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Presidenciais 2016

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Descida da afluência às urnas é um problema da Europa, não é só de Portugal

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josé caria

A afluência às urnas tem vindo a descer em todo o mundo nas últimas décadas, ainda que mais nuns países do que noutros. Mas há um padrão: é na Europa que mais tem descido e não são os anos de democracia em cada país que o explicam. Portugal tem assistido a essa quebra e desde 1986 que está abaixo da média da Europa e do mundo. Adburashid Solijonov, responsável por uma base de dados com estatísticas sobre os processos eleitorais a nível mundial, retrata ao Expresso essa quebra global

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Ao longo dos últimos anos, a afluência às urnas em todo o mundo tem vindo a descer, à semelhança do que tem acontecido em Portugal. Se nas últimas legislativas, em outubro, pouco mais de metade dos eleitores foi votar, nas presidenciais de 2011 os boletins que entraram nas urnas não chegaram a metade do total de eleitores. Essa quebra de afluência tem sido mais intensa em alguns países no mundo e o grande peso está, dizem os especialistas, na Europa.

“Noutros continentes não se identifica um padrão de queda tão evidente. Por isso, pode concluir-se que a força por trás da queda da participação eleitoral a nível mundial é a descida registada no continente europeu”, explica ao Expresso Adburashid Solijonov, responsável pelo sistema de estatísticas sobre processos eleitorais, no International Institute for Democracy and Electoral Assistance (IDEA), com sede em Estocolmo.

“Os nossos dados mostram que a queda na participação eleitoral tem acontecido sobretudo na Europa, onde está a grande parte das velhas democracias.” Solijonov sublinha, porém, que não é uma tendência exclusiva das democracias com mais anos, visto o mesmo verificar-se nos países do leste europeus que são, “na sua maioria, democracias mais recentes”.

Em relação ao que acontece fora da Europa, o analista do IDEA dá um exemplo. “Em países onde o voto é obrigatório, como a Austrália, a participação dos eleitores é mais constante.”

Uma comparação entre Portugal e os outros 21 países europeus onde se elege um Presidente da República mostra que entre todas as últimas presidenciais foi na Bielorrússia (87,2%), Chipre (81,6%) e França (80,3%) que se registaram as maiores taxas de afluência. Pelo contrário, Eslovénia (42,4%), Sérvia (46,3%) e Portugal (46,5%) são os países com menor taxa de votação.

Se nos focarmos apenas nos 11 países da União Europeia com eleições presidenciais – como é o caso de França, Polónia, Croácia, Bulgária ou Finlândia, entre outros – o Chipre surge no topo da afluência e abaixo de Portugal fica apenas a Eslovénia.

Presidenciais aqui, na Europa e no mundo

A análise feita por Adburashid Solijonov para o Expresso permite ainda comparar o que foi a evolução da afluência dos portugueses às urnas em todas as presidenciais (de 1976 a 2011) com o que foi a evolução da afluência mundial e europeia nas votações nas eleições presidenciais (tendo em conta os países onde elas existem). Para fazer essa comparação, os analistas do International IDEA calculam médias para cada década, com base em todas as eleições presidenciais entre 1975 e 2015.

Assim se percebe que só nas eleições de 1980 e de 1986 é que a afluência às presidenciais em Portugal ficou acima da média na Europa e no mundo.

Nos restantes momentos, incluindo em 1976, Portugal ficou abaixo da média. Por exemplo, nos últimos dez anos, entre 2005 e 2015, a afluência média registada a nível mundial foi de 66% e na Europa foi de 60,1%. Ao longo desse período, em Portugal, encaixam-se duas eleições: as de 2006 e as de 2011, com uma afluência de 61,5% e 46,5%, respetivamente.

O que explica a descida global da afluência

Entre os países europeus onde se elege um Presidente da República, apenas um tem voto obrigatório – Chipre. Foi o país que registou a maior taxa de afluência às urnas nas últimas presidenciais (em 2013), chegando aos 81,6%.

“O voto obrigatório é apenas uma das variáveis que afetam fortemente a afluência. Os nossos dados mostram que os países com voto obrigatório têm, em média, uma taxa de participação 7% acima dos países onde não é obrigatório”, aponta Adburashid Solijonov ao Expresso.

Entre os restantes países europeus sem eleições presidenciais, destacam-se mais quatro onde o voto é obrigatório (Bélgica, Grécia, Luxemburgo e Liechtenstein), podendo ou não haver sanções para quem não vota.

E nos locais onde o voto não é obrigatório, o que é que explica a quebra da afluência? “Uma análise feita com base em 83 estudos empíricos descobriu que entre todos os fatores, há alguns que têm um impacto mais significativo na afluência eleitoral”, aponta o responsável pelas estatísticas do IDEA.

O tamanho da população é um deles, diz Solijonov, pois “quanto mais pequena, maior o impacto de cada voto e, por isso, mais pessoas votam”. Outro é a sensação de proximidade, ou seja, quanto mais próximos os eleitores se sentem de um tipo de eleição, “mais sentem que o seu voto tem um poder decisivo”. O analista do IDEA destaca ainda as despesas de campanha, que poderão estar “positivamente relacionadas com a participação política”.

Nos últimos 40 anos, a afluência às urnas nas presidenciais, a nível mundial, baixou de 77% para 66% e na Eruopa a quebra foi de 81% para 60%, entre 1975 e 2915. Contudo, a forma como os vários fatores por trás da participação se relacionam e comportam em cada país varia, o que dificulta uma explicação global do fenómeno, conclui Adburashid Solijonov. “É impossível generalizar as causas comuns da queda de participação política, mesmo entre os países europeus que partilham processos culturais e políticos semelhantes.”