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Presidenciais 2016

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Marcelo (não) brinca em serviço

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Marcelo Rebelo de Sousa vai comentar o Orçamento de Estado quando tomar a decisão de o promulgar

FOTOS JOSÉ CARLOS CARVALHO

Dois dias depois da vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais, o Expresso disponibiliza um trabalho publicado na revista E de 15 de agosto de 2015, quando o professor ainda não tinha decidido se entrava ou não na corrida ao Palácio de Belém. Recorde, com a ajuda do Presidente eleito, algumas das suas melhores histórias

Luís M. Faria

Jornalista

Ninguém negará hoje a Marcelo Rebelo de Sousa o estatuto de figura popular. Os programas de comentário deram ao professor uma imagem de bonomia e um grau de reconhecimento público instantâneo.

Para quem o conhece da juventude, a boa disposição não é uma surpresa. Mas essas pessoas parecem dividir-se em duas categorias: as que o acham superinteligente e divertido e um companheiro de sempre; e as que o acham superinteligente e divertido e pouco fiável. Estes últimos não tiveram necessariamente problemas com ele. Aliás, pouca gente o acusa em on de traições enquanto tal. É mais uma questão de o verem como manobrador, incontido, instável, alguém que nunca está verdadeiramente onde está.

"Um catedrático que não é catedrático, um jornalista que não é jornalista, um político que não é político", resume o escritor Artur Portela Filho.

Portela esteve com Marcelo nos tempos iniciais do Expresso - era o publicitário do jornal - e escreveu, meses antes do 25 de Abril, uma crónica intitulada "O babygrow político", que é o tipo de homenagem com que a generalidade dos políticos apenas pode sonhar. "Talhado, calibrado, destinado", Marcelo "não era um acidente - era uma raça", e, "quando passava nos corredores pombalinos do poder (...) todos os barões acercando cochichadamente as cabeças, o seguiam com um olhar terno (...) Ele é, nas eleições, a única carta nova dos liberais. O seu único talento. A única voz forte e original. A sua única manobra".

O texto lamenta a seguir que os liberais "não tenham envergadura para absorver esta descarga elétrica, para sublimar este escândalo de qualidade, para disciplinar este brilhantismo avulso e lúdico" e conclui:

"O pai Miller Guerra ofereceu ao filho Miller Guerra, talvez, um estetoscópio de brinquedo.
O pai de Sá Carneiro ofereceu ao filho Sá Carneiro talvez uma toga de tanga.
O tio Balsemão ofereceu ao sobrinho Balsemão talvez uma rotativa de latão.
A Marcelo Nuno deram talvez 99 mil quilómetros quadrados de esperança e dez milhões de bonecos de pasta.
É o que se chama um babygrow político."

Marcelo tinha na altura 25 anos. Hoje, mais de quatro décadas depois, o seu então colega acha que ele não mudou em nada de essencial. Uma opinião partilhada por outras pessoas, seja qual for a sua avaliação do personagem. Marcelo, pela sua parte, sugere que a vida lhe ensinou muitas coisas. Mas com a expectativa atual em relação ao que os tais 10 milhões de bonecos poderão ou não vir a fazer dele, é oportuno revisitar algumas histórias curiosas ou memoráveis que lhe andam associadas. Têm em comum o facto de ilustrarem uma certa apetência para testar os limites, para pisar o risco; no mínimo, de serem algo invulgares. Marcelo aceitou colaborar, confirmando ou desmentindo versões que correm há muito, e acrescentando uma ou outra história ainda não conhecida.

Enviar o bebé pelos ares

Marcelo recorda episódios da sua infância em que já se manifesta uma vontade de experimentar os limites.

Por exemplo, aquela cena em que estava a abanar o berço do seu irmão António - teria ele próprio uns quatro anos - e começou a aumentar a velocidade, acabando por enviar o bebé contra um móvel.

Ou aquela outra vez em que estava a andar de baloiço em pé e resolveu lançar-se no ar para tentar cair na areia, falhando violentamente.

Na zona proibida

No Lar da Criança, o estabelecimento infantil que a antiga diretora do Lar João de Deus fundou na Estrela, Marcelo esteve desde os 18 meses até aos dez anos. Filho dileto da sua mãe, tinha uma inclinação para o sexo feminino. A atual diretora, filha da fundadora, recorda histórias de ele andar atrás das meninas.

