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Presidenciais 2016

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Uma velhinha jurou a Marcelo que ele vencerá à primeira. A jura vale um bagaço

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José Carlos Carvalho

Na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, Marcelo ouviu a certeza de que domingo estará eleito. Foi o ponto alto de um dia a meio gás, por causa da morte de Almeida Santos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Texto

Jornalista da secção Política

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

Fotos

Fotojornalista

Isto de velhinhas que irrompem por uma campanha adentro fazendo previsões tem muito que se lhe diga. Numa célebre campanha legislativa, em 1995, quando se decidia o sucessor do primeiro-ministro Cavaco Silva, Fernando Nogueira, então líder do PSD, cruzou-se com uma velhinha na Lixa (concelho de Felgueiras) que lhe garantiu, de certezinha certezinha, que o PSD venceria as eleições. A convicção da senhora era tanta, e Nogueira precisava tanto de se agarrar a qualquer coisa que o animasse, que "a Velhinha da Lixa", como prosaicamente ficou conhecida, passou a ser uma das figuras da campanha - e ficou tão conhecida pela sua previsão como pelo seu absoluto falhanço.

Esta terça-feira, também Marcelo Rebelo de Sousa encontrou uma velhinha (encontrou imensas, mas já lá vamos...) que fez questão de se chegar a ele para lhe anunciar, de ciência certa, que isto está ganho. Foi no lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Maria da Glória Melo Mendonça, do alto dos seus 89 anos e do baixo do seu nem metro e meio, tentava furar para chegar ao candidato, rodeado de jornalistas. Na sala de convívio do lar de idosos, Marcelo fazia conversa com outra senhora, que se queixava da vista fraca, e Marcelo queria saber se o problema era ver ao longe ou ao perto - o candidato é assim, tem sempre mais perguntas, parece sempre preocupado, toca nas pessoas, afaga-as, olha-as nos olhos, faz que sim com a cabeça, não se afasta antes de ter feito a conversa toda e ter em troca respostas até de quem não estava interessado em dar-lhas.

Maria da Glória estava a ficar impaciente. "Eu só queria dar um recadindo", e, baixinha, dava toquezinhos no traseiro do candidato, que não se distraía da sua conversa com a senhora da vista fraca. "Estas velhas têm a mania", protestava Maria da Glória, possuidora de informação importante que só a idade, e a tendência para relativizar, fazia com que dissesse que era apenas um "recadinho".

E eis que Marcelo se vira, olha para baixo, vê-a com a sua mantinha quentinha aos quadrados, e uma boina de tricô, e olhar matreiro. "É só para lhe diz uma coisa", anuncia Maria da Glória, mas aproveita e, de caminho, agarra o candidato do olho azul, dá-lhe um beijinho e um abraço, que ele retribui ainda com mais gosto. E vem a notícia:

- Já não vai à segunda.

- Ai não?

- Já não vai à segunda porque vai ganhar já à primeira.

- Acha?

- Pode ter a certeza. É a certeza da velha.

E com esta Maria da Glória arrumou o candidato. "É curioso, porque temos aqui uma analista política, uma comentadora política...", ia comentando Marcelo, enquanto passava à idosa seguinte, para saber da sua história.

Pois ficou Marcelo sem saber que Glória não é uma comentadora qualquer e não anda ali a ver passar candidatos. Ou melhor, andar até anda, mas faz mais do que vê-los passar. Já tem uma fotografia "com o Portas" e outra "com o outro que também era do Governo... o.... o Coelho." Passaram ambos pelo lar em tempos e é óbvio que Glória prefere um ao outro (mas não ao ponto de dizer, como uma idosa disse a Marcelo, que "o Coelho, deviam guisá-lo com batatas").

Mas a conversa de Glória com Marcelo soube-lhe a pouco. Esperou que o candidato desse a volta e apanhou-o noutra sala. Queixa-se da reforma, queixa-se do último aumento que teve, de 4 euros. "Até estive para mandar os 4 euros ao Passos Coelho para ele tomar um cafezinho"...

Marcelo conta-lhe que não toma cafés e espanta-se que a senhora, com aquela idade, ainda o faça. Ela faz isso e mais: "Tomo café, tomo bagaço, tomo cerveja, tomo tudo, por isso estou cá." Marcelo, em vez disso, toma remédios para doenças reais e imaginárias, mas abdica de contar esse pormenores. Glória continua: "todas as noites tomo um bagaço com açúcar, se não, não durmo." Marcelo arregala os olhos, talvez porque não dorme.

- E faço ginja também...

- E bebe?

- Aí não! É para os outros, não?

Ficava explicada, quem sabe, a origem do prognóstico da vitória à primeira volta. Pelo sim, pelo não, o candidato não deixou cair tão bom augúrio:

- Se acertar na sua previsão, venho cá e tomamos um café e um bagaço. Ou eu tomo o bagaço, e a senhora toma o café.

- Tomo o café e tomo o bagaço - protesta a mulher.

Marcelo concorda.