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Presidenciais 2016

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Os desafios do Presidente anti-Cavaco

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José Carlos Carvalho

Marcelo Rebelo de Sousa quer estar muito próximo das pessoas, do Governo e das oposições. Afeto ou atrito?

Na campanha eleitoral que ficará para a história, de tão diferente, provocatória e arriscada, Marcelo Rebelo de Sousa cultivou a imagem de um candidato ‘à Soares’. Chegou a dizer aos jornalistas que se identificava com o estilo do velho animal político do PS, deixou que aparecessem autocolantes inspirados na frase/slogan do soarismo presidencial — “Marcelo é fixe” —, e tudo o que disse e fez durante as semanas de estrada contribuiu para consolidar um estilo altamente contrastante com o do último Presidente da República. Se Cavaco foi o anti-Soares, Marcelo testou ser o anti-Cavaco. O povo gostou. Agora, falta provar o que daí resulta, em proveito próprio e do país.

Não é fácil transformar uma “presidência de afetos” em coisa palpável. Mas foi isso que o Presidente eleito — que toma posse na quarta-feira — prometeu pôr em marcha. “Afetos, proximidade, simplicidade e estabilidade”, eis as ideias que Marcelo Rebelo de Sousa esta semana confirmou desejar “que venham a presidir” ao seu mandato. Admitiu, em simultâneo, que “muito depende da realidade” para que isso se concretize. A realidade não está fácil — uma conjuntura político-partidária imprevisível, uma enorme crispação esquerda/direita, um sistema financeiro em fragilidade máxima, um sistema judicial com pastas cheias de processos de corrupção, um país descrente da política. E um Orçamento do Estado preso por arames, do qual dependerá (em poucos meses) o futuro da maioria que sustenta o Governo.

Marcelo vai começar por aí. Depois de um discurso de posse curto, mais de enquadramento do que de grandes concretizações e, ao que o Expresso apurou, sem apontamentos sobre a conjuntura, o Presidente vai falar ao país sobre o Orçamento do Estado (OE) quando o promulgar. Seguramente antes do fim do mês. E reservará para 25 de Abril o primeiro grande discurso político. O OE será, no entanto, um primeiro teste ao que o novo Presidente quererá dizer aos partidos, a quem pede diálogo e estabilidade, mesmo se “com vagar e lentamente”, como tem confessado em privado.

Eleições só com garantias

A estabilidade política é o seu primeiro grande desafio. Marcelo fartou-se de dizer em campanha que o país não aguenta crises e eleições de seis em seis meses. E se é verdade que com isso irritou alguma direita e deu esperanças à esquerda, não é garantido que preservar a estabilidade signifique ajudar António Costa a cumprir a legislatura. Significa seguramente que o Presidente da República não quererá arriscar convocar eleições sem ter garantias de que delas sairá uma solução de Governo estável. Não dependendo dele (mas da própria esquerda) que o Governo socialista consiga durar quatro anos, Marcelo deixará claro que não cobre crises sem garantias de uma alternativa consolidada. Vai dar trabalho.

O segundo desafio (fomentar consensos) parece missão impossível. Num contexto de pré-crise latente (quem acredita que a legislatura se cumpre?), o Presidente da República sabe que um Governo apoiado pelo BE e pelo PCP não tem condições para fazer grandes reformas ao centro e que o clima com o PSD e o CDS exige tempo para desanuviar. Mas aqui ele promete ser muito diferente de Cavaco. Projeta ouvir e falar com toda a gente, reunir regularmente o Conselho de Estado, pôr as pessoas a conversar, exigir e forçar a nota nesta frente. Marques Mendes, conselheiro de Estado, aplaude esta aposta do novo Presidente: “A coisa pior dos últimos dez anos foi terem-se perdido os hábitos de diálogo”, afirmou ao Expresso o ex-líder do PSD, que firmou, no tempo de Sócrates, um pacto para a Justiça e outro para limitar os mandatos autárquicos, sublinhando que “quando o diálogo é feito através dos media não há diálogo”. Mais do que discursos para a televisão ou recados através da comunicação social, o novo Presidente propõe-se fomentar conversas de facto. Belém vai ser um corrupio.

Reforçar a credibilidade externa do país é outro desafio. O novo chefe de Estado escolheu com pinças o seu assessor diplomático, ex-embaixador em Moçambique, em Washington e em Madrid (Marcelo quis cobrir o triângulo PALOP, EUA e UE). E aqui, o sucessor de Cavaco também vai fazer diferente — quer “criar cumplicidades acrescidas em termos pessoais” —, e José Augusto Duarte, o diplomata escolhido, admitiu isso mesmo: vão querer ajudar o Governo a melhorar a imagem externa do país. Marcelo promete especial atenção a Angola e ao Brasil, empenhado em repensar a CPLP e em ajudar a reparar os elos Lisboa/Luanda, compensando as relações menos fáceis que o PS tradicionalmente tem com Angola e que os parceiros de Costa no Governo (sobretudo o BE) não contribuem para facilitar. Na frente europeia, Marcelo move-se bem e a presença do presidente da Comissão Europeia na sua posse é um sinal. A visita à Mesquita de Lisboa mostra atenção à comunidade islâmica. Marcelo Rebelo de Sousa propõe-se acompanhar a política externa com o olho na diplomacia económica.

No fundo, o novo Presidente vai estar muito em cima do Governo, nas frentes económica, social ou cultural. E se chega a Belém com alguma direita desconfiada do seu empenho em dar tempo a Costa, é precisamente com o Governo socialista que vai viver o grande teste de coabitação. Marcelo sabe que o partido que está em dificuldade é o seu (Passos não lhe perdoará se ele o tentar forçar a perder outra vez a face) e não será de estranhar se, daqui a algum tempo, o grande desafio presidencial for ao contrário do previsto, com Marcelo a colocar o PS sob pressão, forçando-o a falar com o PSD.

A proximidade das pessoas e o afeto são os desafios mais fáceis. Faz parte da personalidade do sucessor de Cavaco chegar facilmente às pessoas e vêm aí novos formatos de contacto regular, seja com idas ao terreno, seja nas redes sociais. A TV Marcelo não vai para a frente enquanto tal, mas é a caricatura de algo que o Presidente da República quererá fazer. “Servir o país” é o slogan genérico do arranque do consulado marcelista, que confia na proximidade, simplicidade e afeto para chegar lá. Mas ser um Presidente à Soares significa, antes de mais, fazer política à grande.

[ Texto publicado na edição do Expresso de 5 de março ]

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