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Presidenciais 2016

Presidenciais 2016

Vamos contar o que toda a gente sabe mas da maneira que ninguém contou

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Já leu com certeza por aqui que Marcelo venceu em todos os distritos e em quase todos os concelhos, já lhe mostraram ali que Maria de Belém e Edgar Silva tiveram um resultado aquém, já terá visto acolá que Marisa Matias deu ao Bloco um resultado histórico, já lhe terão mostrado algures que Tino ficou à frente de Maria de Belém e de Edgar Silva no Porto. São alguns dos números evidentes da noite presidencial, mas também há os pequenos detalhes, as conclusões pormenorizadas - sabia que há candidatos que não tiveram um único voto em alguns concelhos? -, as curiosidades relevantes e os demais segredos que os números nos contam. E é isso que lhe propomos, com a ajuda fundamental da infografia: olhar para o que já leu, ouviu, observou e concluiu, mas agora a partir de um único ponto - este artigo, que reúne o que o país testemunhou e providenciou no domingo

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Marcelo Rebelo de Sousa venceu as eleições presidenciais deste domingo com 52% dos votos, num dia em que metade dos eleitores não foi votar. O próximo Presidente da República foi escolhido por 2.410.286 eleitores – mais dos que reelegeram Cavaco Silva em 2011 ou Jorge Sampaio em 2001, mas menos do que em qualquer outra eleição que tenha marcado o início de um novo ciclo presidencial (como na vitória de Ramalho Eanes em 1976, Mário Soares em 1986, Jorge Sampaio em 1996 e Cavaco Silva em 2006).

Nestas presidenciais, não entraram nas urnas os boletins de 49,92% dos eleitores a nível nacional, segundo os dados disponibilizados pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, numa altura em que já foram apurados os resultados das 3.092 freguesias, ficando por contar ainda os votos de 12 dos 73 consulados.

Só quando estiverem apurados todos os resultados é que será conhecida a taxa de abstenção global. E ainda que não seja a mais alta de sempre numas presidenciais (em 2011, 53,5% dos eleitores não votaram), foi a taxa mais elevada numas eleições para o primeiro mandato de um Presidente – momento em que normalmente mais pessoas vão votar do que quando se trata de uma reeleição.

Mas como é que votou o país? O mapa eleitoral pintado por distrito não deixa dúvidas: Marcelo foi o candidato mais votado em todos os 18 distritos do continente e nos dois da Madeira e Açores. As suas percentagens de voto por distrito oscilaram entre um máximo de 62,37% (em Viseu) e um mínimo de 31,71% (em Beja). Ou seja, em nenhum distrito Marcelo ficou muito a baixo de um terço dos votos.

Em 19 dos 20 distritos, Sampaio da Nóvoa (que terminou estas eleições com uma votação de 22,9%) aparece em segundo lugar como o mais votado, variando entre 31,47% em Beja (o mesmo distrito onde Marcelo teve a menor taxa de votação) e Leiria com 17,02%.

Dos 20 distritos, sobra um: a Madeira, terra natal do comunista Edgar Silva, nascido na freguesia de São Martinho, Funchal, tendo ele sido, ali, o segundo candidato mais votado (com 19,7% do total), seguido por Sampaio da Nóvoa (com 11,27%, a sua percentagem mais baixa).

A votação ao nível do distrito mostra ainda que no Porto, Viana do Castelo e Viseu, Vitorino Silva ficou à frente de Maria de Belém. O caso particular é o de Viseu, onde se registou a maior diferença entre Tino de Rans (4,66%) e Belém (3,62%).

Mas é preciso descer ao nível do concelho para identificar algumas diferenças na votação do país. Marcelo foi o candidato mais votado em 291 dos 308 concelhos do país, ou seja, 94% do total. Celorico de Basto, onde nasceu a sua avó paterna, é o concelho que fica à frente (com 81,90% dos votos destinados a Marcelo). Aljustrel fica no outro extremo, com a menor votação (19,97%).

E o que é que fica fora desses 291 concelhos? Ficam 16 municípios onde ganhou Sampaio da Nóvoa, como Alandroal, Alcácer do Sal, Aljustrel (onde Marcelo teve a sua menor taxa de votos), Ferreira do Alentejo, Grândola, Viana do Alentejo ou Vidigueira.