Embora no recreio se aplicasse a separação então obrigatória entre os sexos, Marcelo ia às vezes 'namorar' para a zona proibida, acompanhado pelo seu grande amigo de então, o futuro cirurgião Eduardo Barroso. Essas movimentações não passavam despercebidas, e podia haver consequências.

Um castigo era a imposição de usar o bibe cor-de-rosa, em vez do azul.

Filho de uma figura do regime, habituado desde cedo a conviver com os grandes, Marcelo às vezes queria tratamento especial. Um dia, tinha o seu pai acabado de ascender ao Governo, ordenou a uma empregada que lhe servisse a fruta fora do tempo. A diretora da escola explicou-lhe que o seu pai podia ser quem era, mas ele ali era igual aos outros. Décadas mais tarde, quando ele próprio chegou ao Governo, recebeu um cartão da antiga diretora que lhe dizia, em substância: agora podes finalmente mandar nos outros.

A reconversão

"Até à adolescência era muito tímido", conta. "Falava muito pouco, media muito as palavras, se pudesse passava despercebido. Mesmo nas festas de anos, havia os que enchiam a sala. Eu nunca fui. Encostava-me às paredes." E de repente mudou.

Por influência de um colega brilhante e rápido que é hoje o cónego João Seabra, fez um esforço de reconversão. "Talvez tenha sido excessivo, pois as pessoas olham para mim e acham que sou um extrovertido, quando não sou. Mas a partir dos 14 anos transformei-me num dos polos de animação, organização, movimento: coisas sociais, religiosas, políticas, académicas... Comunicação social desde muito cedo."

Os resultados foram logo visíveis. Na biografia que escreveu dele, o jornalista Vítor Matos sugere como muitos colegas o viam na adolescência: "O melhor aluno é irrequieto, intelectual, meio louco.

Pode estar sentado com os amigos e de repente 'blé--blé-blé', começar a fazer barulhos e estalidos com os dedos na boca ou a lembrar-se dos comentários mais inoportunos à frente dos visados. É cruel com a fragilidade alheia, como será sempre, em comentários públicos e privados. Gosta da pequena sacanice, da graça fácil à custa dos outros."

PARTIDAS À AVÓ

Em 1968, houve um terramoto em Lisboa que assustou muita gente. Temia-se a ocorrência de uma réplica. Então Marcelo e os seus irmãos resolveram aproveitar para fazer uma partida à avó Joaquina. Meteram-se debaixo da cama dela e começaram a abanar. A senhora deve ter apanhado um grande susto. E sofreu outro talvez ainda maior quando os netos aproveitaram uma lembrança que o pai tinha trazido da província ultramarina onde era governador.

"A certa altura veio uma cabeça de leão de Moçambique. Eu estava com o meu irmão António e montámos a cabeça ao lado da cama com uma iluminação especial a fingir que era a selva, enquanto nós fazíamos rugidos de leão por trás do cortinado."

Ele admite essas partidas, mas há uma que nega. Segundo a versão que correu, os irmãos teriam encenado à volta do leito da senhora adormecida o cenário de um velório. Marcelo garante não se lembrar desta. "Seria forte..."

UM CORDÃO À VOLTA DO PESCOÇO?

Marcelo diz que Balsemão, seu conhecido de há algum tempo, tomou a iniciativa de o convidar para integrar a equipa fundadora do Expresso, convidando-o para um almoço. Desmente assim a versão de que teria sido ele quem apareceu no Expresso a oferecer-se, enrolando o cordão de um estore à volta do pescoço e ameaçando que se enforcava se não o aceitassem. Embora pelo menos uma antiga secretária tenha corroborado recentemente esta última cena.

As duas versões não parecem incompatíveis, a avaliar pelo que se diz sobre o comportamento lúdico de Marcelo na altura. Mais do que uma testemunha se lembra de Marcelo a subir para cima da mesa durante as reuniões ou a ir atrás das mulheres para lhes fazer cócegas.

