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Presidenciais 2016

Marisa Matias

Marisa na Baixa de Coimbra entre a família, amigos e lágrimas

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Nuno Botelho

Foi uma arruada que não precisou de mais de três dúzias de apoiantes, dois tambores e uma gaita de foles para se tornar um momento marcante na campanha de Marisa Matias. Sem que praticamente tenha falado de política, a candidata, a jogar em casa, pisou terrenos que conhece bem e reencontrou muita gente. As emoções foram do embaraço do choro aos risos e às gargalhadas

Paulo Paixão

Paulo Paixão

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

A dez dias das eleições, a campanha de Marisa Matias recebeu um suplemento de alma. Foi na Baixa de Coimbra que a candidata realizou a primeira arruada, e escolheu para isso passeios onde pode andar de olhos fechados e se arriscava a chocar, como aconteceu, com gente que conhece desde há muito, ou não se trate da cidade onde trabalhou até se ter tornado eurodeputada.

Os pais, Irene e Agostinho, marcaram presença, assim como duas primas. Mas não foi nos reencontros de sangue que o coração de Marisa pareceu ter ficado mesmo mais apertado; tal ocorreu quando voltar a estar com um antigo colega de faculdade e amigo, Manuel Malaguerra.

E se a comoção já foi visível, metros depois cruza-se com uma amiga, e aqui os sentimentos ficaram ainda mais à flor da pele. Do que se viu, porque muito do que se passou foi sussurrado aos ouvidos.

Se a presença de familiares foi aparentemente digerida com alguma facilidade – “estou em casa, e é muito especial ter a família ao lado”, explicaria pouco depois -, nos outros embates imediatos foi mais difícil conter as lágrimas, sobretudo daqueles que a abraçavam.

Em dado momento, a candidata presidencial ainda teve de puxar dos galões e simular uma espécie de ordem de serviço: “Aqui nesta campanha só eu que é choro, mais ninguém”.

O apelo caiu em saco roto e teve o efeito contrário, de gerar mais lágrimas na sua confidente. O pranto, que ambas tentavam esconder nas câmaras dos jornalistas, tornou-se ainda mais evidente. Só secou quando mais uma vez Marisa meteu ordem na casa, desta vez a sorrir de forma mais evidente: “Não me estou a candidatar para meter as pessoas a chorar”.

Quando Marisa fez parar o trânsito

Correu bem o primeiro corpo a corpo de Marisa com eleitores desde que arrancou oficialmente a campanha. Em dia de alguma chuva em Coimbra, o tempo deu tréguas no final da tarde, e permitiu à candidata interpelar com comodidade quem passava na Baixa (tarefa em que contou sempre com a preciosa ajuda de José Manuel Pureza, o deputado do Bloco eleito pelo distrito). De permeio, Marisa entrava nas lojas , onde praticamente não havia clientes, nas quais foi sempre bem recebida.

O entusiasmo da candidata levou-a inclusive a subir a um primeiro andar, para entrar num salão de cabeleireiro, correspondendo ao convite feito da varanda.

Numa campanha que até agora não tivera qualquer banho de multidão, o primeiro não precisou de ser muito grande para ser intenso. Se os apoiantes não excediam as três dezenas, animados pelo compasso de dois tambores e uma gaita de foles, os transeuntes também não eram em grande número.

Mas há momentos em que a qualidade importa muito mais do que a quantidade. Nem faltou o sugestivo episódio da candidata que fez parar o trânsito. Foi à janela de um dos pequenos autocarros do circuito do centro histórico que Marisa falou cara a cara com o motorista, corpo de fora e cabeça meio dentro da viatura.

Até quando qualquer intenção de voto estava liminarmente fora de causa quase ninguém deu por isso. Numa das primeiras lojas onde entrou ao começar a subida da rua Visconde da Luz, a Fernandes Oculista, Marisa Matias foi afetuosamente recebida por quem estava ao balcão. Uma velha conhecida ou uma apoiante da candidata, ter-se-á pensado.

“Só a conheço da televisão, é extremamente simpática e muito bonita. Mas as ideias dela não me convencem”, diria pouco depois a interlocutora da candidata, já sem a presença desta.

Os jornalistas ainda tentaram espremer a conversa, para decifrar o sentido do voto. A resposta foi curial e esclarecedora: “O voto é secreto. Mas não voto à esquerda, já cá ando há muito tempo…”.