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Presidenciais 2016

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Marisa: com o apoio das mulheres e ao lado do Governo

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José Coelho/Lusa

Na última feira de campanha, em Vila do Conde, o facto de ser mulher foi talvez o que mais pesou nos apoios espontâneos à candidata. Marisa voltou a estender a mão a Costa, depois de com o outro braço já ter pedido os votos dos socialistas desiludidos com Maria de Belém.

“O meu voto vai para si. Tanto o meu como o da minha família”, diz a Marisa Matias uma senhora (certamente já com netos em idade de votar), na feira de Vila do Conde, no arranque do último dia de campanha da eurodeputada do Bloco de Esquerda.

Ao longo da visita, muitas mulheres interpelaram a candidata, declarando-lhe o apoio, por uma questão de género. Não foi caso único ao longo destas duas semanas, mas parece tratar-se de um gesto que se foi manifestando cada vez em maior número.

Conquistada a mulher, isso é a melhor porta de entrada para ganhar parte ou o resto da família, como se ouviu hoje em Vila do Conde.

Questionada depois pelos jornalistas pelo facto de ter recebido tantas palavras de incentivo de mulheres (algumas falaram da “Presidenta”), Marisa Matias desvalorizou o facto: “Quanto mais igualdade entre homens e mulheres houver, mais justa é a sociedade”.

Mão estendida a Costa

Mas se as mulheres parecem tomar a linha da frente dos apoiantes, há um nicho de mercado que a candidata já identificou há dois dias (os socialistas desiludidos com Maria de Belém), e que quer garantir o mais possível.

Ontem, depois de críticas de algumas figuras do PS (na polémica das subvenções vitalícias de ex-políticos), já Marisa havia declarado todo o apoio a António Costa e ao Governo no braço de ferro com Bruxelas, por causa do Orçamento.

Hoje repetiu isso, para o deixar mais claro. “Pensamos que é preciso ter uma maioria Parlamentar, um Governo e uma Presidente da República que o apoie [ao Governo]”, disse a candidata presidencial.

O empenhamento numa guerra sem quartel contra as instituições europeias é total: “Em Portugal manda quem o povo elegeu e não Bruxelas”, diz Marisa Matias. “E Portugal já cedeu mais do que é admissível em qualquer democracia”, acrescenta.

As coisas, num caso destes, teriam sempre de funcionar assim; com uma mão, Marisa pede os votos de socialistas; com a outra, dá algo em troca e garante que estará sempre disposta a amparar António Costa e o Governo.

Pouco antes, perante uma pessoa que havia tentado explorar divergências entre o Bloco e o PCP, afirmara: “Estamos todos a trabalhar para o mesmo e vai correr tudo bem”.

Querer e saber ouvir

“É preciso gente nova na política, pessoas como você”, diz-lhe uma mulher mais idosa. É justamente entre os mais velhos que, nestes últimos dias de campanha, a candidata mais parece ter crescido nas declarações de apoio que lhe são feitas.

A disponibilidade e afetuosidade de Marisa Matias para ouvir as queixas, imagens que ao fim de alguns dias já vão sendo do conhecimento de mais população, terão contribuído para isso. Hoje de manhã, num momento particularmente emotivo em Vila do Conde, isso foi confirmado.

Uma senhora conta a Marisa as agruras da vida. Conta é muito neutro: despeja lamentos, desabafa, quase chora. Começa em voz alta, exaltada mesmo, queixando-se do facto de o filho, de 35 anos, pescador da sardinha, estar desde setembro em casa, sem meios de subsistência, “a viver de tostões”, porque está impedido de ir para o mar.

O mesmo mar que lhe levou um irmão, há 40 anos, dor que está ainda à flor da pele. Uma tragédia individual, mas conhecida na carne por muitos. É no concelho de Vila do Conde que está Caxinas, a maior comunidade piscatória do país, e “o maior cemitério de pescadores”. O discurso da mulher prossegue, por vezes em torrente, e ela continua revoltada, reclamando que ninguém a ouve. “Ninguém me ouve!”, repete.

Ao fim de várias segundos, é ela que não ouve. Marisa agarra-lhe nas duas mãos e vai martelando uma frase, primeiro mais baixinho, para acalmar a senhora, depois mais alto, única forma de se fazer ouvida: “Estou a ouvir, e estou a ver”, diz, olhos nos olhos. E repete até que os ânimos serenam.

Fusão geracional

Mas se a empatia com eleitorado mais idoso, o escalão etário que frequenta os mercados, é uma constante (Marisa Matias ainda teve tempo para comunicar, gesticulando, através do vidro, com homens dentro de uma barbearia), não se faz por qualquer programação do discurso da candidata para os potenciais eleitores que tem pela frente.

Basta-lhe passar e ouvir as queixas, nas quais muitos registaram com visível agrado a sua cruzada contra a subvenção vitalícia dos políticos e a corrupção, iniciada no debate na TV.

No final da penúltima ação de campanha (à tarde há arruada, no Porto, e à noite comício de encerramento, em Coimbra), ao sair do recinto do mercado, Marisa Matias despede-se de quem a vê passar com um cumprimento que candidatos de outra geração, independentemente do partido, jamais diriam: “Tchau, bom dia!”. Quem fala assim é jovem!