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Presidenciais 2016

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Marcelo dá corda aos sapatos

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José Carlos Carvalho

Com sondagens que valem como aviso amarelo, o professor tem um último dia de campanha em cheio. Sem trair o seu estilo, passa ao ataque no discurso e não deixa nenhuma crítica por responder. É o tudo por tudo contra a abstenção

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

A campanha tranquila e distendida de Marcelo Rebelo de Sousa, com longas horas de intervalo entre cada ponto da agenda, resistiu quase até ao último dia. Quase. Mas esta sexta-feira Marcelo dá corda aos sapatos, no tudo por tudo para levar os abstencionistas a votar e sossegar a inquietação que as últimas sondagens vieram trazer. Todas dizem que Marcelo vence, e é eleito à primeira, mas nalgumas o desempenho do professor denota algum desgaste e a maioria absoluta fica dentro da margem de erro.

Marcelo sabe que tudo vai depender da abstenção - se ficar acima de 55%, será mais difícil o professor recolher mais de metade dos votos, o que pode obrigar à segunda volta: mais três semanas de incerteza, mais campanha, mais desgaste, tudo o que Marcelo dispensaria. Querem mesmo prolongar mais isto?, foi a pergunta que ficou na quinta-feira à noite, na sessão de esclarecimento feita no Porto. O importante no domingo, disse Marcelo, é que as pessoas votem, seja em quem for, e não "deixar para outro momento, impondo-se mais três semanas para uma decisão que pode ser tomada já", frisou o candidato.

Os partidos estão lá: Rangel e Melo esta noite

Também a pensar na necessidade de mobilização para este domingo, Marcelo piscou o olho aos dois partidos que o apoiam, mas cujas marcas o candidato nunca deixou que fossem visíveis. Não há um comício com uma bandeira, os dirigentes locais e deputados do PSD e CDS eleitos pelos vários círculos por onde Marcelo vai passando, marcaram presença discreta nos eventos, mas ontem à noite referiu-se a esse apoio para mostrar que não é mal agradecido.

"Como é que eu não havia de ficar feliz por ver essas pessoas ao pé de mim?", disse no Teatro de Campo Alegre, perante vários deputados e responsáveis dos dois partidos. Mas insistiu: "Sou grato, mas sou independente de quem me dá apoio e recomendações de voto", pois sempre foram essas as suas "regras do jogo".

Esta noite, que será a única em que Marcelo tem dois momentos de campanha, para queimar os últimos cartuchos - uma sessão de esclarecimento em Braga e outra em Celorico de Basto - são esperados Paulo Rangel e Nuno Melo, para lembrar mais uma vez os respetivos eleitorados de que há um candidato que, embora por vezes possa não o parecer, é da área política da antiga coligacao.

Dia com agenda cheia

Os dois comícios da noite serão o culminar de um dia com agenda atipicamente cheia. A começar na feira de Viana do Castelo, seguindo-se contactos com a população na baixa dessa cidade e, depois, mais contactos com a população, em Esposende. Mais rua do que tem sido hábito - isto, se a chuva que cai nesta região não levar à desmarcação destas ações (Marcelo tem sido especialista em alterações de última hora, cancelando, acrescentando ou mudando planos).

Depois de um "almoço frugal em Barcelos", está prevista uma visita à fábrica Continental Mabor e, a meio da tarde, contacto com a população em Guimarães.

Apesar do ritmo mais intenso, será mais um dia de Marcelo sendo Marcelo - praticamente sozinho, numa campanha despojada, sem carros de som, sem uma barda de jotinhas à volta, sem bandeiras nem pendões, nem hino de campanha, nem bombos nem arruadas cheias de gente mobilizada pelas máquinas partidárias.

Diferente "porque eu sou diferente"

"A minha campanha foi diferente porque eu sou diferente, e a campanha é o retrato da pessoa. Tinha de ser uma campanha livre e independente", justificou na noite de quinta-feira, explicando por que razão se limitou ao que é essencial: o candidato, a sua mensagem e o hino de Portugal. Uma por uma, as críticas de que a campanha de Marcelo tem sido alvo foram sendo desmontadas - criticando, ao invés, o estilo ultrapassado dos adversários.

Os outros candidatos cumprem hoje os habituais almoços e arruadas por Lisboa? Isso já era, explicou Marcelo ontem. "Decidiu-se mudar para uma coisa diferente, foi assim uma ideia que eu tive. Aproximar-me das pessoas significa sentirem que se ultrapassaram os esquemas clássicos de mobilização de massas. Almoços, jantares, enquadramentos em comícios clássicos, isso está muito visto. Arruadas, o enquadramento partidário as juventudes, os militantes a participarem às dezenas e centenas, e a pessoa [candidato] ia no meio e acabava por não falar se não com aquela realidade que a envolvida... acho que isso se esgotou."

O método de Marcelo irá resultar? "Vamos ver", diz, encolhendo os ombros.

À cautela, no discurso de ontem à noite carregou nos tons, pegando mais uma vez na polêmica das subvenções vitalícias dos ex-políticos e desafiando o governo a mudar as regras no próximo Orçamento do Estado, para que não haja portugueses de primeira e de segunda. Pode uma campanha ser diferente, mas não tem de passar ao lado dos temas que rendem...