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Presidenciais 2016

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O que dizem os jornais? Marcelo, muito Marcelo, mas também o PS e o futuro da esquerda

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Ana Baião

Olhar para os jornais desta segunda-feira é olhar para Marcelo Rebelo de Sousa. Todos dão muito destaque ao Presidente eleito. Mas também há reflexões sobre o futuro da aliança de esquerda e do PS

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Como vai ser Marcelo em Belém? Como fica o PS com este resultado? Vai ter reflexos na aliança de esquerda que governa o País? Estas são algumas das reflexões mais significativas da análise e opinião que hoje enchem páginas e páginas de jornais, no rescaldo da vitória absoluta de Marcelo nas presidenciais.

Marcelo Rebelo de Sousa consegue uma clara maioria absoluta nas capas dos jornais nacionais.

A sua foto está na capa de todos, generalistas e económicos, com grande destaque. “Marcelo Coroado”, afirma o Jornal de Notícias. “Marcelo Presidente”, diz o Público. “O País de Marcelo”, destaca o i. “O povo é quem mais ordena e foi o povo que me quis”, titula o DN. “Marcelo Presidente – os próximos cinco anos não serão tempo perdido”, resume o CM. “Marcelo à primeira”, é o título do DE. “Marcelo absoluto”, diz o Negócios, que é mesmo o único que faz manchete com outro assunto (a TSU).

Olhemos para dentro dos jornais. O Público dá um longo destaque às presidenciais, que vai da capa até à página 24. Há quem reflita sobre o que vai ser Marcelo como presidente, quem reflita sobre o sistema político e quem reflita sobre o futuro da esquerda. Sobre Marcelo diz Áurea Sampaio que “era quase impossível Marcelo não ganhar. Desta vez tudo o empurrou para cumprir provavelmente aquele que é o sonho de uma vida. Como se viu na campanha, ele tem inteligência e intuição que baste para vir a ser um bom chefe de Estado. Além de ter mundo e cultura. Mas, por agora, Marcelo não nos disse exactamente ao que vem”.

Sobre o sistema político, pergunta Vasco Pulido Valente: “como vai o regime funcionar com a esquerda desfeita, a direita paralisada e um Presidente neutro?”

Já sobre a esquerda, Rui Tavares diz que “para as próximas eleições presidenciais, a esquerda deverá produzir a maior abrangência possível em torno de eleições primárias que permitam escolher um candidato (ou candidata) principal do seu campo político. O risco de vinte anos de continuidade de direita deveria levar as direcções partidárias a mudar de estratégia”.

Ainda sobre o futuro da esquerda, noutro jornal, o Negócios, Helena Garrido sugere uma pista de análise importante: “A esquerda tradicional está esgotada e o Bloco tem condições para ocupar esse espaço, para conquistar eleitores quer ao PS como ao PCP”.

No Jornal de Notícias, Francisco Assis lança um importante alerta ao PS. “A Esquerda democrática está a perder o confronto doutrinário em todas as suas fronteiras; à sua direita não cresce e à sua esquerda não seduz. Quando passar o estado de ilusão que se instalou no Partido Socialista, haverá muito para discutir e alguma coisa para mudar”.

Idêntico número de páginas do Público, 24, dá o DN às presidenciais. Aí muito se fala de coabitações. André Macedo, director do jornal, afirma que “será muito mais fácil para Costa coabitar com Marcelo em Belém do que com Sampaio da Nóvoa”. No mesmo sentido vai Nuno Saraiva, subdirector do jornal. “O primeiro-ministro sabia que uma vitória de Sampaio da Nóvoa o tornaria refém absoluto da esquerda e conferiria um peso desmesurado aos seus aliados conjunturais no suporte à governação”. Pedro Marques Lopes concorda: “Para o Governo, Marcelo Presidente é garantia de que de Belém não virão, num futuro próximo, problemas”.

Macedo olha ainda para o que deve ser o Presidente. “Um Presidente que fiscaliza o Governo mas não o quer enfraquecer nem se alimenta dele.”

No Diário Económico, Raul Vaz também arrisca olhar o que deve ser o Marcelo Presidente: “quem se assume como ‘socialmente parcial’ e se compromete a ser um árbitro com as portas de Belém bem abertas a todos, não vai ser um corta-fitas. Nem um mero comentador. Marcelo vai pôr a mão na massa. E a votação expressiva que teve à primeira dá-lhe o poder de que precisa. Pedro Passos Coelho percebeu-o. A direita vai habituar-se”.

Voltando ao DN, Viriato Soromenho-Marques analisa com profundidade o que se pode esperar nos próximos cinco anos, sobretudo em matéria internacional. “Marcelo enfrentará cinco anos sísmicos. A crise da zona euro enrodilhou-se num labirinto de problemas sem solução aparente. A infelicidade dos refugiados não só ameaça destruir as frágeis democracias de leste (na senda da Hungria e da Polónia), como paralisou Merkel, deixando a Europa ainda mais à deriva. A UE poderá partir-se, já este ano, com o brexit. Schengen choca contra novas fronteiras muradas. O medo cresce onde o terrorismo justifica o estado de emergência perpétuo, como em França. E só o medo mantém a amarga coesão da zona euro. Tudo isto num clima económico de nuvens carregadas”.

Outra reflexão interessante surge no Correio da Manhã, onde Luciano Amaral escreve: “ninguém se admire que o PCP comece a pedalar para trás, constatando o erro histórico do apoio a António Costa”. Igualmente sobre o futuro do governo e do acordo das esquerdas, João Pereira Coutinho vaticina que “uma das partes irá ceder e o novo presidente terá em mãos a queda a prazo de um governo – ou uma nova degradação das contas públicas.”