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Presidenciais 2016

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Como Soares, com um Congresso, pôs Guterres e Cavaco em fuga

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O congresso levou à FIL, na Junqueira, em Lisboa, milhares de pessoas contra o cavaquismo

Estava Guterres a organizar os seus Estados Gerais, quando Soares decidiu lançar um Congresso contra “o situacionismo”. O líder socialista viajou para o Japão e Cavaco fugiu para o Pulo do Lobo. O arraso ao cavaquismo foi brutal. Mas o PS também não se sentiu lá muito bem
Em tempo de campanha para as presidenciais, o Expresso recorda alguns dos momentos mais importantes do Palácio de Belém, desde Spínola até aos dois mandatos de Jorge Sampaio. Este é o décimo quarto episódio desta série de artigos.

Percebeu-se que Mário Soares se preparava para fazer das suas quando, no discurso de Ano Novo de 1994, o Presidente da República falou de 93 como “um ano que não deixa saudades”. Não tardou muito até se perceber o resto: na primeira semana de janeiro, Gomes Mota (um dos homens do Presidente) apresenta o manifesto do Congresso “Portugal, que futuro?”, promovido por alguns dos mais fiéis seguidores de Soares, com o seu patrocínio. Gomes mota foi claro: seria “um Congresso contra a situação”.

O texto era arrasador para o cavaquismo mas até ao evento propriamente dito - que só aconteceu em maio - foram quatro meses com os nervos em franja.

O PS, onde António Guterres preparava uns Estados Gerais para mobilizar apoios para as legislativas de 1995, tremeu. No Largo do Rato, Jorge Coelho (braço direito do líder socialista) tentava articular com Vítor Cunha Rêgo (um dos estrategas do soarismo) a melhor forma de minorar os danos para os socialistas. Mas não foi fácil. O PCP fez-se representar no lançamento do Congresso ao mais alto nível - de Carlos Carvalhas a Domingos Abrantes, passando por Carlos Brito e Otávio Pato. O sampaismo (em guerra com o guterrismo) idem. E até Arnaldo Matos, líder do MRPP, lá foi. A direção do PS não ousou faltar. Mas percebeu que ía dar trabalho impedir que Soares chamasse a si o epicentro da oposição e António Guterres optou por mandar mensagem: "Caro amigo, agradeço o seu convite ...". Seguiu-se a desculpa: naquele dia, tinha que tomar posse na Assembleia Municipal do Fundão.

E o que dizia o manifesto? Acusava o cavaquismo de "destruição do sistema produtivo", "desordem educativa", "desapego pela cultura", "incúria na preservação do património", crise na Justiça e na Saúde, uma "democracia doente de situacionismo".

Por esses dias, Soares anunciava uma Presidência Aberta sobre Ambiente. O tema parecia relativamente pacífico, mas durante três semanas, o Presidente havia de calcorrear o país de lés a lés e tudo serviu para malhar no cavaquismo: a construção sem freio, a febre das auto estradas, a má preservação do património, a desertificação do interior, a indústria dominada pela lógica do lucro, a costa algarvia destruida, os números acima das pessoas.

A Presidência Aberta terminou na semana antes do Congresso, mas Soares ainda tinha outro cartucho: lançou mais um volume das suas Intervenções, onde se lia: "Voltámos aos tempos dos fumos da Índia". Com o ataque ao Governo do PSD em marcha em várias frentes, Cavaco Silva começa a projetar o que fazer no dia em que milhares de pessoas acorreriam à FIL para ouvir o velho animal político. No Rato, António Guterres fazia o mesmo - que desculpa arranjar para justificar a falta ao Congresso do "pai" Soares?

Foi hilariante. O líder do PS viajou até ao Japão e Cavaco Silva refugiou-se num local inóspito do Alentejo, onde Daniel Proença de Carvalho tinha uma casa. Foi quando o Pulo do Lobo se tornou famoso aos olhos do país.

No dia do Congresso, Mário Soares sobe ao palco da FIL de braços erguidos e ar de caso. E liberta a frase que havia de fazer títulos no dia seguinte: "Estou angustiado". Durante hora e meia não defraudou as expetativas: "Temos direito à verdade". E a verdade que levou à FIL foi um dos mais duros libelos acusatórios do cavaquismo e da maioria absoluta do PSD.

Na primeira sessão parlamentar depois do evento, caberia a Almeida Santos fazer a ponte entre o tiro do Presidente que assumira o papel de líder da oposição e o verdadeiro titular do cargo, António Guterres, que conseguiu escapar à fotografia. Santos subiu à tribuna para elogiar o velho amigo e cavalgar o ataque ao consulado de Cavaco - "Soares acertou em cheio", disse. Mas o PSD não se ficou.

Duarte Lima, na altura líder parlamentar do partido, desafiou Mário Soares a ser coerente e a demitir Cavaco Silva ou a dissolver a Assembleia da República. Caso contrário, deveria ser o PS a apresentar uma moção de censura ao Governo. Guterres fez orelhas de moco. E Soares também não lhes fez a vontade. O efeito estava alcançado. O cavaquismo cairia em menos de um ano.

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