEFA reconhecem o grande mérito que tivemos em todas as organizações nas quais nos empenhámos, com o Euro-2004 à cabeça, reconhecem a capacidade organizativa das nossas selecções e a capacidade para competir com as maiores potências mundiais sendo um país pequeno e de pouca expressão na maioria de outras áreas. Parece que no futebol é exigido que Portugal tenha uma dimensão que não tem em qualquer outra modalidade ou ramo de actividade.
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| "Se o nosso futebol não fosse credível, as empresas não investiam na selecção os maiores montantes de sempre e as televisões não competiriam pelos direitos dos jogos da Liga, da Taça e das selecções" |
| João Carlos Santos |
O 'Apito Dourado'/'Apito Final' é uma machada irremediável na credibilidade do futebol nacional?
Se o nosso futebol não fosse credível não conseguiríamos ter feito o maior contrato de sempre com a Nike, como fizemos este ano. As empresas não investiriam os maiores montantes de sempre em contratos de patrocínio como o têm feito. As televisões não competiriam pelos direitos de transmissão dos jogos da Liga, da Taça e das selecções. É verdade que houve problemas que nenhuma federação gostaria de enfrentar, como estes processos, e quanto mais depressa as situações ficarem esclarecidas melhor, mas acho que o que é positivo é muito mais relevante do que o que é negativo.
Os dois rostos mais visíveis deste processo são Valentim Loureiro e Pinto da Costa, os dirigentes veteranos do futebol português e os mais poderosos. Isto acontece por acaso ou existiu um crescendo de impunidade que permitiu que usassem o poder para traficar influências?
A pergunta contém afirmações e suspeitas que eu não comento, até porque os processos ainda correm nos tribunais civis. Mas há uma coisa que digo. Há gente que diz que eu estou a mais no futebol porque já ando aqui há muitos anos, mas não vi ninguém destacar o facto de eu, que sou presidente há 12 anos, não ter sido referenciado em nada que pudesse lançar suspeitas sobre a minha actuação enquanto dirigente. Há quem se apresse a acusar pessoas e a condená-las na praça pública, mas não vi ninguém destacar ou elogiar o facto de haver pessoas, como eu, que andam no futebol há muitos anos mas não viram o seu nome envolvido nestes casos.
Quando o escândalo rebentou em 2004, alguma vez suspeitou da dimensão deste processo e que surgissem tantas acusações de actos de corrupção?
Salvaguardando o facto de os processos ainda correrem nos tribunais civis, facto que obsta a um balanço definitivo, o que digo é que na primeira instância foram condenados por corrupção desportiva quatro dirigentes e cinco árbitros, nenhum de 1ª categoria. Eu acho que em 2004 e nos meses que se seguiram a ideia que passou era que o processo teria uma enorme dimensão mas, pelo que temos visto, essa dimensão tem vindo a diminuir. Claro que o futebol tem de ser jogado dentro de campo e qualquer caso que indicie outra coisa é condenável, mas daí a aferir-se que o futebol é um submundo pouco sério e que é pior do que outros ramos de actividade, acho um exagero.
Pelo menos os organismos disciplinares desportivos não podiam ter agido com maior celeridade?
O que é certo é que a justiça desportiva agiu de forma bastante célere. Desde que teve acesso às certidões obtidas pelos meios que só as autoridades policiais podem ter - nomeadamente as escutas, sem as quais nunca existiria o chamado 'Apito Dourado'. As certidões fundamentais vindas dos tribunais, em especial do de Gondomar, chegaram aos órgãos desportivos em Outubro ou Novembro de 2007. E eram documentos que somavam muitas dezenas de milhares de páginas. As decisões foram tomadas antes do Verão de 2008. Cerca de seis meses. Acho que se há coisa em que toda a gente está de acordo é que a decisão desportiva foi bastante célere.
Caso os tribunais administrativos julguem favoravelmente a providência cautelar do Boavista, como vai a FPF repor este clube na I Liga? Através de um alargamento?
Não vou especular sobre cenários hipotéticos. O mais importante é que o futebol tem condições para retomar o caminho da normalidade do qual nunca devia ter saído. A lei, uma vez que não se trata de matérias estritamente desportivas, reconhece o direito aos visados de recorrerem aos tribunais comuns, por isso, vamos aguardar com serenidade a conclusão dos processos.
Pinto da Costa já falou consigo após a confirmação do castigo de dois anos? Como estão as vossas relações?
Não falei recentemente com presidente do FC Porto. Procuro manter com todos os dirigentes de todos os clubes portugueses relações institucionais correctas. Fico triste quando vejo trocas de acusações ou guerras mediáticas entre dirigentes ou treinadores. Mesmo que me custe ouvir coisas injustas na praça pública sobre mim, procuro dar o exemplo, mantendo uma atitude de respeito e elevação de discurso. Por vezes, isso é confundido com falta de frontalidade ou coragem, mas eu prefiro dizer as coisas cara a cara ou de viva voz. Por outro lado, a FPF e o seu presidente não devem constituir focos de instabilidade ou alimentar polémicas mediáticas.
Admite que o FC Porto possa ser punido com a exclusão da Liga dos Campeões para o ano?
Essa é uma matéria da competência dos órgãos disciplinares da UEFA. Devem ser eles a responder.
Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 9 de Agosto de 2008, 1.º Caderno, página 28.