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Presidenciais 2016

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Marisa põe toda a carne no assador

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JOSÉ COELHO/epa

Na ressaca do debate na RTP, Marisa Matias iniciou a reta final de campanha com uma boa receção na feira de Vila Nova de Famalicão, para qual o BE convocou a tropa de elite: a candidata teve ao seu lado Catarina Martins e Francisco Louçã, os três juntos pela primeira vez numa iniciativa eminentemente de contacto popular

A aproximação ao recinto da feira de Famalicão foi feito já com algum custo. Junto à entrada, algumas pessoas esperavam por Marisa Matias, tendo mesmo uma delas interpelado uma jornalista, pensando tratar-se da candidata.

Marisa chegou ao mercado com dois acompanhantes surpresa: Catarina Martins e Francisco Louçã. Ainda na rua foi abordada por um apoiante, que garantiu empenho incondicional. “Mesmo que a senhora não ganhe, eu e mais 276 pessoas de Vila das Aves estamos prontos para lhe dar todo o apoio”.

Preparava-se a candidata para iniciar o giro por feirantes e clientes em compras quando uma voz a obrigou a desviar-se ligeiramente do caminho. Foi Maria da Conceição, a vendedora de castanhas postada à entrada da feira, que chamou Marisa pelo nome.

De corpo inteiro e mãos limpas

Marisa sente-se bem no contacto corpo a corpo com os eleitores. Acede a todas as solicitações, e quando elas não acontecem toma a iniciativa de entrar pelos espaços dos feirantes, para dois dedos de conversa ou um simples cumprimento.

Marisa é expansiva, ri frequentemente, está por norma descontraída, e muitas vezes é essa abordagem que prevalece sobre os rituais mais formais e distantes de um político à conquista de votos, mesmo em feiras ou mercados.

Por vezes é imprevista na rota, dando guinadas ora para um lado, ora para outro, voltando algumas vezes para trás, o que desespera operadores de câmara e fotógrafos, à espera de um percurso e de um ângulo que afinal não acontece.

O diálogo com a vendedora de castanhas foi disso exemplo. Em jeito de despedida, Maria da Conceição, sabendo que tem as mãos negras de cinza, como é natural em qualquer vendedor de castanhas, esboça um cumprimento de forma algo encolhida. É Marisa quem, com visível afeto, define o protocolo: “Oh, minha senhora, com as mãos”, apertando-as de imediato, e dando em contínuo um abraço a Maria da Conceição.

Nuno Botelho

Uma “troika” no terreno

Conta quem esteve na feira de Espinho, na segunda-feira, que a desenvoltura da candidata não foi hoje propriamente uma surpresa. Talvez a quantidade de contactos favoráveis a Marisa Matias, muitos por iniciativas de feirantes e de quem passava no mercado, tenha sido a diferença.

Para o volume da campanha desta manhã muito contaram os apoios de peso. Sem retirarem o palco à candidata, o facto é que Marisa Matias beneficiou, em muito, da presença de Catarina Martins e de Francisco Louçã. Não estavam lá para outra coisa, mas nem por isso é menos relevante o seu contributo para tal somatório.

Foi a primeira vez que os três estiveram nesta campanha numa ação de rua, talhada para contactos com a população. É verdade que no sábado estiveram numa arruada na Avenida da Liberdade, em Lisboa (tendo ao lado Pablo Iglésias), mas o registo alfacinha naquela zona da cidade nada tem a ver com qualquer feira ou mercado deste país.

“Apoiei a menina e também a vou a apoiar a ela”, diz uma senhora, cumprimentado Catarina Martins. Também a Louçã muita gente se dirigiu. “É a primeira vez que o vejo pessoalmente, senhor professor”, diz-lhe um homem. Já fora do primeiro plano da política, são bastantes os que interpelam Louçã.

Talvez porque seja o mais curtido dos três (ele, Catarina e Marisa) na arte de bem percorrer feiras e mercados, Louçã mostra que não perdeu o jeito. Durante a visita, por várias vezes, é o fundador do Bloco quem, discretamente, indica ao “staff” e à candidata qual a direção a seguir, o corredor a ser evitado, a pausa que deve ser feita.

Os juros do debate

Mas se Marisa ganhou com a presença de Catarina Martins e de Francisco Louçã, é apenas a ela própria que deve sobretudo a notoriedade. A avaliar pela receção de alguns populares que se encontravam na feira, as pessoas estão mais atentas aos debates na TV (pelo menos ao de ontem) do que por vezes se diz; e na avaliação do encontro que juntou nove candidatos na RTP, o desempenho de Marisa Matias, que colocou em discussão o pagamento de subvenções vitalícias a ex-políticos, foi valorizado.

“Os meus parabéns por ontem. É assim que eu gosto de ver uma rapariga nova”, diz-lhe, em tom malicioso, um homem em que a idade nova parece já ter passado há algum tempo.

As críticas de Marisa Matias às subvenções vitalícias para ex-políticos foi, de facto, assunto muito mencionado no mercado de Famalicão.

E não o foi unicamente por indefetíveis da candidata. “Parabéns pela sua intervenção sobre as subvenções. De outras coisas, já não posso dizer o mesmo”, diz-lhe um homem, para quem um horário de trabalho de 35 horas semanais (outra das ideias defendidas por Marisa) “é pouco”.

“Eu trabalhei 53 anos e trabalhei sempre 48 horas”, afirma Carlos Monteiro, recordando também desta forma regimes laborais de outro tempo. É mesmo de outro tempo, porque quem falou assim tem 88 anos, embora na aparência pareça muito mais jovem.

A receção em Famalicão, com momentos entusiásticos, não ilude, no entanto, pedras no caminho da candidata apoiada pelo BE. Num dos raríssimos diálogos desta manhã em que pareceu haver algum gelo, um homem pergunta a Marisa: “Está a tentar convencer-me?”

“Não, estava a cumprimentá-lo”, responde a candidata.

“Mas deve tentar convencer, a política é mesmo assim”, contrapõe o interlocutor de Marisa, alguém que diz “ser do PS há 40 anos”.

Fim de subvenções para ex-presidentes

A política é mesmo assim, e no debate na TV a eurodeputada do Bloco lançou as sementes que lhe permitiram na manhã desta quarta-feira ter uma colheita mínima para enfrentar os três últimos dias de campanha.

Aos jornalistas, no final da visita (e antes de uma arruda, pela hora de almoço, em Guimarães), Marisa Matias reafirmou que considera uma “vergonha” a existência de subvenções a antigos titulares de cargos públicos. “Envergonho-me na decisão ((do Tribunal Constitucional)) e também de quem a requereu”, visando assim não só Maria de Belém como outros deputados de PS e PSD, entre os quais estão “apoiantes de Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém”, o que explica o “silêncio” destes candidatos sobre a questão, disse Marisa.

Numa manhã sombria e semi-chuvosa, com um bom prenúncio logo junto ao assador de castanhas, Marisa Matias teve um caloroso acolhimento no início desta etapa minhota do final da campanha. O ataque a privilégios de ex-políticos (como antigos deputados ou ministros), já se percebeu, deverá ser o cavalo de batalha da candidata no tempo que lhe resta para convencer indecisos ou roubar eleitores a outros candidatos.

E a posição de Marisa Matias a este respeito é tão radical (na linha do que disse Sampaio da Nóvoa após o debate na TV) que até defende o fim de subvenções vitalícias para os antigos chefes de Estado. “Sou contra todas as subvenções, os presidentes da República não são exceção”, declarou aos jornalistas no final da visita.