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Presidenciais 2016

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A candidata fora do sistema

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Foi assim que Ovar recebeu Maria de Lourdes Pintasilgo, candidata a PR, em janeiro de 1986

Rui Ochôa

Maria de Lourdes Pintasilgo foi uma mulher de peso na cena política portuguesa, antes e depois do 25 de Abril. E foi também a única candidata à Presidência em 106 anos de história da República - até agora. Quatro apoiantes da candidatura de Pintasilgo a Belém recordam o efeito mágico desta mulher que mobilizou católicos e não crentes, gente de esquerda e de direita... porque ela era a candidata da diferença. Luís Moita, Manuela Silva, Sousa e Castro e Alberto Martins também falam sobre a imensa desilusão e frustração que Pintasilgo sentiu com a derrota eleitoral na noite de 26 de janeiro de 1986

Chegou ao Ritz num “luxuoso Rolls-Royce, de óculos escuros, adequados ao dia de verão” e ao calor que se sentia em Lisboa nesse 27 de julho de 1985. Maria de Lourdes Ruivo da Silva de Matos Pintasilgo, 55 anos, inspirava respeito a boa parte da sociedade portuguesa e essa foi uma das razões que a fez candidatar-se à Presidência da República. Era a primeira mulher a fazê-lo em toda a história do país e foi também a única primeira-ministra até hoje.

À distância de 30 anos, o Rolls-Royce é uma nota dissonante na postura pública desta mulher pacata e generosa, que mais parecia uma mãe de família da geração anterior à sua. O excesso do carro pode ter sido um símbolo propositadamente escolhido para esse dia: Maria de Lourdes era freira laica, o que explica o seu aspeto pesado mas sempre cuidado... e os apoiantes poderiam querer emprestar uma imagem de política mais mundana à candidata.

A questão do género

“O facto de pertencer a uma organização da igreja católica e não ser casada contribuiu para que fosse vista como uma ativista independente, não ativando politicamente a questão do género”, diz ao Expresso o historiador e politólogo António Costa Pinto.

A economista Manuela Silva, amiga e companheira de luta de Pintasilgo, também pensa que “ela não ficou conhecida por ser mulher, mas sim pelo projeto político, pela proximidade” que tinha com o cidadão comum.

Suportada por um arco-íris de apoiantes, Maria de Lourdes Pintasilgo em pré-campanha para as eleições presidenciais de 26 de janeiro de 1986

Suportada por um arco-íris de apoiantes, Maria de Lourdes Pintasilgo em pré-campanha para as eleições presidenciais de 26 de janeiro de 1986

Rui Ochôa

Para o professor Luís Moita, amigo de Pintasilgo e o homem que a acompanhou no momento da derrota eleitoral, a questão do género nunca se colocou: “Esse argumento nunca foi invocado, seria um ato de machismo. Ela era uma pessoa respeitada, com experiência política e um prestígio internacional muito grandes. Agora saber se no inconsciente das pessoas esse mecanismo funcionou é muito difícil de dizer....”.

Por este motivo, Moita - que foi padre - não concorda com a tese defendida por Costa Pinto. Mas admite que “tenha algum fundo de verdade” e que os portugueses não a tivessem olhado como mulher, “por ser quase freira”. “O que sei dizer é que a campanha foi entusiástica”, acrescenta Moita.

Na opinião de Sousa e Castro, a questão do género contribuiu para a derrota: “A candidatura foi influenciada por uma sociedade que não tinha grande abertura às mulheres, para não dizer que era misógina e machista. Se houvesse naquela altura uma maior aceitação da presença feminina no topo das hierarquias do Estado, mesmo com as adversidades políticas que ela encontrou [com a candidatura em marcha], o resultado poderia ter sido outro”, acrescenta o capitão de Abril que foi diretor de campanha.

Se fosse “hoje, se ela se candidatasse agora, ganhava as eleições. Era uma pessoa com currículo, capacidade, prestígio”, acrescenta o capitão de Abril, lembrando que as comparações históricas e os “ses são sempre complicados”.

Depois do 2º resgate do FMI, Portugal viveu anos de recessão e desemprego. Mas será que uma mulher conseguia despertar a atenção destes operários preocupados com o futuro?