Infância Numa sala
do Lar da Criança, onde esteve desde os dois
aos dez anos. As carteiras ainda são as originais

Infância Numa sala
do Lar da Criança, onde esteve desde os dois
aos dez anos. As carteiras ainda são as originais

DOS CENÁRIOS AOS FACTOS POLÍTICOS

Teresa Schmidt, antiga secretária de redação, conheceu-o no jornal. "Sempre gostou de assumir o seu papel de eminência parda, estar nos bastidores. Não resiste a uma boa partida. É a natureza dele. Brincar com as coisas. Estava sempre em ação. A palavra cenário nasceu com ele. Era scenario (francês). Cenário 1, cenário 2. Como aquilo de dar pontuações."

Marcelo explica que gostava especialmente de análise política, e conceber cenários era uma aplicação prática da sua especialização académica em ciência política. Mas admite que com o tempo os seus cenários foram começando a ter fama de influenciar a realidade, para o bem ou para o mal. E nasceu a sua fama de criador de factos políticos.

TROCAR AS VOLTAS À CENSURA

Marcelo fazia os contactos com a censura. Isso implicava negociar e, se fosse possível, driblá-la. Um dia, em 1973, Balsemão foi a Espanha e deixou-o a substituí-lo. Resultado: uma edição publicada sem respeitar dezenas de cortes ordenados pela censura.

A partir daí, o jornal passou a ter de enviar à censura as páginas já desenhadas. Qualquer corte implicava refazer uma página, atrasando tanto a edição que o jornal por vezes só era distribuído ao domingo, levando a grandes quebras de tiragem.

FUGIR PELOS TELHADOS EM BEJA

Pós-revolução, havia outros riscos a enfrentar, além do Expresso. Cabia-lhe tratar da implantação do PPD, futuro PSD, no Sul do país. Durante um comício em Beja, os participantes começaram a levar pancada e tiveram de fugir para a sede local do partido.

Aí, viram-se sob ameaça por gente que se preparava para arrombar a porta. Ele conta que teve de fugir para o telhado do edifício, despistando os perseguidores e descendo depois pela antena de televisão (felizmente tinha luvas) e deambulando perdido pela cidade até que alguém abriu uma porta e o puxou para dentro, à filme de espionagem. Era um militante do PSD.

DOIS ARTIGOS AO MESMO TEMPO. PSEUDÓNIMOS

Ficaram canónicas as histórias sobre Marcelo a ditar às secretárias dois ou três artigos ao mesmo tempo. Várias testemunhas as confirmam, e a habilidade para as simultâneas parece ter-se mantido até mais tarde. (Já em 1996, quando Marcelo acabara de ser eleito líder do PSD, o responsável pelo gabinete de comunicação do PSD, Zeca Mendonça, assistiu a uma cena que o deixou espantado.

Na avioneta que os levava a uma visita política na Covilhã, Marcelo escrevia um texto numa folha A4. Na margem à esquerda, fazia notas sobre outro assunto. E, ao mesmo tempo, discutia com Mendonça os pormenores da visita que iam fazer. "Lembro-me de ter pensado: Como é possível?").

No Expresso, Marcelo conta que chegou a escrever 30 peças para a mesma edição - com assinaturas diferentes. Vicente Jorge Silva, criador da revista no início dos anos 80, conta uma história desse período em que Marcelo substituíra Balsemão como diretor: "Marcelo prestava-se a fazer tudo. A certa altura eu precisava de um artigo e não tinha ninguém.

Ele ofereceu-se, escreveu, e assinou Duarte Fernandes. Era sobre o tipo da CAP, o José Manuel Casqueiro. Fez-me um artigo um bocado desequilibrado, a cascar no homem. Eu disse-lhe, se você quer assinar com seu nome, é o diretor, tudo bem.

Agora o sr. Duarte Fernandes escrever assim, sem falar com ninguém, não pode ser. Ele lá mexeu no texto para ficar mais equilibrado."

Travessuras Na zona do recreio, onde por vezes se atrevia na zona proibida

Travessuras Na zona do recreio, onde por vezes se atrevia na zona proibida

AUTOBIOGRAFIA ANTES DOS 30

Para coroar tanta precocidade, só faltava uma biografia. Marcelo ia escrevê-la aos 27 anos, desafiado por Snu Abecassis, proprietária da editora Dom Quixote.

A ideia era menos relatar a sua vida pessoal do que as suas experiências na criação do Expresso e no PPD. Mas Marcelo apercebeu-se que os seus manuscritos eram anotados por uma letra familiar: a de Sá Carneiro, então a começar uma relação sentimental com a editora. Marcelo percebeu que Sá Carneiro achava muito cedo para falar do PPD. Marcelo decidiu guardar o manuscrito e esperar uma altura melhor.

