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Presidenciais 2016

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O candidato mais votado de sempre e outras sete respostas que os números nos dão

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SÉRGIO GRANADEIRO

Qual a eleição que fez mais gente sair de casa para votar nos últimos 40 anos? E qual o candidato mais votado desde sempre? Há hoje mais ou menos votos em branco? E será que nos concelhos de origem dos candidatos eles são sempre os escolhidos? Percorrer os dados oficiais das votações de todas as eleições presidenciais desde 1976 (oito no total e uma delas com duas voltas), dá-nos as respostas

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Desde o 25 de abril, contam-se oito eleições presidenciais em Portugal desde as primeiras em janeiro de 1976, até às últimas em 2011. Os resultados eleitorais são sempre publicados em Diário da República e estão também disponíveis para consulta no site da Comissão Nacional de Eleições e da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna. E percorrer todos esses dados da votação, incluindo por concelho, encontramos as respostas para várias perguntas.

1. Qual o candidato mais votado de sempre?

3.459.521 eleitores votaram em Mário Soares em 1991, na quarta eleição presidencial em Portugal após o 25 de abril, segundo os dados oficiais da votação, publicados em Diário da República.

Foi o maior número de votos num candidato presidencial desde 1976 – e até às últimas eleições de 2011, ganhas por Cavaco Silva com 2,2 milhões de votos. Em segundo lugar, com maior número de votos, surge Ramalho Eanes, escolhido por 3,26 milhões de eleitores nas presidenciais de 1980, seguido por Jorge Sampaio com 3,04 milhões de votos em 1996.

2. E a eleição em que mais pessoas votaram?

Entre o dia de hoje e os dias que antecederam as primeiras eleições presidenciais, a 27 de junho de 1976, a população portuguesa cresceu. É certo que desde 2011 tem vindo a diminuir, mas há hoje mais pessoas a viver em Portugal do que havia há 40 anos. Da mesma forma que a população aumentou, também cresceu o número de eleitores inscritos: de 6,46 milhões em 1976 para 9,43 milhões em 2015.

Só que essa evolução não se refletiu num aumento de votantes. Se olharmos para presidenciais pós-25 de abril, aquela em que mais pessoas votaram foi a segunda volta de 1986 (entre Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral). Atingiu-se um recorde: 5.937.100 pessoas votaram.

“Foi uma eleição extraordinariamente polarizada”, explica Jorge de Sá, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e diretor técnico do centro de sondagens da Aximage.

“Houve um embate político. Um candidato era apoiado por toda a esquerda, o outro mais à direita”, acrescenta, considerando terem sido dois “grandes protagonistas” a quem o eleitorado reconhecia qualidade.

3. Quais as presidenciais com mais abstenção?

A abstenção tem vindo a subir progressivamente em Portugal. A somar a essa desmobilização, as presidenciais são o tipo de eleições onde a abstenção tende a ser mais alta, apenas ultrapassada pelas eleições para o Parlamento Europeu (acima dos 60% desde 1994).

Mas o recorde máximo de abstenção numas presidenciais foi atingido nas últimas eleições em 2011: mais de metade dos portugueses não votou. A taxa ficou em 53,5%, traduzindo o facto de 5,16 milhões de eleitores não terem ido às urnas. “Para o eleitor, umas presidenciais não têm a mesma importância que as legislativas para um eleitor”, aponta Jorge de Sá.

Há dois tipos de eleições: as que são tidas como de primeira ordem, às quais o eleitor dá mais importância, como o caso das legislativas, e as de segunda ordem, às quais dá menos relevância. “Em termos da importância que o eleitor lhes dá, as presidenciais e as autárquicas estão ao mesmo nível.”

O professor do ISCSP sublinha ainda outro fator que contribui para a abstenção nas presidenciais. “Sempre que houve uma reeleição, a abstenção foi maior. É menos renhido e as pessoas mobilizam-se menos.” E esse é o caso das últimas eleições, de 2011, das quais Cavaco Silva saiu reeleito.

“Há um elemento de fundo e depois há questões específicas dentro de cada eleição”, aponta Jorge de Sá. Ou seja, ao “aumento progressivo” da abstenção, juntam-se depois outros fatores – o tipo de eleição (e a relevância que os eleitores atribuem ao cargo em causa) e as características própria dessa eleição, do momento em que se realiza e da competição entre os candidatos.

4. E com menor taxa de abstenção?

Pelo contrário, as presidenciais com a menor taxa de abstenção foram as eleições de 1980, quando Ramalho Eanes foi reeleito (16% dos eleitores inscritos não votaram).

O professor do ISCSP explica que a abstenção se divide em dois tipos: a abstenção crónica e a flutuante. E dentro da flutuante, há a que se deve a causas de natureza pessoal (como custos de deslocação, comodismo ou até impedimentos devido às condições meteorológicas) e a que é atribuída a causas de natureza política (competitividade da eleição, esclarecimento político, proximidade dos eleitores).

