Siga-nos

Perfil

Presidenciais 2016

Marisa Matias

Marisa Matias: “O direito constitucional de acesso à educação é incompatível com escolas para ricos e pobres”

  • 333

Nuno Botelho

Não é defeito, já se percebe agora, é mesmo feitio: a campanha de Marisa Matias privilegia a abordagem das grandes temas. O argumentário de uma política mais fulanizada fica para outros; hoje foi Mariana Mortágua quem traçou as fronteiras entre a candidata do BE e os seus adversários, incluindo agora também Edgar Silva

Paulo Paixão

Paulo Paixão

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Foto

Fotojornalista

A defesa da escola pública – “o ensino de excelência tem um nome, a escola universal e inclusiva”, disse Maria Matias – marcou a intervenção da candidata presidencial, no jantar-comício realizado na Voz do Operário, na noite desta quarta-feira.

“A geração mais bem qualificada e mais bem preparada de sempre do nosso país foi formada pela escola pública. Não é matéria de opinião, é um facto”, afirmou Marisa Matias.

A candidata socorreu-se de estatísticas internacionais para salientar que em 2012 Portugal ultrapassou a Suécia, país que “implementou em 1992 o cheque-ensino, e desde então os resultados não deixaram de se degradar”.

Algo só possível, apesar dos ataques sofridos, pela existência de uma escola pública em Portugal. Mas nos últimos anos têm sido cada vez mais constantes as “comparações que são um embuste grotesco”.

Falava Marisa Matias dos “rankings que todos os anos são atirados contra o ensino público, comparando aquilo que é incomparável: escolas que podem escolher os seus alunos, para as quais é desviado dinheiro de impostos e que só algumas famílias podem escolher, porque as podem pagar”, contra escolas situadas em zonas degradadas e que têm de receber alunos que ninguém aceitaria.

Pelo que, conclui a candidata, o “direito previsto na Constituição da República de acesso à educação é incompatível com escolas para ricos e escolas para pobres”. De seguida, sublinha: “O ensino de excelência é o que tem conseguido resultados excelentes nas piores condições possíveis”. Antes, declarara: “A escola pública transformou um país com níveis vergonhosos de analfabetismo num país com a geração mais qualificada de sempre”.

Filha da escola pública

Mas a maior e mais convincente profissão de fé nas virtudes do sistema estatal de ensino declarou-a a candidata a partir da sua história de vida. “Fiz todo o meu percurso na escola pública, da primária ao doutoramento. Aprendi português e matemática”, prosseguiu, “e com boas notas”, explicitou, sorrindo. “Mas aprendi também o convívio, a vida como uma mistura. É essa a maior aprendizagem”, enfatizou, arrebatando aplausos dos cerca de 500 apoiantes que encheram a plateia do salão de festas da Voz do Operário.

Entre eles estavam algumas das figuras históricas do Bloco e grande parte dos atuais dirigentes. Francisco Louçã, Fernando Rosas, Mário Tomé, Mariana Aiveca, José Manuel Pureza, Jorge Costa, Pedro Soares e Joana Mortágua, além de dois deputados que usaram da palavra, Pedro Filipe Soares e Mariana Mortágua.

Jantares com pouco sal e pimenta

Terceiro jantar-comício de Marisa Matiasnesta campanha (o momento da jornada onde por definição se fazem as intervenções políticas de fundo) e quem olha para o menu da candidata à espera de encontrar gotas de limão sobre as feridas dos seus adversários acaba por engolir em seco.

Se há coisa rarefeita no discurso de Marisa, ou nos casos em que tal se torna inevitável é servida em doses homeopáticas, é a alfinetada em outros pretendentes a Belém.

Uma frase sempre pode ser lida como uma indirecta a Marcelo: “As campanhas eleitorais não são um mero passeio”. Mas logo Marisa fixa a base programática: “As campanhas eleitorais são uma escolha de temas e de perfis, é a escolha do país que queremos ter, com serviços públicos, com um Estado social”,

“Tudo isso cabe dentro de uma campanha, porque a campanha é o rosto dos candidatos”, acrescentou.

Nuno Botelho

Mariana Mortágua demarca os campos

Mas além das causas, e dos temas, e dos perfis, e das ideias, há um rol de coisas a separar Marisa Matias dos outros candidatos. No comício da Voz do Operário, foi pela voz de Mariana Mortágua que a destrinça foi feita. E pela primeira, a “entourage” de Marisa Matias quis separar as águas em relação não apenas a Marcelo, Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa (na véspera, no comício de Leiria, já isolados por Heitor de Sousa), como desta vez também face a Edgar Silva.

Em relação a Marcelo, são tantas e óbvias as diferenças que dispensam enumeração. Já Maria de Belém, afirmou Mariana Mortágua, é a candidata que “jura defender a Constituição”, mas “ao mesmo tempo diz que está disposta a dissolver o Parlamento se os compromissos europeus estiverem em causa”.

“Marisa Matias também é diferente de Edgar Silva”, acrescentou a deputada do BE. “Marisa nunca se calou quando o regime angolano atentou contra os direitos humanos e a vida de Luaty Beirão”.

E também face terceiro candidato de esquerda a eurodeputada do BE tem traços distintivos, segundo Mariana Mortágua: “Ao contrário de Sampaio da Nóvoa, Marisa Matias assume cada vez mais que o papel do Presidente da República será o de confrontar as instituições europeias e de defender o povo português”.

À medida que a campanha avança, os candidatos, ou alguém por eles, vão vincando as distâncias para os seus adversários. Pela primeira vez, Marisa Matias demarca-se de todos.