LELÉ DA CUCA

A história do "lélé da cuca" é demasiado conhecida para ser preciso contá-la em detalhe. Não passando no fundo de uma infantilidade, o que o torna interessante são as consequências. Resumindo, um dia Marcelo estava num restaurante com uma amiga e apostou que era capaz de fazer uma partida ao seu diretor.

Subiu ao jornal, pegou numa prova da GENTE - a secção de pequenas histórias, bocas, etc., que ainda hoje existe - e acrescentou à mão uma frase para ser inserida no meio de um texto com o qual nada tinha a ver: "O Balsemão é lélé da cuca". No sábado, o texto saiu com a frase. De férias no Algarve, o diretor foi alertado por um amigo com quem se encontrava. Fez as suas indagações, e quando chegou a Lisboa mandou chamar Marcelo. Este, ao ver-se confrontado com a página que tinha a sua frase escrita à não, admitiu que tinha sido ele. Disse que aquilo tinha sido um vaipe e que não pensou que o texto seguisse daquela forma para a gráfica. Balsemão perguntou-lhe então o que é que ele fazia se estivesse na sua situação. Marcelo respondeu que se tivesse sentido de humor aceitava, caso contrário demitia-o.

A parte mais elaborada da história vem depois. Marcelo foi a casa do seu diretor pedir desculpa e justificou-se com uma explicação freudiana, dizendo que o via como um pai, pois o seu verdadeiro pai não o tratara como tal. E na semana seguinte a GENTE inventou uma coluna de 'correções'. A terceira delas referia que tinha havido "o salto de uma nota intitulada 'Lélé da cuca'". E acrescentava o "teor exato" da nota omitida: "Lélé da cuca foi a curiosa expressão usada no outro dia, numa reunião com conhecidos dirigentes partidários, por um bem-humorado comentador brasileiro em relação ao surrealismo da presente crise política portuguesa. Trata-se de um comentador que agora para de férias por Portugal. GENTE ajuda: não se trata de 'blague' de um colunista brasileiro já hoje famoso no jornal de Balsemão, para quem tudo isto é lélé da cuca..."

NO EXPRESSO A ATACAR O GOVERNO, NO GOVERNO A DAR NOTÍCIAS AO EXPRESSO (E NÃO SÓ)

Em 1981, quando Balsemão foi dirigir o Governo após a morte de Sá Carneiro em Camarate, deixou Marcelo à frente do Expresso. A combinação era que o jornal continuaria a ser independente, mas talvez o primeiro-ministro não esperasse ser tratado de forma tão crítica como passou a ser. O próprio Marcelo não se restringia.

Balsemão convidou-o para o Governo. "Ainda foi pior", conta alguém que se encontrava então no jornal. "Ele passou a ser a garganta funda no Governo." No Expresso e não só, garante essa pessoa.

Marcelo admite isso, mas só em parte. Sim, passava informação, como qualquer político, mas não ia além do que era admissível, e normal em alguém que se tinha ele próprio habituado a cultivar fontes.

PROMETER DISCRIÇÃO - E NOTICIAR NO DIA SEGUINTE

Nesse ambiente hostil, houve em 1982 umas eleições autárquicas que eram vistas como um teste à popularidade do Governo. Dias antes, Marcelo foi comunicar a Balsemão que pretendia abandonar o Governo. Os motivos alegados eram o desejo de concluir o doutoramento, mas o primeiro-ministro achou que o pedido tinha pouca lógica naquela altura. Mesmo assim, apenas pediu a Marcelo que esperasse até depois das eleições para anunciar que se ia embora. Marcelo terá prometido, mas um dia depois os jornais noticiavam a sua saída.

Marcelo responde que já muito antes tinha dito a Balsemão que queria ir acabar o doutoramento. Quanto ao timing das notícias, a sua versão não desmente diretamente a do então chefe do Governo - cuja conclusão, até hoje, parece ser a de que Marcelo é pouco fiável. Ainda há anos o ex-primeiro-ministro voltou a falar em traições, no plural.