Depois do 2º resgate do FMI, Portugal viveu anos de recessão e desemprego. Mas será que uma mulher conseguia despertar a atenção destes operários preocupados com o futuro?

Flávio Souza

“Ela invadiu o espaço dos homens”

Alberto Martins, que foi ministro dos Governos de Sócrates e Guterres, ainda não era militante do PS em 1986. Mas foi ‘pintasilguista’, e lembra que Maria de Lourdes era “uma mulher com muita força, com grande prestígio, que tinha ganho espaço no terreno habitual dos homens. Ela invadiu os espaços dos homens. Era uma invasora nesse sentido, tinha esse lado de estrangeira”.

Pelo receio da novidade, Martins admite que essa invasão do território [tradicionalmente] masculino a tenha penalizado nas urnas: “Admito que alguma falta de adesão no [momento do] voto tenha sido pela rotura cultural, por Maria de Lourdes ser quem era, e por ser mulher”.

A determinada altura, o “Eduardo Lourenço [que também a apoiava] disse que a importância dela é ser quem é e ser mulher”, lembra Alberto Martins: “E isso é verdade. A vida dela foi uma rotura, uma vida de bandeirante, em grande medida por ser quem era e ser mulher”.

Carros com megafones no tejadilho. A candidata Maria de Lourdes Pintasilgo acena e discurso num veículo de caixa aberta. Mealhada, janeiro de 1986

Carros com megafones no tejadilho. A candidata Maria de Lourdes Pintasilgo acena e discurso num veículo de caixa aberta. Mealhada, janeiro de 1986

Rui Ochôa

Falta de dinheiro, o preço de ser independente

“Havia poucos meios financeiros, não era como agora. O Estado não entrou com graveto nenhum”, diz ao Expresso o coronel Rodrigo Sousa e Castro. A candidata pertencia ao GRAAL, um movimento de mulheres católicas que chegou a Portugal em 1957 através de Maria de Lourdes Pintasilgo e de Teresa Santa Clara Gomes. Sousa e Castro lembra que a instituição americana congénere lhe “dava mensalmente dinheiro, mas queria saber o que se estava a fazer na campanha”.

Castro recorda um episódio picaresco sobre a recolha de fundos: “Ela telefonou ao Mello, que tinha sido um dos patrões dela na CUF, à minha frente. Estávamos no GRAAL. E ele disse para ela mandar uma pessoa [ter com ele]. O escritório dele era perto da Embaixada de França. Eu e a Helena Sanches Osório [jornalista já falecida] fomos com ela. Fiquei cá fora, num restaurante chamado Chocalho. Quando a Maria de Lourdes Pintasilgo voltou, vinha com um saco de plástico. Trazia as notas num saco de plástico!”.

“Os militantes contribuíam com pequenas importâncias”, acrescenta o diretor de campanha. Alberto Martins destaca a circunstância de ter sido uma “campanha sem máquinas partidárias, feita a pulso, a partir de cada sítio do país. Uma campanha com poucos recursos financeiros, que se levantou do chão, com gente da esquerda não alinhada que mais tarde se exprimiu em vários partidos”.

No final, Maria de Lourdes “fez um grande esforço, durante muito tempo, para pagar as dívidas da campanha. Ficou com dívidas muito altas da campanha”, afirma o ex-ministro do PS. Trinta anos mais tarde, Martins apoia Maria de Belém.

A morte do irmão e o factor Zenha

Luísa Beltrão e Barry Hatton, autores da biografia “Pintasilgo - uma história para o futuro”, contam que “a morte do irmão José Manuel, ocorrida durante a campanha, abalou-a profundamente”. Os autores dão conta da má relação que existia entre ela e a cunhada, marcada por “divergências políticas e alguma animosidade”. E isso contribuiu para a “afastar do convívio com o irmão, que “adorava (...) e agora perdia para sempre”.

Os candidatos a PR Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo representavam duas fações do eleitorado de esquerda em 1986

Os candidatos a PR Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo representavam duas fações do eleitorado de esquerda em 1986

Rui Ochôa

Francisco Salgado Zenha, advogado, fundador e militante do PS e, sobretudo, amigo de Mário Soares, apresentou a sua candidatura à presidência a 15 de novembro de 1985, quase quatro meses depois de Pintasilgo ter anunciado que iria entrar na corrida para Belém. Este adversário político foi a carta fora do baralho de Maria de Lourdes, retirando-lhe um importante apoio que tinha por certo: Ramalho Eanes, o Presidente que a tinha nomeado primeira-ministra num Governo de iniciativa presidencial.

