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Presidenciais 2016

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Marcelo penteou uma cabeleireira e admite que seja a direita a pentear o Orçamento

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José Carlos Carvalho

Neste texto, encontrará um bocadinho de tudo: política a sério, trocadilhos sobre molhos de brócolos e cautelas de lotaria, um grande galo, uma cabeleireira solitária, insinuações marotas sobre grelos murchos, uma eleitora a chamar "mono" a Cavaco e até uma garantia solene de Marcelo: "Na minha idade já não dá para virar"

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Texto

Jornalista da secção Política

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

Fotografia

Fotojornalista

Que Marcelo "tudo fará" para evitar crises políticas e garantir que o primeiro Orçamento de António Costa será viabilizado, já o disse e repetiu. O que não se sabia, e ficou a saber-se esta sexta-feira, é que essa viabilização não está dependente, na opinião do candidato, apenas dos partidos que à esquerda apoiam o governo PS. O professor está convicto de que Costa saberá negociar o documento e que a esquerda não quer crises - mas abriu outros cenários.

"O apoio deve começar na base do apoio político do Governo, mas se isso não for suficiente, há de ser, naturalmente, tratado com a oposição", defendeu o candidato quando questionado, num direto para a SIC, sobre se poderá ser o PSD a ter de salvar as primeiras contas de Mário Centeno.

Uma forma de acautelar todos os cenários - e a Marcelo, cautelas não têm faltado ao longo de toda a campanha, sobretudo quando se fala do futuro político do Governo. Nem de propósito, mal acabou o direto com a SIC, o candidato entrou numa loja de lotarias para comprar uma cautela. Optou pela lotaria clássica, que faz mais o seu estilo. Nunca ganhou nada nestes jogos, mas quem não arrisca não petisca. Para mais, este sorteio anda à roda na próxima segunda-feira.

"Alegria no domingo e alegria na segunda", previu o candidato, que se tem mostrado confiante sobre o resultado da primeira volta. Esse foi um dos incentivos que mais ouviu ao longo da manhã: os votos de que tudo se resolva este fim de semana.

Foi uma manhã em cheio, entre Viana do Castelo, Esposende e Barcelos. Não há quem não receba Marcelo com um sorriso, perde-se a conta às pessoas que pedem para tirar fotos com ele, é tratado como uma estrela de telenovela, o que não será alheio à quantidade de vezes que o parabenizam pelos comentários políticos que fazia na televisão.

- O senhor, como analista na televisão, era bom, mas agora virei para o Marques [Mendes], disse-lhe uma mulher.

- O Marques é bom, o Marques é bom!, respondeu Marcelo, magnânimo.

Um molho de brócolos e o galo de que baixou a crista

José Carlos Carvalho

Na feira, o candidato comprou brócolos, mas negou a ideia de que a campanha tenha sido um molho dos ditos. Recusou a proposta da mulher que lhe queria vender malaguetas para distribuir na Assembleia da República ("nem pense, aquilo já está demasiado quente"). Aviou-se de pão, comprou flores para a filha Sofia, que está com ele, mas ignorou olimpicamente os nabos. Pôs-se atrás de uma banca a vender e a fazer trocos, sem carregar no IVA. Passou por um galo, com ar confiante - ar confiante tinha o candidato, não o bicho, que baixou a crista na presença do professor (quem sabe, pressentindo que em breve haverá galo novo no poleiro).

Marcelo, que já fez quase tudo nesta campanha - de passar a ferro e fazer camas até tirar fogaças do forno - mostrou hoje outro talento escondido: ao ver uma cabeleireira com o estabelecimento vazio e a pentear-se sozinha, entrou, tirou-lhe das mãos o secador e a escova e tomou conta do penteado. Não por razões estéticas, mas por razões de afeto. "Uma cabeleireira a pentear-se a si própria parece-me o cúmulo da solidão", explicou depois.

O "mono", a "mona" o grelos murchos e o homem que não vai virar

José Carlos Carvalho

Podia este texto continuar a recolha de momentos mais ou menos picarescos da jornada, mas nada bate o pequeno show de Conceição Vilaça, que a dada altura se agarrou a Marcelo como uma lapa, de língua destravada, obrigando o professor de direito a mostrar todo o seu jogo de cintura. Em direto, e quase sem cortes, transcreve-se esse pequeno diálogo do Portugal real:

- Sr. Rebelo, Sr. Rebelo, quero fazer-lhe uma proposta. Eu voto em si e o senhor dá-me uma nota de 500. Vou fazer como o governo: como são todos uns trafulhas... Mas se não tiver uma nota de 500 pode ser uma reforma vitalícia.

- Eu sou contra, contra...

- Alguns [têm] tudo e outros nada... Dê-me uma nota de 500 e eu voto no senhor.

- Não posso, porque isso seria comprar votos...

- Olhe, gosto muito de si e de o ver na televisão. Mas depois vai para lá e vai virar.

- Acha que eu viro?

- Por amor de Deus! Eles vão para o poleiro e viram todos! Por isso eu faço como eles: dê-me 500 euros e voto em si.

- Não posso.

- Então 10 euros, para comprar grelos.

- Vá, escolha os grelos.

- Já comprei, Sr Rebelo. Estava a brincar consigo.

- Olhe, mas eu não viro. Na minha idade já não dá para virar.

- Já não vira... está como os grelos, já está tudo para baixo.

(...)

- Gosto de si por uma razão: eu ouvia a sua palestra e o senhor era contra o Coelho, agora veja lá se vira para o Coelho outra vez. Porque você é do Coelho, sabemos muito bem. O senhor é laranja e eu sou Costa. Mas vou votar em si - em si ou na Marisa, estou indecisa. Porque é mulher e eu sou muito feminista...

- Mas eu tenho mais hipóteses de ser eleito do que a Marisa. Ela é boa pessoa, mas tem menos hipóteses.

- Eu não quero é que haja primeiro domingo e segundo domingo. Quero que o senhor ganhe logo à primeira.

- Nisso estamos de acordo. E eu não mudo, não viro!

- Não faça como aquele Cavaco, que aquilo é um mono. Aquele Cavaco é um mono!

- Mas acha que eu tenho cara de mono?

- A mulher dele é outra mona!

- Mas acha que eu tenho cara de mono?

- Não.

- Então, pronto!