DEZ MIL NOTAS DE 20 ESCUDOS

Quando deixou de ser acionista do jornal, em 1983, exigiram-lhe que pagasse 200 contos que tinha ficado a dever, por causa de um carro ou de outras despesas. Ele recolheu dez mil notas de 20 escudos, acondicionou-as numa caixa, e enviou-as à administração.

MERGULHO NO TEJO

Em 1989, ele era o candidato do PSD e do CDS à Câmara Municipal de Lisboa e tinha um problema básico de notoriedade - ou, mais precisamente, de falta dela. Achou que a solução era praticar um gesto de que as pessoas falassem. Assim, decidiu mergulhar no Tejo em frente às câmaras de televisão.

O objetivo declarado era mostrar quão poluído se encontrava o rio, e a comparação das análises feitas antes e depois do mergulho não deixou dúvidas. Era como se Marcelo tivesse levado uma bateria de vacinas. Mas se ficou inoculado contra as doenças em causa, não o ficou contra a reputação de pouca seriedade que o episódio lhe deu junto de uma parte substancial da população.

VICHYSSOISE SERVIDA FRIA

Em 91 ou 92, Marcelo e outras pessoas tinham ido a Belém para uma reunião com o presidente Mário Soares. Era suposto os participantes manterem discrição. Mas quando Marcelo saiu de Belém viu alguém que lhe acenava de um carro, e ao fim de uns segundos percebeu que se tratava de Paulo Portas.

Aqui as versões divergem. Portas disse mais tarde que Marcelo lhe deu uma série de pormenores sobre a discussão, além de lhe dizer o prato que tinha sido servido: a tradicional sopa francesa que leva o nome de vichyssoise. Marcelo garante que recusou contar matéria confidencial, e Portas lhe perguntou se não lhe podia dizer ao menos o que tinha sido servido. Perante a insistência, terá respondido: sei lá, vichyssoise.

Portas a seguir tentou confirmar a informação (ou encontrou por acaso alguém que também tinha estado na reunião) e percebeu que era tudo falso. Não chegou, portanto, a publicar a notícia. Mais tarde foi a um programa de Herman José e contou o episódio, o qual passou a ficar associado à imagem de Marcelo - como mais uma ilustração da sua fama de ser pouco fiável.

NEM QUE CRISTO DESÇA À TERRA

Foi com essa frase que Marcelo respondeu quando lhe perguntaram se algum dia seria candidato a líder do PSD. Como sabemos, viria mesmo a ser presidente do partido, entre 96 e 98. É um tipo de negativa-depois-desmentida comum a muitos políticos, embora nem todos utilizem linguagem semelhante.

Marcelo reincidiria nas referências bíblicas já em 2014, ao dizer que, como Moisés, lhe tinha cabido avistar a terra prometida - a aliança PSD-CDS - mas não entrar nela. Foi mesmo ao ponto de chamar a Portas o "Matusalém irrequieto da democracia portuguesa", numa alusão não à idade (bastante inferior à de Marcelo) mas à durabilidade política (consideravelmente superior).

Outro hábito de linguagem grandiloquente é a utilização de adjetivos como "patriótico" para justificar a escolha de um restaurante. Em contraste, há expressões informais que ele usa muito na televisão: "Um tiro na nuca", "Essa não lembra ao careca..."

LIGAR AO PRESIDENTE ÀS TRÊS DA MANHÃ

Marcelo dorme muito menos do que uma pessoa normal e costuma ficar acordado até altas horas da noite. Jorge Sampaio, quando era presidente da República, tinha sempre um copo de água à beira da cama. O então líder do PSD ligava-lhe às três da manhã, e ele atendia-o sempre, mas primeiro bebia um gole de água para limpar a voz.

DOAR LIVROS, PAGAR ESTUDOS

Em 2001, doou 30 mil livros à biblioteca de Celorico de Basto, mais tarde batizada com o seu nome. "Ele não tem património, não tem praticamente nada", afirma o irmão António. "A maior parte dos livros tem oferecido. É desprendido de bens materiais. O que tinha herdado, passou aos filhos."

Marcelo diz que não acredita na propriedade, e que não levamos nada deste mundo. Mas os seus rendimentos elevados - como professor, com os pareceres, e sobretudo na televisão, desde que passou a fazer comentários semanais - permitem-lhe estar mais do que sossegado em termos materiais. À vontade, entre outras coisas, para dar prendas a muita gente, incluindo colaboradores como a apresentadora Maria Flor Pedroso, que achou dever restringir esse hábito, até por se tratar da RTP.

