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Presidenciais 2016

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Ele fez a festa, atirou os foguetes e conta apanhar as canas

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josé carlos carvalho

Se não for agora, será à segunda volta. Na reta final da campanha, e com as últimas sondagens a darem-lhe a vitória, Marcelo Rebelo de Sousa acredita que vai mesmo chegar a Belém. Para o PS estas vão ser (mais umas) eleições de má memória. À esquerda, Marisa Matias arrisca tornar-se numa das surpresas da noite eleitoral

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

E se Maria de Belém perder, ou ficar taco a taco, com Marisa Matias? A pergunta não é descabida – o comício “às moscas” de ontem à noite, em Lisboa, foi confrangedor. Nas últimas horas as sondagens começam a apontar para o cenário de um possível frente a frente entre a bloquista e a ex-presidente do PS. Se tal acontecer, será com certeza uma das surpresas da noite de domingo.

Mas já lá vamos.

Primeiro olhemos para Marcelo Rebelo de Sousa. O candidato que mostrou ao país uma outra forma de fazer campanha – a do “one man show” dos “afetos”. Com ele tudo foi diferente: (quase) não houve partidos, nem bandeiras, nem jotas, nem cartazes – como nunca tinha acontecido. Apenas ele e o seu “boneco” televisivo. E, se funcionar, esta campanha ficará com certeza para os manuais.

Na pole position de todas as sondagens, Marcelo Rebelo de Sousa, como conta hoje o Expresso, já ensaia o discurso de tomada de posse - há até quem diga que também já tem preparados os discursos do 25 de abril e o de 10 junho, as primeiras intervenções políticas de fundo do próximo PR -, mas o candidato da “esquerda da direita” sabe que para pôr o pé em Belém ainda tem um enorme obstáculo para ultrapassar: a abstenção. Se esta ficar acima dos 50%, o impacto vai redesenhar os resultados projetados de todas as candidaturas. Mas o principal prejudicado será mesmo Rebelo de Sousa.

josé carlos carvalho

Num cenário de elevada abstenção, a eleição presidencial pode só ficar resolvida numa segunda volta (a 14 de fevereiro). E o grande perigo chama-se “abstenção por convicção de vitória”. Um risco que afeta obviamente quem vai à frente. Com Marcelo a registar resultados tão positivos, o receio é que os portugueses não vão votar por acreditarem que já está tudo resolvido - foi o que aconteceu no referendo do Aborto em junho de 1998, em que o ‘sim’ acabou derrotado apesar de todos os estudos de opinião. Numa outra perspetiva, a abstenção será mais penalizadora para Rebelo de Sousa porque como a sua campanha foi muito pouco ideológica, o candidato terá mais dificuldade em fixar o voto do seu eleitorado tradicional – a direita.

No terreno, Marcelo tem tentado contrariar a ideia de um “excesso de confiança”, mas, ainda assim, a dramatização tem sido tímida. Quem acompanha o candidato percebe que existe de facto uma convicção de vitória. Marcelo acredita que vai ganhar à primeira e, se o conseguir, pode tornar-se um presidente com um verdadeiro “superpoder”. Como nunca aconteceu na história dos Presidentes da República, será eleito sem faturas para pagar, livre dos interesses partidários que foram dispensados da sua campanha. Sem fações.

Se na campanha a “direita” foi posta a um canto, Marcelo sabe que ela não lhe faltará, sobretudo se houver uma segunda volta (até para vingar a “derrota” das legislativas). Marcelo preparou tudo para ganhar à primeira, mas a sua estratégia “sui generis” pode ser importante para resolver a eleição numa segunda volta.

Por isso, nesta primeira fase, preocupou-se em segurar quem decide as eleições: o centrão (e até a esquerda). Afagando o mais que pode o eleitorado que não lhe é tradicional. Dizendo, repetidamente, que é importante que o governo de António Costa se aguente. Afastando o PSD e o CDS. E assumindo-se como um político da “esquerda da direita” – o que, faça-se justiça, não é errado. Marcelo nunca foi da mesma direita de Passos Coelho. Foi um erro colá-los. E apercebendo-se disso, os candidatos da esquerda deixaram de insistir nessa tecla.

tiago miranda

A “Champions” e a “Liga do Rato”

Se as sondagens se confirmarem, se Marcelo vencer, António Costa soma uma terceira derrota. Antes das presidenciais, foram as legislativas e as regionais na Madeira. No caso das eleições para Belém, o líder do PS percebeu desde cedo que tinha um problema. Com a “nega” de António Guterres (e este, sim, foi o verdadeiro problema do PS) – e com a convicção de que Marcelo seria imbatível -, António Costa pôs Sampaio da Nóvoa a fazer a rodagem. Só que ao fazê-lo, dividiu ainda mais um PS na ressaca das primárias.