E por que razão é que hoje se registam elevados níveis de abstenção? Para fazer uma comparação ao longo do tempo é preciso ter em conta a evolução da população, para além da emigração e da mortalidade (que podem não ser apagados dos cadernos de recenseamento), mas Jorge de Sá defende que os instrumentos capazes de combater a desmobilização não têm sido os melhores.

“A comunicação de proximidade potencia a mobilização dos eleitores”, afirma, com base num estudo no qual prova a eficácia que esse contacto tem na participação eleitoral. em que provou o efeito que tem na participação eleitora. Para além disso, falta formação cívica, “desde a mais tenra idade”, assim como “oferta política” e “qualidade da oferta política”.

5. Quando é que menos eleitores votaram no estrangeiro?

Os dados sobre a votação dos portugueses no estrangeiro estão disponíveis a partir das eleições de 2001 (o que nos mostra uma evolução entre três presidenciais – 2001, 2006 e 2011). A maior abstenção registou-se nas últimas eleições de 2011: votaram 12.682 emigrantes e 216 mil abstiveram-se, o que se traduz numa taxa de abstenção de 94,5%.

6. Qual o concelho com menos abstenção?

Os resultados eleitorais de todas as votações para a Presidência da República, disponibilizados pela Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna, permitem ver como é que cada concelho votou desde 1976. E uma das conclusões é que o município de Avis registou a menor taxa de abstenção em cinco de nove votações (incluindo as duas voltas de 1986).

Localizado no distrito de Portalegre, Avis chegou a ter apenas 8% de abstenção (em 1980), oscilando depois entre 12% e 24%. Mais tarde veio dar o lugar ao concelho de Sardoal (o que tem registado a menor abstenção nas legislativas), assim como Vila de Rei (que registou a taxa de abstenção mais baixa em 2011, ou seja, 34% em 2011).

No extremo oposto está o concelho de Vila do Porto, nos Açores, com a maior taxa de abstenção do país em quatro de nove votações (variando entre 37% e 44%). Nas últimas eleições, o lugar passou a estar ocupado por Miranda do Corvo onde 86% dos eleitores não votaram.

7. Há hoje mais ou menos votos brancos e nulos?

Foram 190 mil votos em branco e 84 mil votos nulos aqueles que entraram nas urnas nas últimas presidenciais. No total foram 274 mil – o número mais elevado desde 1976, o que traduz um aumento em relação ao que se registou há 40 anos.

O que representam? “São uma expressão de cidadania”, afirma Jorge de Sá. “É uma forma de marcar uma posição, de quem não se identifica com a oferta política.” Contudo, há um ponto fundamental que os distingue da abstenção. “Mostram vontade política”, assume Jorge de Sá, lembrando que em causa está alguém que se desloca para ir votar.

8. Os candidatos costumam ganhar na terra onde nasceram?

Ramalho Eanes é natural de Castelo Branco, Diogo Freitas do Amaral de Póvoa de Varzim. Octávio Pato era de Vila Franca de Xira, Salgado Zenha de Braga e Maria de Lourdes Pintasilgo de Abrantes. Loulé é o concelho de onde Cavaco Silva é natural, enquanto Lisboa é o de Mário Soares e Jorge Sampaio. Será que cada um dos candidatos ganhou no concelho onde nasceu? Nem sempre, mostram os dados.

Ramalho Eanes é um dos casos em que isso aconteceu: tanto em 1976 como em 1980 foi o candidato mais votado em Castelo Branco. Porém, não foi o concelho onde teve a maior percentagem de votos: em Aguiar da Beira em 1976 teve 95%, por exemplo, segundo mostram os dados das votações por concelho disponibiizados pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

O mesmo voltou a acontecer em 1986 a Diogo Freitas do Amaral: ganhou na Póvoa de Varzim na primeira volta com 60,8%. Em 1996, Cavaco Silva foi o mais votado em Loulé e Jorge Sampaio em Lisboa.

Dez antes depois, em 2006, Cavaco e Soares, em Loulé e Lisboa, voltaram a ser os escolhidos – embora o mesmo não tenha acontecido a Manuel Alegre em Águeda ou Jerónimo de Sousa em Loures.

Nas últimas eleições, em 2011, fica mais clara essa ligação: Cavaco Silva, Defensor Moura e José Coelho ganharam nos seus concelhos de origem. Foi, aliás, nas terras onde nasceram que Defensor Moura (de Viana do Castelo) e José Coelho (de Santa Cruz, na Madeira) registaram as suas maiores percentagens de voto, de todo o país. O mesmo não aconteceu com Alegre em Águeda nem com Francisco Lopes em Arganil.

E poderá essa sensação de proximidade em relação a um candidato - por ser “da terra” ou “um dos nossos” - potenciar o voto de um eleitor? “Sim”, responde Jorge de Sá. “É normal que haja. É uma questão da identidade.”