A outro nível, Marcelo tem pago as propinas a estudantes, sobretudo dos PALOP, que com a crise se veem privados das bolsas que antes recebiam. Até hoje terá feito isso em dezenas de casos.

Hieróglifos A agenda do professor é difícil de ler, mas notam-se umas zonas em branco

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HIPOCONDRIA

Júlio Magalhães, seu parceiro num programa da TVI, conta que um dia Marcelo lhe pediu cinco euros emprestados para comprar jornais. Quando lhe estenderam o troco, disse para porem as moedas em cima dos jornais e entregou tudo a Magalhães. Mal deixou a tabacaria, porém, tirou do bolso uma nota de cinco e deu-a a Magalhães. Perante a surpresa deste, explicou que a vendedora estava constipada e assim era o amigo que ficava com a constipação.

"Marcelo entra nas farmácias e pergunta: Então, que novidades temos?", conta Magalhães. "Conhece os medicamentos todos." Mas o professor acha que é sobretudo um hipocondríaco teórico. Se fosse a sério, tinha medo de germes. Ora, é verdade que leva no bolso lencinhos de álcool, mas raramente os usa. E a quantidade de abraços e apertos de mão que tem levado já o obrigam a fazer fisioterapia.

Admite que anda com soro fisiológico, e explica que é por causa das alergias, e da temperatura normalmente baixa do ar condicionado. "É muito sensível a isso", confirma Maria Flor Pedroso. "Começa a ter uma impressão na garganta que o faz tossir mais do que o comum."

SIMPATIA E MÁ LÍNGUA

Marcelo costuma cumprimentar as pessoas com um comentário jocoso e simpático - ou com um elogio, se forem senhoras. Mas esse hábito tem um reverso. Magalhães diz que, mal vira costas, ele é bem capaz de dizer a quem estiver com ele: viu aquela cara? Já em tempos se dizia que nunca convinha sair a meio de um almoço em que ele estivesse, para evitar ser gozado in absentia.

CUIDADOS PALIATIVOS

Começou há cerca de duas décadas, com uma pessoa conhecida, e é um lado da sua vida de que ele não costuma falar. Marcelo acompanha doentes com cancro numa instituição que evita nomear; diz apenas que não é o IPO, e sugere que existe uma ligação espiritual. Desde que ele se tornou uma vedeta televisiva, os pedidos aumentaram. Se se entender que, por qualquer motivo, a sua presença pode ajudar um doente, ele vai.

O acompanhamento prolonga-se durante algum tempo. O que ele próprio diz que recebe: ajuda na sua preparação para a morte, e aquilo que os doentes lhe contam, o capital de experiências que qualquer vida é.

PASTÉIS DE NATA NO CONSELHO DE ESTADO

As reuniões nesse órgão consultivo às vezes prolongam-se pelo serão e, uma vez, chegou-se às 11 da noite sem que tivesse sido servido mais do que umas sandes de queijo. Na reunião seguinte, Marcelo apareceu com uma fornecimento de pastéis de Belém que tinha comprado ali ao lado, oferecendo--os aos conselheiros.

UM VENDEDOR DE PARTITURAS

Há semanas, quando tomava o seu banho de rotina na baía de Cascais, Marcelo reparou num homem muito idoso sentado à beira do muro. Quando se aproximou dele, viu que estava a vender partituras antigas, de fados, etc. Quis-lhe comprar um conjunto delas, com intenção de as oferecer à biblioteca de Celorico. Mas o homem (que o reconhecera) disse que não vendia em pacote. O seu prazer era explicar cada partitura individualmente e só depois a vender. Propôs-lhe encontrarem-se um dia, quando Marcelo tivesse tempo. Como o homem não tinha telemóvel, o professor deixou o seu.

Dias depois, recebeu uma chamada do vendedor a comunicar a sua morada, para Marcelo ir lá deixar a indicação de quando está disponível. "Agora vou ter de arranjar três horas para falar com o homem", diz ele. É o tipo de solicitação de tempo irrealista que lhe aparece com frequência. "Não posso dizer que não. As pessoas estão sozinhas, e eu tornei-me uma espécie de provedor do cidadão."

Estas são algumas das histórias de Marcelo. Há outras que lhe andam associadas há muito e ele nega.