Em comum? Ficam sobretudo no Alentejo, entre os distritos de Beja, Évora e Portalegre. E para além desses 16, há ainda outro caso onde Marcelo não ganhou: Avis, no distrito de Portalegre, o único concelho onde o candidato mais votado foi o comunista Edgar Silva (com 31,31%).

Já Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda e que obteve 10,13% dos votos a nível nacional, destacou-se em Condeixa-a-Nova (Coimbra) – de onde é natural – sendo a segunda candidata mais votada (24,99%).

Acima de 50% dos votos em 191 concelhos

Numa perspetiva global do país, é possível concluir que em 191 concelhos - dois terços do total - pelo menos metade dos eleitores votou em Marcelo. O mesmo não aconteceu com mais nenhum dos outros nove candidatos: as percentagens mais altas que cada um obteve não chegaram aos 50% em nenhum concelho.

O máximo de Sampaio da Nóvoa foram 39,16% em Campo Maior. Marisa Matias chegou a 24,99% em Condeixa-a-Nova (concelho do qual é natural) e Vitorino Silva a 22,71% em Penafiel (município onde se localiza a freguesia de Rans).

A percentagem de voto mais alta de Maria de Belém foi de 10,74% em Alfândega da Fé – e no máximo chegou ao terceiro lugar na votação em oito concelhos (Idanha a Nova em Castelo Branco, Montalegre e Santa Marta de Penaguião em Vila Real e Melgaço em Viana do Castelo são alguns exemplos).

Enquanto Vitorino Silva conseguiu o terceiro lugar em seis concelhos (Castelo de Paiva, Cinfães, Lousada, Marco de Canaveses, Paredes e São João da Pesqueira), Edgar Silva destacou-se sobretudo nos municípios madeirenses, para além de Aljustrel e Serpa.

Na Marinha Grande foi onde Henrique Neto obteve a maior percentagem de votos (5,29%), enquanto Cândido Ferreira se destacou em Cantanhede (1,41%) e Jorge Sequeira em Braga (1,08%) - coincidindo ser a terra natal de cada um. Já Paulo de Morais teve a maior percentagem de votos no Porto (4,11%).

E foram poucos os casos dos concelhos onde não tenha havido pelo menos um voto por candidato. Isso apenas aconteceu no Corvo (Açores), onde Jorge Sequeira ou Henrique Neto não tiveram um único voto (dos 338 votantes inscrito). Também em Fronteira (Portalegre) Jorge Sequeira não teve nenhum voto, assim como Cândido Ferreira em Barranos.

Marcelo Rebelo de Sousa na noite eleitoral, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, após ter ganho as eleições presidenciais de 24 de janeiro de 2016

Marcelo Rebelo de Sousa na noite eleitoral, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, após ter ganho as eleições presidenciais de 24 de janeiro de 2016

Luís Barra

Os números da abstenção

De fora desta votação ficaram 4.963.131 eleitores. Uma leitura do país permite concluir que foi nos Açores que se registou a maior abstenção (69,08%) e, pelo contrário, no distrito de Lisboa houve a menor abstenção (46,37%).

Foi em Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, nos Açores, que se atingiu o máximo: 76,41%, ou seja, três em quatro pessoas não votaram. O oposto registou-se em Vila de Rei, com a abstenção mais baixa: 32,78%. Já nas presidenciais de 2006 e de 2011, Vila de Rei tinha sido o concelho com a menor taxa de abstenção (26% e 34%, respetivamente).

No total do país, em 199 concelhos, que corresponde a dois terços do país, a abstenção ficou acima dos 50% - o que reflete uma mobilização inferior ao que se registou nas últimas eleições legislativas de outubro (a abstenção foi de 44,1% e pelo menos metade dos eleitores não votou em 75 concelhos), confirmando a tendência de menor participação do país quando chega a altura de eleger um Presidente da República.

  • Marcelo venceu em todos os distritos e em quase todos os concelhos

    Marcelo foi eleito à 1ª volta mas metade do país não foi votar. É muito provável que os historiadores do futuro descrevam as presidenciais de 2016 como as eleições em que a apatia atingiu 50% dos portugueses. A candidata do Bloco de Esquerda ficou em 3º lugar e o espontâneo Tino de Rans aproximou-se significativamente dos votos conseguidos pelo candidato do PCP e por uma ex-ministra do PS