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Presidenciais 2016

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Um case-study, feito com um táxi e uma marmita

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Luís Barra

Sozinho, Marcelo fez história. Como candidato não tinha máquina nem programa? Na hora da vitória lembrou que tem “estilo e convicções” - chegou para ganhar e para deixar as pistas sobre o futuro

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

No topo da escadaria da Faculdade de Direito de Lisboa, onde Marcelo Rebelo de Sousa tinha acabado de fazer a sua pequena festa de vitória, Pedro Rebelo de Sousa não escondia a euforia. Abraçava, era abraçado, um amigo dizia-lhe que com o novo Presidente pode não haver primeira-dama, mas há "primeiro irmão". E o "primeiro irmão" não fazia a vitória de Marcelo por menos: "Isto é um case-study!", dizia alto e bom som. "Isto foi ganho com um táxi e uma marmita!" - e com a piada resumia a campanha inédita, despojada, quase sem barões nem máquinas partidárias, campanha de um homem praticamente só que valeu a Marcelo Rebelo de Sousa a vitória mais desejada, à primeira volta.

Paulo Portas tinha sublinhado, antes de Marcelo falar, o quão inédita havia sido esta candidatura: pela "larga independência" de quem avançou sem os partidos e pelas "novas formas de fazer política que tiveram uma expressão importante" nestas eleições - boa parte dessa novidade veio de Marcelo: com um perfil mediático imbatível, notoriedade estratosférica, mantendo as máquinas partidárias à distância e agradecendo aos barões dos dois partidos que o apoiavam que se mantivessem discretos, sem bandeiras nem caravanas, Marcelo pôde subir ao púlpito que estava montado no átrio da Faculdade de Direito sem que na mise-en-scène se visse uma única palavra: nem o seu nome, nem o seu slogan, apenas bandeiras nacionais.

O nome seria redundante, mas Marcelo, ele mesmo, fez questão de deixar, no discurso de vitória, a sua assinatura: "Não abdicarei de seguir o meu próprio estilo e de agir de acordo com as minhas convicções." Se uma parte dos comentadores e boa parte da esquerda que desfilava nas televisões passava a ideia de que Marcelo tinha feito campanha como uma folha em branco, o próprio fez questão de frisar que em Belém não será verbo de encher.

Luís Barra

As prioridades de Marcelo

Durante a campanha, Marcelo fez sempre questão de frisar que não tinha um programa, pois não era candidato ao governo - daí resultou muitas vezes a crítica de que só dizia coisas básicas, para maximizar eleitorado. Pois essas coisas básicas, repetidas esta noite, soaram a programa.

Por exemplo, o voto de que "o Governo governe com eficácia e com sucesso", e a oposição seja "ativa e representativa". Ou a exigência de conciliar justiça social, crescimento económico e rigor financeiro: "no tempo que aí vem, ou crescemos economicamente de forma sustentável, criando justiça social, combatendo a exclusão, a pobreza e a desigualdade enquanto moralizamos a vida pública e combatemos a corrupção, ou só contribuiremos para agravar as tensões sociais e os radicalismos políticos". Se isto não é um programa...

Ou a promessa de "promover convergências políticas" e voltar a "uma cultura de compromisso", contrariando "interesses partidários que impedissem consensos ditados pelos desígnios nacionais". Ou ainda uma frase aparentemente inócua como "é tempo de virar a página" - e que só não é inócua porque há três meses António Costa já tinha anunciado um "novo tempo", de que Sampaio da Nóvoa se tentou apropriar.

Na sede do PS, Ana Catarina Mendes já se tinha antecipado, cobrando ao futuro Presidente que "saiba corresponder aos compromissos que assumiu" - sendo certo que ao longo de toda a campanha Marcelo levou o Governo de Costa ao colo, sem nunca deixar escapar uma palavra de dúvida, seja perante as pressões de Bruxelas, seja face às dificuldades do acordo de esquerda. À cautela, a número dois do PS reclamou "um Presidente da República que não funcione como contrapoder ou líder de fação" - e mal sabia que Marcelo iria jurar ser igual a si mesmo...

Luís Barra

“Não há vencidos”?

Com uma vitória no bolso que é sua de uma forma que nunca antes tinha sido tão pessoal numas presidenciais, Marcelo foi magnânimo ao ponto de dizer que "não há vencidos nestas eleições presidenciais". Tirando Marisa Matias - e, quanto muito, Tino de Rans - é possível que mais nenhum dos seus adversários concorde. Nem Sampaio da Nóvoa, muito menos Maria de Belém ou Edgar Silva têm razões para se sentir pouco vencidos.

No somatório das candidaturas da esquerda, só mesmo o desempenho da candidata do Bloco impediu um descalabro ainda maior. Contas feitas, Nóvoa, Marisa, Belém e Edgar ficaram pouco acima dos 40%, quando, nas legislativas, o resultado dos três partidos que os apoiavam (PS, BE e PCP) chegou aos 50%. Dito de outra forma, os quatro principais adversários de Marcelo valeram nestas presidenciais pouco mais do que os 39% que a coligação PSD-CDS teve nas legislativas.

Marcelo virou a equação do avesso. Pode não significar nada a não ser a confirmação de que Marcelo tem a tendência de virar coisas do avesso. Tem sido uma vida disso. E quase sempre sozinho, como desta vez.

Luís Barra

  • “Não abdicarei de seguir o meu estilo e agir de acordo com as minhas convicções”

    Marcelo comoveu-se na escadaria do átrio da Faculdade, que diz ter feito dele muito do que é. O vencedor à primeira foi de esquerda - “o povo é quem mais ordena” - foi de todos - “não há vencidos nestas eleições” - mas foi, sobretudo, ele próprio: “é tempo de virar a página”, “não deixarei de agir de acordo com as minhas convicções”

  • Marcelo venceu em todos os distritos e em quase todos os concelhos

    Marcelo foi eleito à 1ª volta mas metade do país não foi votar. É muito provável que os historiadores do futuro descrevam as presidenciais de 2016 como as eleições em que a apatia atingiu 50% dos portugueses. A candidata do Bloco de Esquerda ficou em 3º lugar e o espontâneo Tino de Rans aproximou-se significativamente dos votos conseguidos pelo candidato do PCP e por uma ex-ministra do PS