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Presidenciais 2016

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PCP está “sereno” com resultados eleitorais. E também com o PS

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Marcos Borga

“Não há qualquer elemento de posicionamento crítico no comité central do PCP” reunido, esta terça-feira, para o balanço do pior resultado obtido por um candidato comunista numas eleições presidenciais. Jerónimo Sousa disse e repetiu que o ambiente interno é “ameno e construtivo” e “pela forma como está a decorrer a reunião” nem vê sinais de oposição à sua liderança

Os escassos 3,9 % de votos obtidos por Edgar Silva nas últimas Presidenciais ficam "aquém do valor que o seu projeto exigia". É esta a principal conclusão que o comitê central do PCP retira das últimas eleições. Os comunistas distribuem culpas, pelo "panorama mediático desigual", pela "insistente proclamação antecipada" da vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, que favoreceu a abstenção e ainda pela fuga de votos de "muitos democratas e patriotas" para Sampaio da Novoa.

Só causas externas. Nenhuma autocritica, nem registo de falhas. A candidatura autónoma, decidida pelos comunistas no último Congresso, podia ser agora motivo de reflexão interna. Aparentemente não foi, como garante Jerónimo de Sousa, que insiste em que "Edgar Silva esteve à altura das suas responsabilidades", mas que a batalha eleitoral que enfrentou foi "exigente e importante".

A dívida de mais de 700 mil euros que, desde logo, o mau resultado eleitoral comporta, também não levantou problemas. O candidato não obteve votos suficientes para lhe garantir acesso à subvenções do Estado, mas Jerónimo garante que "assumiremos até ao fim as nossas responsabilidades, no quadro do nosso orçamento". Até lá "estamos a fazer contas".

E quanto ao impacto deste mau resultado sobre a sua liderança, que se decidirá no próximo Congresso de dezembro, Jerónimo nem tem dúvidas: "não estou na cabeça dos meus camaradas, mas pela forma como está a decorrer a reunião não vejo qualquer elemento de posicionamento crítico".

Acordo com o PS prejudicou? "Nãaooo"

A deserção do eleitorado comunista, nas primeiras eleições realizadas após o acordo feito com o PS, é lido como uma discordância dos militantes com a estratégia seguida pelo PCP. Mas para Jerónimo a resposta é negativa. Um prolongado "nãooooo" serviu de remate as questões dos jornalistas. E deu como exemplo São João da Madeira, que votou simultaneamente para a presidência e para a autarquia. No primeiro, "muitos votos da CDU foram transferidos para Sampaio da Novoa", já na segunda "a CDU manteve o seu resultado eleitoral".

Jerónimo ainda respondeu a esta questão, mas nas três páginas de comunicado do comité central, nem uma linha é dedicada a este assunto. O órgão o máximo do PCP entre Congressos, não deixa, porém de se referir às relações com o PS. Regista os "avanços e progressos" já alcançados no primeiro mês de governação, mas não deixa de lançar avisos. Sobretudo com o Orçamento de Estado à vista e em fase de "exame conjunto" entre socialistas e comunistas.

O comité central faz questão de "chamar a atenção" para o facto de muitos dos indicadores macroeconómicos que sustentam a proposta de OE continuarem "amarrados a constrangimentos presentes na política de anteriores Governos". Pontos, aliás, que "a não serem removidos, podem comprometer a resposta aos naturais anseios do povo português".

Mais adiante o comunicado sublinha ainda que há "distância e indisfarçáveis diferenças" entre o que o PCP defende e o que está no OE, comprometendo-se os comunistas a intervir "ativa e seriamente" para que o documento respira "a aspirações e direitos do povo português".

O tom de aviso ao Governo e só PS parece claro. Mas, Jerónimo de Sousa fez questão de baixar a pressão política. "Estamos a fazer tudo para que seja concretizado o que consta da posição conjunta assinada com o PS", disse para sublinhar a forma "seria e empenhada" como estão a decorrer as negociações.

"O PS tem respeito pelas posições do PCP" defendeu Jerónimo de Sousa, que fez questão também de marcar terreno. "Não estamos passivamente neste trabalho, nem como uma peninha de chapéu. Somos parte integrante da solução política encontrada".

O clima é "sereno e construtivo", garante Jerónimo de Sousa. "Os senhores jornalistas não podem assistir ao comité central, têm de confiar na mina palavra", confessou o líder comunista. E assim é. Pelo menos, por enquanto.