Nóvoa era visto como “demasiado à esquerda”. Maria de Belém serviu para dar rosto a essa fação descontente (os seguristas?). O que se passou depois não foi bonito. Cavaram-se trincheiras. Lançaram-se granadas. A guerra estava aberta: PS contra PS.

E Marcelo a salvo. A planar sobre a campanha.

lucília monteiro

Tal como aconteceu com outras presidenciais – recorde-se Alegre vs Soares em 2006 -, o PS voltou a não saber unir-se. E Costa sabendo que este era um combate perdido tinha um duplo problema. Por um lado, um candidato a quem deu gás e que tinha o apoio de três ex-presidentes da República. Por outro, uma candidata que, sendo ex-presidente do PS, não podia ser ignorada. Solução: não apoiar nenhum deles (como nunca aconteceu no PS). E assim – e naquela altura ainda não se sabia que a derrota de Maria de Belém era certa – não corria o risco de apostar no cavalo errado. Mas isso não o impediu, de forma encapotada, de pôr todo o seu núcleo duro, ministros incluídos, a puxar por Nóvoa. Ou seja, nos bastidores, fez o que disse que não ia fazer.

No entretanto, o país foi assistindo a um namoro pegado entre Marcelo e António Costa (o PM até disse que não perdia o sono com Marcelo em Belém). E vistas bem as coisas, o chefe de Governo pode ter mais interesse em ver Marcelo em Belém do que Sampaio da Nóvoa, o seu candidato.

Ao colar-se tanto ao “tempo novo” e à direção de António Costa (e a direção do PS a ele), Sampaio da Nóvoa ficou umbilicalmente ligado à solução das esquerdas. Se fosse eleito, seria o Presidente da “geringonça”. Com esta estratégia, Nóvoa não só hipotecou espaço de manobra, como a independência que é exigida a um PR. E, para Costa, ter em Belém um Presidente tão agarrado à situação, e às esquerdas, podia tornar-se num entrave difícil de gerir. Sobretudo quando se quiser ver livre do PCP e do BE.

nuno botelho

A terceira divisão

Maria de Belém, que até não começou mal, será uma das notícias destas eleições. E pelos piores motivos. Nem Jorge Coelho (o bulldozer não costuma brincar em campanhas) a conseguiu livrar do buraco que ela própria cavou. O caso das subvenções dos ex-políticos, e sobretudo a forma como o geriu, transformou a sua campanha numa enorme sala vazia. O pior foi que à imagem do comício de Lisboa juntaram-se as sondagens que a põem taco a taco com Marisa Matias. Os seus apoiantes engoliram em seco.

Se para a socialista a derrota é indisfarçável – e os estilhaços vão chegar ao Largo do Rato -, para a bloquista, e a fazer fé nas sondagens, pode haver motivos para comemorar: não só pode ganhar a Edgar Silva como já faz frente a Maria de Belém. Marisa partia para esta campanha debaixo da sombra de Catarina. A líder brilhou nas legislativas, e Marisa Matias teve de puxar o lustro à sua candidatura. O desafio não foi fácil: o BE está agarrado ao Governo e a candidata muito alinhada com a esquerda de Sampaio da Nóvoa.

marcos borga

Para o PCP, com os estudos de opinião a darem a Edgar Silva resultados na casa dos 3%, 4%, o desaire pode ser duplo. Os comunistas não só se veem, uma vez mais, ultrapassados pelo BE. Como a “rodagem nacional” do candidato revelou que o madeirense não está de facto à altura do sonho da liderança. Mais do que no BE, no PCP a comparação com o líder foi verdadeiramente um obstáculo. Por muito bom líder que tenha sido na Madeira, esta campanha mostrou que Edgar não tem estatuto nacional.

A campanha das televisões

Que Marcelo Rebelo de Sousa é um fenómeno mediático ninguém tem dúvidas. Dedicou mais de metade dos seus 67 anos ao comentário e análise política nos jornais, na rádio, na tv. Marcelo é, como se costuma dizer na gíria dos media, um “monstro do audiovisual”.

josé carlos carvalho

Ora, é fácil perceber que a notoriedade avassaladora de Rebelo de Sousa tenha sido o principal problema para os adversários. Sobretudo para Sampaio da Nóvoa – que queria competir na mesma liga. Só que o país mal conhecia o candidato do “tempo novo”, e por isso, o ex-reitor teve de começar cedo a dar ao pedal. Estávamos em abril. Marcelo só anuncia que é candidato em outubro. E até ao fim não prescindiu do seu palco mediático: os comentários de domingo que eram vistos em média por um milhão de portugueses – e ao mesmo tempo, aproveitou o aniversário do PSD para namorar o partido, correndo todas as concelhias.

No domingo, justamente no domingo, os eleitores/telespetadores decidem: comentador ou candidato? O mais certo é que elejam o comentador. O candidato não convenceu. Aliás, se dependesse da vontade de Marcelo, ele nem teria feito campanha. Porque o que sempre quis foi mesmo ser Presidente.