Siga-nos

Perfil

Presidenciais 2016

Presidenciais 2016

Maria de Belém: uma derrota com vários culpados

  • 333

LUCILIA MONTEIRO

Maria de Belém não levou Marcelo à segunda volta, nem sequer ficou em terceiro lugar, não chegando aos 5% que lhe dariam direito à subvenção pública para financiamento da campanha. Pior só mesmo se tivesse tido menos votos do que Tino de Rans, como algumas sondagens ainda admitiram. De quem é a culpa?

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Há cerca de uma semana, Laurentino Dias, antigo secretário de Estado do Desporto de José Sócrates, um dos poucos nomes ligados à atual direção do PS (é chefe de gabinete de Carlos César, no grupo parlamentar) a apoiar Maria de Belém, resumiu a campanha eleitoral em curso como indo "do Tino de Rans erudito ao Tino de Rans popular". Hoje, pouco mais de meia hora depois de Maria de Belém assumir a derrota, um dos responsáveis da sua candidatura concluía, agora com os resultados das eleições praticamente apurados, algo parecido. Basta ter notoriedade, boa ou má, e, com pouco dinheiro, consegue-se o objetivo: basta ser Marcelo para se ser eleito Presidente; basta ser o Tino de Rans para se obter 4% - pouco menos do que Maria de Belém conseguiu, apesar de uma campanha montada nos moldes (e com os gastos) tradicionais. Mas a eficácia dos "momentos televisivos" proporcionados por Marcelo Rebelo de Sousa e por Tino de Rans é apenas uma parte da explicação. Uma leitura mais fina reconhece ainda outras razões para o "descalabro" - como qualificava um apoiante de Belém antes mesmo de conhecidos os resultados.

Uma vez confrontada com a derrota, na candidatura de Maria de Belém a tentação imediata foi disparar sobre terceiros: a culpa dos fracos resultados alcançados era da "onda populista e demagógica incentivada e cavalgada pelos outros candidatos" - dizia há pouco Vera Jardim, porta-voz de Belém, referindo-se ao caso das subvenções vitalícias que dominou os últimos dias da campanha. Mas também do apoio público de boa parte do Governo de António Costa e da direção do PS (com Carlos César, lider parlamentar, e Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta, à cabeça) a António Sampaio da Nóvoa, que assim contrariaram a decisão de equidistância em relação aos dois candidatos que a Comissão Politica do PS havia decidido.

O facto de António Costa ter desistido das presidenciais foi fatal para os dois candidatos da área. Para o líder socialista, que desde a primeira hora dera cobertura às ambições de Nóvoa, não lhe restava outra solução, uma vez informado da intenção da ex-presidente socialista de ir a votos, do que lavar as mãos do problema. Mas a decisão desmobilizou o potencial eleitorado do candidato que poderia ter sido alternativa a Marcelo. E por causa da "neutralidade" oficial do PS nem um nem outro colheu benefícios. Pelo contrário. Ao decidir não decidir por nenhum, Costa acabou a caucionar a vitória antecipadamente declarada de Marcelo Rebelo de Sousa - de quem, de resto, se dizia nos bastidores que seria aquele que mais lhe agradaria ter como Presidente.

Belém começou a campanha elegendo Marcelo como o adversário principal. Mas no virar da campanha - ao passar da primeira para a segunda semana - alterou a estratégia e passou a disparar sobre Sampaio da Nóvoa e sobre os socialistas que tinham preferido dar o seu apoio ao ex-reitor em vez de o darem à ex-presidente do partido. Alguns dos seus conselheiros não compreenderam a mudança de rumo que, na sua opinião, só contribuia para consolidar a ideia de que seria difícil chegar à segunda volta e, pior do que issi, vinha salgar as feridas de uma cisão interna no PS (decorrente das primárias que tinham eleito Costa contra Seguro) que se queria (inicialmente, pelo menos) ter desvalorizado.

Mas o pior mesmo foi a divulgação de que Maria de Belém fazia parte do rol de deputados que solicitara ao Tribunal Constitucional a revogaçáo da norma orçamental que imounha cortes nas subvenções vitalícias aos ex-titulares de cargos políticos. A candidata não assumiu desde a primeira hora que fazia parte da lista, a candidatura não antecipou o efeito viral da polemica e, mesmo depois desta desencadeada, foi incapaz de a estancar. O mal estava feito e era irreparável. Como acabou por ficar bem visível nos resultados, verdadeiramente imprevisíveis, desta noite.