O não apoio de Eanes “foi uma surpresa para ela”. “Não sei se a chocou, mas não a deixou indiferente”, explica Alberto Martins. “Não tínhamos nenhuma expetativa” que surgisse “uma candidatura tipo Salgado Zenha. Esperávamos que ela pudesse conquistar [mais] apoios na sociedade portuguesa e que nunca tivesse de concorrer com mais duas candidaturas à esquerda...”

O conflito entre as duas candidaturas manteve-se até ao fim. “Um dos momentos que retenho foi o da decisão política que ela teve de tomar quanto ao desistir ou não da sua candidatura, cerca de uma semana antes [das eleições] pela avaliação das sondagens”, diz ao Expresso o ex-ministro do PS: “No decorrer da campanha eleitoral, ela pediu a opinião de todos os membros da comissão política sobre o que é que devia fazer” perante os dados das sondagens.

Ouviu todos e decidiu ir a votos no dia 26. “A comissão política dividiu-se entre as pessoas que achavam que ela devia desistir e os que achavam que devia continuar. A divisão tinha um traço nítido - todos tínhamos a consciência que se ela desistisse, Salgado Zenha passava à segunda volta”, recorda Alberto Martins.

Apesar disso, quando foi lançada no verão de 1985, a candidatura de Maria de Lourdes foi uma lufada de ar fresco na forma de fazer política em Portugal. Depois, surgiu essa “clivagem entre as pessoas mais próximas do PRD [Partido Renovador Democrático] e do general Eanes, e os outros. Dividiu-se quase 50/50”, acrescenta Alberto Martins.

A lebre de Soares

Sem querer, Pintasilgo acabou por ser a lebre de Soares, a candidata que garantiu a ida do secretário-geral do PS à 2ª volta. O Partido Comunista tomou posição, anunciando a desistência do seu candidato, Ângelo Veloso. “Ao apoiar Salgado Zenha, Eanes retirou [todo] o apoio da parte mais à esquerda do eleitorado que queria votar Pintasilgo” e o “PCP empenhou-se decididamente na campanha de Zenha”, lembra o capitão de Abril Sousa e Castro: “É um paradoxo: o Zenha era considerado geralmente muito mais à direita do que o Mário Soares”.

As mulheres alentejanas a falarem sobre as suas vidas com Lourdes Pintasilgo. Era mais fácil do que com Zenha, Soares ou Freitas. 1986

As mulheres alentejanas a falarem sobre as suas vidas com Lourdes Pintasilgo. Era mais fácil do que com Zenha, Soares ou Freitas. 1986

Rui Ochôa

Maria de Lourdes, que quis ser uma mensagem de esperança, acabou por desempenhar o papel que nunca quis nas presidenciais de 1986: “Segundo fontes do próprio PS, Mário Soares recebera indicações claras da parte de dois norte-americanos, especializados em eleições, no sentido de manter Pintasilgo na corrida eleitoral”, escrevem os autores do livro “Pintasilgo - uma história para o futuro”.

Com o país fortemente bipolarizado, e três candidatos a disputarem o voto da esquerda no dia 26 de janeiro, Soares passou à 2ª volta com 25,43%, ultrapassando 1,4 milhões de votos. Zenha teve 20,88% e um pouco de 1,1 milhões de votos.

Maria de Lourdes, a católica que conseguiu fazer uma transição do Estado Novo para a democracia e que em 1969 recusou um convite de Marcello Caetano para integrar a lista de deputados à Assembleia Nacional (mas, paradoxalmente, aceitou ser designada procuradora à Câmara Corporativa nesse mesmo ano), ficou-se pelos 7,38%, com menos de meio milhão de votos (418.961 ao certo).

A derrota eleitoral apenas provou que “naquela altura quem não tivesse um partido político [a apoiar] não teria grande margem de manobra”, explica o então diretor de campanha Sousa e Castro. Luís Moita, o amigo que no seu elogio fúnebre disse que ela era uma “pessoa de grande densidade humana”, lembra que “o segredo do agir político é [saber] conciliar a ambição dos valores com o realismo dos interesses”.

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