Por exemplo, uma sobre um embaixador que teria sido recebido em cuecas (com Marcelo sentado à mesa) e outra sobre uma ida à varanda para se aliviar. Seriam cenas de um tipo potencialmente embaraçoso para quem aspirasse a altos cargos no Estado. Porém, às vezes custa obter dele um desmentido mais forte do que um "não me lembro".

Não se usa às vezes essa expressão para evitar desmentir diretamente - no fundo, para não ter de admitir? Ele responde: "Não me lembro. Se não me lembro, é porque não aconteceu." No caso do embaixador, diz claramente que o acompanhou à porta, portanto a cena não faz sentido.

Também existe registo público de intrigas, incluindo uma sobre o modo como ele teria convencido Mário Soares de que havia uma conspiração da Opus Dei para tomar o poder em Portugal - com o objetivo, segundo António Guterres, de pôr três líderes partidários a suspeitar do cardeal patriarca. Marcelo dá uma versão algo diferente. Mas, com tantas histórias a correr, há quem se mantenha cético.

Portela acha inconcebível ele estar a ser considerado - ou sequer, considerar-se a si mesmo - para um alto cargo do Estado. "Não sei se ele está completamente convencido disso", afirma Portela. "Não pode estar." Sugere que Marcelo não vai aguentar a pressão, e que, caso decida avançar para a presidência, a sua natureza profunda virá ao de cima logo durante a campanha.

Vicente Jorge Silva concorda. Fala numa combinação de "espontaneidade e hipercalculismo", num "lado um pouco esquizofrénico da personalidade" de Marcelo, e, em relação à hipótese presidencial, pergunta: "Como é que uma pessoa sacrifica a sua liberdade, a sua maneira de ser espontânea, num cargo que obriga a falta de espontaneidade? Tenho por ele bastante estima, mas a verdade é que o lado lúdico nele é mais importante que o outro lado. Não resiste a uma boa partida, a uma traquinice. Agarrem-me senão eu faço uma maluqueira... É intrinsecamente irrequieto. Não o imagino como presidente da República. Seria uma castração. Acho que está muito mais certo no programa."

Teresa Schmidt admite que a personalidade de Marcelo é o que é, mas "isso não o torna um irresponsável. Ele leva muito a sério a parte profissional". Idêntica opinião têm velhos amigos, como António Pinto Leite e António Capucho. O primeiro admite que Marcelo "gosta de dar sinais desconcertantes", mas atribui-lhe determinação. O segundo diz que ele é uma pessoa muito social - "aceita apresentar livros de todo o género" - e fala da sua capacidade de se transfigurar conforme a situação o exige.

O próprio Marcelo nota que tem ocupado lugares de responsabilidade, onde a discrição é um requisito, na faculdade e não só, e nunca o acusaram de dar informações para fora. Em matéria de partidas, garante, "sempre tive mais fama do que proveito". Diz que mudou com o tempo: "Uma pessoa envelhece. Passa a distinguir o que é verdadeiramente importante e a relativizar o que não é. Depois, dá muito mais apreço ao lado humano, social das coisas. Dantes, sentia muita dificuldade quer na aproximação às pessoas quer na reação às pessoas que se aproximavam. Olhando para trás, fico muitas vezes com a impressão de que a minha reação não foi ajustada àquilo que era a situação e a expectativa das pessoas."

A imagem que continua a ter, explica, faz com que lhe atribuam mensagens subliminares. "Há que ter muito cuidado. As pessoas partem logo à procura. Ele diz que é isto. Mas será isto, ou será exatamente o contrário? Porquê? De vez em quando eu uso o nonsense, e isso aqui não dá. Falar de uma situação e qualificá-la de uma certa maneira, a brincar com ela... As pessoas levam a sério, tomam o que eu disse pelo valor facial."

Em suma, ele reconhece que não pode dar nada por garantido. Mas não foi só ele que mudou. Após quatro décadas de democracia e mais de 20 de televisão privada, incluindo reality shows e programas de humor, Portugal também está um bocado diferente.

Talvez um povo menos formal e um Marcelo mais sóbrio venham a convergir numa tentativa de fazer aos céticos uma surpresa. A qual, a ter êxito, seria sem dúvida a maior partida de Marcelo.

[Texto publicado na revisra E, a 15 de agosto de 2015]